Imprensa, classe dominante e causas populares. O caso de Diadema.

Entrevista com o sociólogo e historiador Valderi Antão Ruviaro (Valdo) – extraída do trabalho de Solange Pereira Borges, apresentado ao Departamento de Comunicação e Artes da USP, em 2000, sob o título “Diadema Jornal: recuperação de um vínculo histórico com a comunidade.”

Como o senhor poderia estabelecer um panorama do Diadema Jornal e a política da cidade, em termos da atuação do veículo?

Poderia fazer uma relação a partir do que pesquisei, utilizando o arquivo do Diadema Jornal. De fato eu peguei algumas coisas de 60 para frente, neste caso da época que a editora tinha outro jornal (São Paulo Zona Sul); observei de 1963 para frente, ou seja, até o Michels (prefeito Lauro Michels), antecessor de Gilson em 82 (prefeito Gilson Menezes) a linha fundamental do jornal, que eu quase arriscaria dizer era de divulgação vinculado à administração municipal, praticamente um informativo municipal até o prefeito Michels. O jornal transmitia o que acontecia no setor público municipal, vez por outra apareciam fatos nacionais e internacionais, mas apenas quando eram fatos de grande impacto, de grandes proporções; além disso, observei que o jornal era bem “caseiro”, privilegiando, muitas vezes com páginas inteiras, acontecimentos da sociedade como aniversários e outras manifestações das classes mais altas.

De fato – inclusive uma crítica mais dura – é que de fato o jornal circulava no meio de quem detinha o poder econômico, isto qualquer jornalista ou sociólogo poderá constatar. Um pequeno exemplo é a omissão das causas populares. Até 1982, quando era citado algo, era neste sentido “Chacina de….”, não havia destaque para as causas populares. Bom, dava para perceber que dependiam economicamente da prefeitura para sobreviver. Existiam anúncios, mas eu não saberia dizer, pois não cheguei a este detalhe, mas eu acho que uma grande parte da publicidade era do setor público, uma cota “X”, de fato ele não procurava outras fontes para poder sustentar-se. Este vínculo existia com muita clareza de 82 para trás, os noticiários internacional e nacional não eram a grande preocupação e, sim, uma preocupação caseira vinculada a uma classe dominante de Diadema mesmo, e vinculada ao poder público enquanto órgão que noticiava as questões públicas municipais. É evidente que noticiava questões municipais e extrapolava isto quando existiam vínculos com organismos estaduais ou nacionais, por exemplo, o projeto CURA (Comunidade Urbana de Recuperação Acelerada – tal projeto do governo federal privilegiava o investimento de infra-estrutura nos centros das cidades de forma a atrair novas indústrias), que, na gestão Michels, e até antes, teve grande espaço no jornal, pois eram verbas federais e estaduais que vinham para cá para fundamentalmente urbanizar o centro da cidade – você pode pesquisar – e não foi só aqui, não, que este projeto foi implantado, neste caso as reportagens iam mais longe pois dependiam de trabalhar a nível geral.

Teve um primeiro momento na gestão Gilson para frente, aí de fato houve um corte até por conta de uma política de rediscutir os órgãos informativos na visão da esquerda. Aliás, o próprio Capel (Alicio Capel -diretor-editor) ele foi da imprensa (Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Diadema) não sei quanto tempo, mas ele deveria ter notado como o jornal era conduzido e procurou mudar. Neste vínculo histórico que vinha sendo abordado, eu diria que não ocorreu um rompimento, mas, sim, uma reorientação enquanto órgão informativo do setor público; aí de fato o Diadema Jornal se desvincula do setor público, que era praticamente como órgão oficial. Mas, neste momento, muda-se a visão de imprensa, isto está dentro das palestras que implantei no ano passado aqui na cidade; essa nova atitude chamei de “A estratégia da administração popular e democrática”, dentro disto é que a gente entende o porquê que a própria imprensa oficial foi vista de forma diferente, isto aliás é um pouco geral em todas as administrações populares.

