25 anos de esquerda no Brasil: o que sobrou?

Sobraram 20% de corruptos
Sobraram 50% de acomodados
Sobraram 30% de reserva histórica
Sobrou uma multidão revoltada

Breve introdução
25 anos de esquerda no Brasil: refiro-me ao marco dos anos 1980 a 2005.
Refiro-me, ainda, à nova esquerda, à renovada e à velha esquerda. Esse período foi muito fértil e contraditório:

1. grandes mobilizações contra a ditadura
2. criação de novas formas organizativas populares, no campo sindical e político-partidário
3. criação e consolidação de movimentos populares na cidade e no campo
4. a esquerda teve o apoio dos movimento sociais populares
5. a esquerda ocupa sindicatos
6. a esquerda ocupa governos locais municipais
7. a esquerda ocupa governos estaduais
8. a esquerda chega ao governo federal
9. o mercado domina, coopta e corrompe parte da esquerda
10. o mercado está satisfeito com o governo Lula
11. os 53 milhões que votaram em Lula estão perdendo a paciência
12. a “esperança” no Planalto ruiu
13. a “esperança” da multidão está na planície, e não no Planalto.

Este é um bom momento histórico de se fazer um balanço da esquerda brasileira e ver o que, de fato, sobrou destes 25 anos.

Pelas minhas medidas estatísticas, políticas e ideológicas, nestes 25 anos de lutas, de mobilizações, de conquistas e de derrotas, foram construídos e consolidados, aproximadamente:

7 milhões de companheiros e companheiras
militantes
combatentes
ativistas
lutadores
pela causa de mudanças estruturais.
Esse esforço histórico
acumulou um potencial significativo
deixando sua marca em vários momentos.
Mas também
foi bombardeado por fora e por dentro:
por fora, diga-se, pelas forças dominantes
por dentro, diga-se, por desvios de rota
de uma hegemonia da esquerda com muita sede de chegar ao poder político
e vender-se por alguns bilhões.
E, o que é pior,
privatizar os bilhões
quer entre indivíduos, quer entre grupos e quer, sabe-se lá, entre gangues econômicas e políticas.
Hoje, os 7 milhões de combatentes estão distribuídos por caminhos diferentes.

Sugiro que cada companheiro ou companheira olhe para si (primeiro, veja onde você ou seu grupo estão, ou seja, em que bloco você se situa hoje) e depois olhe para os lados ou ao redor e tente lembrar-se de casos, casos e casos que podem confirmar nossa hipótese…

Atrevo-me a fazer a seguinte classificação
estatística,
política,
ideológica

20% de corruptos
Sim, é isso mesmo:
20% de combatentes de esquerda
que um dia abraçaram a luta
pela transformação da sociedade desigual
hoje são corruptos.
Somam aproximadamente, hoje,
1 milhão e 500 mil, dos 7 milhões.
Nestes 25 anos de batalha,
em todos os níveis encontramos
sinais concretos,
de carne e osso,
com nomes e idades,
inclusive encontramos corruptos em forma
de fantasma,
de laranja,
de maleta em punho,
de cueca cheia de notas, etc.
Parte desses 20% virou capitalista,
não importa se micro, médio ou múlti;
parte virou um batalhão de eméritos e competentes assessores do capital;
parte se bandeou para partidos de direita, sindicatos pelegos,
associações corruptas, etc;
parte entregou os pontos e hoje nem cheira, nem fede;
parte está ora cá, ora lá, cooptada de acordo com o soprar dos ventos;
parte espera, de forma matreira, uma boquinha e sempre morde a isca,
quando lhe é oferecida;
o que importa para a história é que esse bloco
optou pelo caminho de entregar-se aos
objetivos do capitalismo:
entregaram-se ao dinheiro;
entregaram-se à política neoliberal;
entregaram-se à ideologia do privatismo e individualismo;
Isto aparece com formulações variadas, como:
“agora vou cuidar da minha vida particular”
“agora vou cuidar da minha carreira profissional”
“eu não vou perder essa oportunidade”…
e lá se foram…
têm sua bela casa ou casas
têm seu alto salário
têm suas contas bancárias aqui e acolá
têm seus carros último tipo
têm todas as máquinas internetianas, etc
Os participantes desse bloco não recusam nenhum negócio.
O que importa é
acumular mais grana,
defender o “meu”
e que se dane o “nosso!
E se por acaso algum desses corruptos trombar na rua
ou em qualquer lugar
com outro(a) companheiro(a) de luta de outrora,
tenta desviar-se, mudar de calçada,
virar as costas, esconder-se,
desconversar e acabar rapidamente a conversa.
Concluindo:
aqui, com os 20% de corruptos,
a esquerda fracassou,
o capitalismo triunfou.

