“FORA!… quem, mesmo?” (setembro/1992)

(…) Pedir o fim da corrupção (para ir à raiz do problema) é pedir o fim do sistema capitalista.
(…) Ontem foram Getúlio, JK, Jânio, Tancredo; hoje é Collor, amanhã Quércia, depois… Não se percebe por detrás do indivíduo o projeto da classe a que ele pertence e que representa e defende, em última instância.

“1. Hoje, por toda a parte, a toda hora, em todo o canto do País, o que se vê é um coro de indignados gritando “Fora, Collor!”. Empresários, fazendeiros, banqueiros, políticos, intelectuais, estudantes, aposentados, trabalhadores, crianças, homens, mulheres, pintados, com bandeiras, faixas, cartazes, pedindo o fim da corrupção, da bandalheira, da impunidade. Todos os símbolos nacionais são ressuscitados (bandeira, Hino, etc) para clamar por ética na política, moralidade no trato da coisa pública, dignidade. São passeatas gigantescas, comícios, atos públicos, abaixo-assinados, declarações em rádio, TV, jornais, boletins, panfletos, – todos exigindo o impeachment do Presidente Collor. De Alphaville a Diadema, de Norte a Sul do País, há uma unanimidade geográfica e social que fecha questão quanto à saída de Collor.

2. E todo esse amplo movimento das massas tem sido saudado pelos analistas, políticos, intelectuais, como um sopro renovador, rejuvenescedor, um chacoalhar na apatia em que a “sociedade brasileira” se encontrava, um despertar em direção à sociedade democrática moderna, civilizada, desenvolvida, que temos como modelo no Primeiro Mundo”. O que se diz é que o projeto econômico de desenvolvimento que vinha sendo posto em prática foi truncado por um traidor, um vilão que, com extrema habilidade, conseguiu enganar 35 milhões de brasileiros que, em 89, o elegeram presidente da República. Por meio dos privilégios que o cargo concede, esse grupo político conseguiu em pouco tempo enriquecer de forma espantosa, corrompendo e sendo corrompido. Desse modo, afirma-se, para que o desenvolvimento econômico e social possa prosseguir, é fundamental arrancar essa quadrilha do Poder e puni-Ia exemplarmente. Esses corruptos seriam um acidente na trajetória política do país.

3. O mesmo entusiasmo inconsistente e alienado que elegeu Collor (da parte da grande maioria) é que vai derrubá-lo. Do mesmo modo, vai ser essa mesma euforia cega que vai eleger um outro “Collor”, levando a população a embarcar em outras canoas furadas. E assim por diante… Esse enorme movimento de massas hoje, que tem resultados políticos objetivos de alcance inegável (e importantes, sem dúvida), tem fôlego curto, é frágil. E, por que?

Não temos a grande massa da população, os trabalhadores, politizada. A compreensão do processo histórico é geralmente equivocada. Do ponto de vista do poder político (e mais estritamente, do ponto de vista do poder executivo e parlamentar conquistado através das eleições/do voto), a análise que a maioria da população faz resvala quase sempre para o terreno das características e atitudes pessoais. A massa despolitizada e desinformada elege pessoas a partir de atributos individuais: belo, feio, simpático, bem falante, austero, paternal, corajoso, enérgico, arrojado, competente, etc. Esses são alguns dos adjetivos colocados como razões suficientes para o voto neste ou naquele candidato. E nos dias atuais, com os imensos recursos que os meios de comunicação proporcionam, (mais: com os imensos recursos do “marketing político”) muito mais eficaz e profissional é a construção dos “personagens”.

Ontem foram Getúlio, JK, Jânio, Tancredo; hoje é Collor, amanhã Quércia, depois… Não se percebe por detrás do indivíduo o projeto da classe a que ele pertence e que representa e defende, em última instância.
Sem a compreensão mais profunda da questão classista, a escolha se dando em cima de características pessoais, a conclusão seguinte e inevitável: “Eu, eleitor, errei em minha escolha, enganei-me. Julguei o fulano assim ou assado mas ele, no fundo, era outra pessoa. Sou culpado por ter escolhido mal. Espero que na próxima eu não me engane outra vez…”
A grande massa hoje nas ruas (basta ver os inúmeros depoimentos feitos) está se purgando pelo erro que cometeu. Collor foi um traidor porque “parecia um bom moço, o caçador de corruptos, o caçador de marajás, etc. e se revelou o próprio corrupto” – é a frase mais ouvida.