Em Diadema, em 83 com a eleição de Gilson Menezes, mudou-se a estratégia do poder local. Arriscaria dizer o seguinte: que até 82, todo o poder público estava voltado não para as grandes causas populares, mas, sim, para quem detinha poder. Era a média indústria e o comércio subsidiário das automobilísticas. Para a periferia não havia estratégia. Isso é facilmente verificável através das estatísticas antes de 82. A primeira gestão de Gilson recebeu uma bomba na mão em termos de administração pública.
Eu estou colocando esses aspectos porque é dentro disto que dá para entender também a questão da veiculação da notícia seja por um jornal, ou por outros mecanismos internos da prefeitura de auto-informação. A estratégia da administração popular de Diadema partiu basicamente do seguinte: “Nós vamos voltar a nossa política para os interesses populares”, ou seja, há uma guinada da “direita para a esquerda”, eles colocaram a máquina pública para servir as políticas sociais vinculadas às necessidades e ao interesses da população de Diadema. Neste caso, eu destaco 4 ou 5 coisas principais desta estratégia. O que é este voltar-se para os interesses populares? Aí se dá uma guinada quantitativa e qualitativa na história de Diadema. Agora veremos o que foi prioridade de lá para cá, independentemente das divergências existentes entre Gilson (hoje PSB), Augusto-PT (ex-prefeito), Gilson-PT lá atrás e depois Fillippi-PT (ex-prefeito), a um certo rumo em que Diadema avançou onde a origem está no Gilson.

A política de Gilson se assentou em alguns pontos básicos: habitação, infra-estrutura, saúde, educação, transporte público, um pouco mais tarde, mas que já naquela época existia, o meio ambiente, que veio avançando; e outro aspecto que esteve sempre presente com maior ou menor ênfase foi a questão da segurança, e este continua sendo um problema até hoje, também em nível nacional. Se observarmos a moradia ou habitação, a infra-estrutura com a questão do saneamento básico que aqui você pode desdobrar em água, luz e asfalto (estas três coisas fundamentais eram inexistentes). De 82 para trás, pisava-se em barro na cidade. Eu fui assessor do Sindicato em São Bernardo do Campo, e vinha distribuir material no bairro do Serraria (Diadema) e vinha de botas para enfrentar o barro. Se consultar todo o pessoal que tem 35 anos ou mais e que veio para Diadema, há a constatação do que eu estou dizendo, nos 11 bairros não havia nenhuma infra-estrutura, e este fato incomodava o povo.
Outro dado sobre a cidade que preocupou muito foi em relação à moradia. Diadema teve um crescimento populacional muito grande em um curto espaço de tempo. A explosão demográfica foi fortíssima, se você pegar a estatística até chegar aos 350 a 400 mil habitantes de hoje, verá que ela fez isto com uma rapidez enorme só comparável a alguns municípios deste país. O problema da habitação foi terrível, o favelamento de Diadema de 82 para trás era enorme, havia este tipo de moradia em todos os bairros, além dos despejos que eram feitos aqui; a favela do Vergueiro (localizada em São Bernardo do Campo) foi despejada em grande parte em Diadema; além disso, tinha as automobilísticas que chamaram todo o mundo; o pessoal vinha e construía seu barraco e mandava ver. Isso foi um problema sério; então, à medida que a esquerda assume o poder, ela se volta para ver isto. A saúde pública também foi visada, grande parte dos equipamentos de saúde foram feitos na época do Gilson. Na educação ocorreu a mesma coisa, a rede de educação municipal foi implantada nesta época. Para mim, a guinada que eu disse está neste aspecto. A questão do transporte público também está neste quadro, a ETCD (Empresa de Transporte Coletivo de Diadema) foi fundada em 86, inclusive é um baluarte no cenário regional porque ainda não foi privatizada. Onde existem administrações populares hoje – podemos dar o exemplo de Santo André (atualmente é administrada pelo prefeito Celso Daniel, filiado ao PT) que privatizou, assim como São Bernardo do Campo, os transportes públicos. Além disso, Diadema consegue oferecer um serviço bom e o salário dos trabalhadores é o melhor do país, por isso a gestão de Gilson, naquela época e mesmo hoje, não tem nenhuma intenção de privatizar a ETCD.
A questão do meio ambiente, em virtude da represa Billings e as áreas de mananciais que cercam parte da cidade, começou a chamar a atenção, inclusive o primeiro congresso do meio ambiente foi feito em Diadema. Como você pode observar, na concepção da administração pública popular passaram a ser prioritárias estas bandeiras. Assim, deste ponto para frente se mantêm, com ênfases maiores ou menores durante as demais gestões, os trabalhos em cima dessas estratégias.