50% de acomodados
São 3 milhões e 500 mil.
Você pode me questionar, dizendo:
“Mas, é muita gente!”
É verdade, mas tem muito lugar
para acomodar muita gente.
Em 25 anos, a esquerda brasileira (a velha, a renovada e a nova)
ocupou, construiu e se instalou em
diversos níveis.
Vamos à lista dos lugares e níveis das diversas máquinas onde se encontram os acomodados,
ou melhor dizendo, onde foram acomodados:
acomodados nos sindicatos
acomodados nas federações sindicais
acomodados na central sindical
acomodados nas ongs
acomodados nos gabinetes de vereadores
acomodados nas comissões das câmaras municipais
acomodados nas secretarias municipais
acomodados nos departamentos municipais
acomodados nas autarquias municipais
acomodados nas assessorias municipais
acomodados em muitos conselhos populares municipais
acomodados no vasto cordão dos “puxa-sacos” – cabos eleitorais
acomodados nas diversas parcerias público-privadas
acomodados nos gabinetes das assembléias legislativas
acomodados nos escritórios dos deputados estaduais
acomodados nas secretarias estaduais onde o governo é de esquerda
acomodados nos departamentos estaduais
acomodados nas secretarias, departamentos e autarquias de governos de coalizão (parceiros de todo o tipo, do “torto à direita”)
acomodados nos palácios estaduais de formas as mais criativas
acomodados em diversos conselhos estaduais populares
acomodados na câmara de deputados federais
acomodados nos escritórios dos deputados federais nos Estados
acomodados no Senado Federal
acomodados nos escritórios dos senadores nos Estados
acomodados em todas as comissões parlamentares
acomodados no Palácio do Planalto
acomodados nas dezenas de ministérios, cada um com suas secretarias, departamentos, assessorias, etc. etc
acomodados nas estatais federais
acomodados nos órgãos federais localizados nos Estados
acomodados nos diretórios zonais dos partidos de esquerda
acomodados nos diretórios municipais dos partidos de esquerda
acomodados nos diretorios regionais dos partidos de esquerda
acomodados nos diretórios nacionais dos partidos de esquerda
acomodados nas centenas de secretarias e grupos de trabalho dos partidos,
nos níveis e atividades variadas
enfim, acomodados, acomodados, acomodados, acomodados e acomodados…

E olhe que não esgotamos a lista
de todos os meandros (para não dizer malandros) das máquinas.

Você pode ainda questionar, dizendo:
“Mas, todo esse pessoal é gente boa,
é gente nossa, veio das lutas, dos
diversos movimentos…”

Quanto à sua origem, podemos, em parte,
até concordar, contudo, quanto ao que
estão fazendo e para quem estão fazendo
é altamente questionável.