4. Mas, é sempre bom lembrar, “Collor” não existe no ar. Assim como o relatório da CPI constata que PC não existiria sem Fernando Collor, do mesmo modo Collor não existiria sem a classe burguesa que o elegeu e o sustenta e cujos interesses ele e seu Governo deveriam defender (e defenderam, muito bem, até o momento…). Aliás, também se discute, embora de forma mais restrita, a avaliação de que, se Collor e sua gangue não tivessem se descuidado e deixado vir à luz seu esquema próprio de corrupção, certamente a burguesia continuaria tranqüila e calada, artífice e gestora da corrupção maior, muito mais ampla, aquela que é inerente ao próprio sistema capitalista.

Pedir o fim da corrupção (para ir à raiz do problema) é pedir o fim do sistema capitalista. A miséria em que se encontra a maior parte dos trabalhadores na face da Terra, a fome, a doença, a mortalidade, a Etiópia, a Somália, a África do Sul, Los Angeles, o paradoxo da abundância (segundo a FAO há excesso de alimentos na face da Terra e, entretanto, a maioria morre de fome), enfim, o sistema capitalista não conseguiu (não quer e não pode conseguir) resolver os problemas básicos, elementares, de sobrevivência da maioria dos povos onde vigora. E não poderia não ser de outra maneira: seus objetivos não são esses. Explora super-explora porque seu objetivo fundamental é o lucro.

Com todos os recursos existentes, com todos os avanços nos meios de produção e nas formas de se produzir (e isso mesmo sabendo que os capitalistas truncam e impedem avanços nas forças produtivas sempre que isso diminui seus lucros), é impossível assistir sem revolta ao estágio de barbárie em que se encontram milhões de homens, mulheres e crianças. Na era espacial, dos prodígios tecnológicos, ainda o problema da grande maioria das pessoas e: “O que vamos comer hoje?”
Essa é a corrupção maior: abundância de recursos, de bens, de riquezas, de alimentos – tudo isso apropriado por uma minoria que, há séculos, vive bem, muito bem, com luxo e fartura, enquanto as grandes massas apenas conseguem driblar e protelar o dia da morte prematura (com maior ou menor grau de êxito).

5. Por tudo isso, impedir Collor, substituí-lo por Itamar, eleger Quércia, Lula, etc, tudo isso é ficar apenas na periferia do problema. Precisamos realizar transformações sociais, econômicas e políticas de fundo, radicais (no sentido primeiro de “ir à raiz” e no sentido de “revolucionar”).
Esse é o projeto que precisamos concretizar. A sociedade que precisamos construir – onde a grande maioria, da população e dos trabalhadores de fato exerçam o poder político e econômico em função dos interesses da grande maioria, onde a palavra democracia expresse de fato – em sua mais ampla concretude -o poder do povo MESMO – essa sociedade sem exploração, sem exploradores nem explorados, está sendo duramente construída ao longo da História. A experiência da construção do socialismo enfrentou e enfrenta obstáculos, equívocos, dificuldades.
Apesar das conquistas sociais inegáveis (saúde, educação, alimentação), um dos grandes engasgos dessa experiência e, certamente, um dos grandes equívocos nesse processo foi e tem sido a não-participação efetiva democrática da maioria no exercício do poder, isto é, a inexistência de fato do poder coletivo. Uma minoria, geralmente através do partido único, decide e comanda a sociedade. E isso contradiz e nega o projeto de uma sociedade com igualdade de condições, plural.