Em relação à imprensa, tentou-se avançar para poder informar estas novidades. Se pegarmos jornais como o Diadema Jornal, Diário do Grande ABC e mesmo a imprensa da capital como a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, todos os fatos que aqui ocorriam passaram a ter enfoque para matérias jornalísticas. O noticiário do Diadema Jornal começa a dar mais espaço a esse quadro. Eu não saberia dizer em qual categoria e como foram enquadradas, mas até isto você vai observar, um exemplo típico, quantas páginas eram dedicadas ao aniversário da cidade em 62, 63 até 82, praticamente existia alguma coisa especial mas não era tão especial assim, eram duas a quatro páginas e pronto. Agora se você pegar daí em diante, principalmente de 86 para frente, o próprio Diadema Jornal vai ampliando este espaço até chegar nos últimos anos em 50 páginas ou mais (essa referência diz respeito ao suplemento especial para o aniversário de Diadema que ocorre no mês de dezembro). Isto não é porque o Diadema Jornal faz questão de dar 50 páginas, mas, sim, porque uma estratégia mais geral impôs que a própria imprensa abordasse o que é assunto aqui e sem dúvida era e é notícia. Dentro desta atuação do jornal, é louvável ver que o Diadema Jornal tem competência para ver que Diadema merece isso.

Podemos concluir que Diadema teve altos e baixos, pois na década de 80 era uma novidade o que se passava aqui. No restante no ABC, os comandos não eram de partidos de esquerda, no máximo eram de centro para direita. Assim, a cidade era vista com temor porque de fato vinha com uma estratégia nova: prefeito operário (Gilson Menezes foi metalúrgico na Scania – empresa da região) – no meu ver coisa muito coerente visto que o ABC era formado por operários. Isso deixou as classes mais abastadas preocupadas com o que ia acontecer com Diadema, pois todos achavam que aqui era o estopim para ocorrer coisas de maiores proporções no país. Depois que passou esta fase, precisamente em 1988, quando houve uma explosão de administrações comandadas pelo PT, não só na região, as coisas começaram a ficar mais amenas, mas digo que os políticos de direita ficaram mais apavorados porque nesta eleição o PT atingiu por volta de 100 cidades com sua legenda. Chegaram até a achar que se criaria, no país, um clima de “ingovernabilidade” porque ninguém queria creditar competência ao PT. Assim, é bom que se frise que Diadema foi o laboratório das administrações populares no Brasil, muitos administradores de outras cidades vieram para o município para saber como eram conduzidas as coisas por aqui.

Outro fato relevante nas administrações populares está relacionado às Câmara Municipais, pois em todas as administrações populares do Brasil, com raras exceções, nunca essas gestões conseguiram maioria absoluta dos vereadores. Com isso, levanto um fato histórico de significação política: as administrações populares que conseguiram impor e garantir os interesses do povo, não através da Câmara mas via pressão popular. Os vereadores só concordavam em aprovar um projeto que ia ao encontro dos interesses da população quando o povo invadia a Câmara e pressionava o voto favorável.

Então, em Diadema, não se gerava informação por gerar, havia uma estratégia para isso. Posso citar, no caso da habitação, que de 82 em diante foi questão de luta armada, por causa de invasões e desapropriações. Lógico que isto era notícia, mas havia uma estratégia da política local de lutar pela habitação. Isso, em termos de noticiário regional, não ocorreu somente com o Diadema Jornal, se passarmos a observar o Diário do Grande ABC há uma avalanche de fotos, entrevistas e matérias com as abordagens voltadas para Diadema. Até hoje é assim, as notícias que saem sobre Diadema não surgem sem um fundamento; recentemente a revista Livre Mercado (edição sobre a região) mostrou, em matéria de capa, a revolução cultural da cidade. Você acha que isso foi feito à toa? Não, só teve razão porque o investimento em cultura vem sendo feito desde 82. Quem não conhece a cidade, pensa que isso aconteceu de uma hora para outra. A cidade tem conteúdo para reportagens. Mesmo que um órgão de imprensa não queira falar dos fatos de Diadema, vai ter um momento que ele vai ter que engolir as suas particularidades e publicar algo, isto até porque o público deseja saber, e nessa briga quem publicar leva o leitor.”

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