6. Mas, com ou sem equívocos, o projeto de construção de uma sociedade socialista, a luta por transformações radicais, numa palavra, a perspectiva socialista virou pó para a maior parte da esquerda no Brasil hoje. Não somente virou pó mas tornou-se motivo de piada, objeto de olhares enviesados, de sorrisinhos disfarçados, de expressões de piedade e comiseração para com o pobre “ortodoxo” que não vê que tudo mudou….
Não é por descuido nem por acaso que os partidos políticos de esquerda, a CUT e seus sindicatos, movimento populares combativos, deixaram de lado de vez a preocupação em organizar os trabalhadores e a população. Desistiram de vez de formar politicamente os trabalhadores, de conscientizá-los. Afinal, para que gastariam recursos e esforços nessa direção? As massas servem apenas para atenderem aos chamados quando é preciso levá-las às praças. No projeto hoje da maior parte da esquerda, a massa, o conjunto dos trabalhadores, não tem lugar, nem vez, nem voz. Para que, então, organizá-los nos bairros, nos locais de trabalho, nos partidos? Para que formá-los política e ideologicamente?
“Os trabalhadores como sujeito da Historia” é hoje apenas uma frase de efeito, de palanque, de assembléias. Em todas as instâncias, não é a maioria que decide. As direções decidem e editam a cartilha. Aos debaixo, cabe rezar de acordo com ela.
O projeto hoje da esquerda, por ironia, aproxima-se da concepção da extrema-direita mais radical: Fukuyama também prevê que a História acabou na sociedade liberal. O capitalismo é o fim da história, a melhor das sociedades possíveis… Talvez requeira apenas alguns melhoramentos.
Os bem-pensantes desencantados da esquerda não conseguem enxergar mais nada além de uma ordem social-democrata: essa é a sociedade moderna, civilizada, desenvolvida: é a sociedade onde não cabe mais falar de classes sociais opostas, antagônicas. Patrões e trabalhadores são parceiros agora num mesmo e único empreendimento: aumentar a produtividade, a qualidade dos produtos, avançar na produção e vendas, com isso, virão mais empregos, melhores salários, melhores condições de vida, etc. etc. Etc. Abriram mão da luta contra as desigualdades fundamentais, principalmente desistiram de batalhar pelo fim da exploração do homem pelo homem, a contradição mais terrível.

7. Enveredando por esse caminho, só lhes resta defender a bandeira do PACTO SOCIAL, DA CONCILIAÇÃO DE CLASSES. Não é por acaso que as correntes políticas de peso na esquerda vêm defendendo, com unhas e dentes, a velha e sempre ressuscitada proposta do CONTRATO, DO ACORDO.
Admitida a desigualdade (inevitável e eterna), nada mais resta senão propor um ACORDO entre as partes (desiguais) para garantir algumas melhorias e reformas sociais: melhores salários, distribuição de renda, saúde, habitação, educação, etc. Mas, o que garante a legitimidade e a eficácia do PACTO?
Na visão (idílica) do mundo civilizado de hoje, onde não cabem mais soluções violentas (já que não haveria mais nada a ser revolucionado violentamente…), a salvação está na ÉTICA; a
legitimidade e a eficácia estão garantidas pelos valores morais que norteiam a conduta dos PARCEIROS, daqueles que ASSINAM O CONTRATO.

Nunca se ouviu falar tanto em HONESTIDADE, SERIEDADE, HONRADEZ, PROBIDADE. A sociedade, parece, divide-se em homens honestos e sérios, e os corruptos, desonestos.
Políticos e lideranças da esquerda têm afirmado até que aquilo que os distingue dos demais é a seriedade, a transparência, etc. etc… Basta ver a campanha do SUPER-SUPLICY (na minha opinião, trata-se de algo muito mais em nível de concepção do que um equívoco e incompetência da assessoria de marketing, como quer a direção do Partido).

Em nome desse PACTO, é compreensível que também esteja ressuscitado aos quatro cantos o velho conceito de CIDADÃO que a todos nivela e que a tudo mascara.
Os CIDADÃOS, patrões e operários, cada qual no seu papel, teriam um objetivo comum e sublime: mediante um PACTO, garantido pela lisura e limpidez de sua conduta, fariam de tudo para organizar, nos planos econômico, social e político, a SOCIEDADE MODERNA DO LIVRE MERCADO onde todos alcançariam (em níveis diferenciados) o BEM ESTAR.
Não é por acaso que, no movimento sindical, na oposição no parlamento, na política partidária, as questões de ordem jurídica ganharam um destaque especial. Nunca se falou tanto em LEI, LEGALIDADE, etc. como se fala hoje em dia. É interessante notar que, no caso do movimento sindical, os departamentos jurídicos dos Sindicatos e Federações da CUT têm assumido um papel destacado de alguns anos para cá – assim como a questão do CONTRATO COLETIVO DE TRABALHO, que, de um mero instrumento, ganhou papel decisivo na tese da CONCEPÇÃO E PRÁTICA das correntes “Articulação” e “CUT pela Base”.
A operacionalidade do PACTO estaria, pois, garantida por uma ordenação jurídica sofisticada que ambas as partes (HONESTÍSSIMAS) cumpririam à risca.
A LEI tudo esclarece e ordena…”

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