Apenas dois exemplos de alto nível:
primeiro, no Ministério da Fazenda temos um
ministro que veio de um berço popular e,
no entanto, ele e toda a sua máquina servem ao mercado
e com grande eficiência e desenvoltura;
Tivemos, e agora temos, um Ministro do Trabalho
que tem como projeto remendar a velha estrutura sindical fascista
adequada aos objetivos do mercado.
E esses ministros vieram da gema sindical combativa de outrora.
E para não dizer que só falei de acomodados
precisamos de fato reconhecer que alguns acomodados,
por vezes, até se sentem incomodados,
mas preferem continuar acomodados:
uma parte apostou no caminho da institucionalidade,
uma parte resolveu cuidar apenas de sua sobrevivência financeira pessoal,
uma parte almejou subir de cargo a cada jogada ou a cada nova
puxada de tapete,
uma parte quis pavimentar a sua carreira política,
uma parte avaliou que tem direito a este patrimônio histórico
a que a esquerda chegou,
e parte disputou e disputa uma possível hegemonia dentro das diversas máquinas arroladas.
Enfim, acomodados e acomodados,
e muitos destes levando a sério a mensagem
“sem medo de ser feliz”.

30% de reserva histórica
São pouco mais de 2 milhões
de velhos e novos guerreiros
que não baixaram a guarda
que não se corromperam
que não se acomodaram nas máquinas
são velhos militantes que resistem
são novos militantes que contestam
são velhas lideranças que levantam as
bandeiras históricas rumo a outra sociedade
são novas lideranças que apostam em mudanças profundas
são militantes ou dirigentes
que tiveram uma participação político-partidária na esquerda
na construção dos movimentos populares
São ativistas que participaram das lutas mesmo sem nunca terem sido
dirigentes sindicais, nem dirigentes partidários, nem dirigentes
de administrações públicas populares
São companheiros e companheiras
que se encontram em milhares de pontos neste país

estão em milhares de ruas
estão em milhares de roças
estão em centenas de acampamentos
estão em milhares de movimentos minúsculos ou maiúsculos
estão nas favelas
estão nos cortiços
estão dentro das fábricas
estão dentro dos bancos
estão nos mutirões urbanos
estão nos canteiros de obras
estão nas escolas e nas universidades
estão nas associações de bairros
estão debaixo das lonas pretas organizando ocupações
estão nos postos de saúde exigindo vida
estão nas matas defendendo sua terra
estão nos bairros exigindo qualidade de vida
estão nos grupos de desempregados buscando saídas
estão nos grupos de auto-gestão implementando o poder coletivo
estão escrevendo e produzindo material para a formação política
estão nas barragens resistindo às tormentas
Estão enfim em todos os cantos e recantos deste imenso País,
estão em todas as peles,
morenas, claras, escuras.

Esta reserva histórica continua fazendo a crítica radical
ao modelo capitalista neoliberal de exploração e dominação.
Trabalha ganhando o necessário para a sobrevivência
vive, em geral, de forma simples,
às vezes, dura, passando necessidade
e, de quebra, esta reserva histórica tem que agüentar
da esquerda que já se corrompeu ou dos acomodados
coisas do tipo:
“Vocês são uns dinossauros”
“Vocês estão isolados”
“O socialismo já era”
e outras coisas mais…

Esta reserva histórica está fazendo, neste momento,
uma dura crítica ao rumo do governo Lula por
ter se entregado aos objetivos do mercado e abandonado
a perspectiva popular.
Podemos afirmar que esta reserva histórica é a única que,
de fato, tem moral para falar à sociedade neste exato momento
onde a corrupção do poder salta aos olhos,
corre de boca em boca,
para não dizer “de caixa em caixa”.

Sobrou uma multidão revoltada
Finalmente,
não basta falar dos 1 milhão e 500 mil corruptos
não basta falar dos 3 milhões e 500 mil acomodados
não basta falar dos pouco mais de 2 milhões da reserva histórica.
Temos que ir além.
Temos que enxergar a multidão em movimento.
A multidão é a referência
A multidão é o futuro
A multidão está marchando.
Dos corruptos, nada se espera,
a não ser mais lama;
dos acomodados, só podemos esperar que sejam pedra no sapato
a atrapalhar nossa caminhada.
da reserva histórica, uma esperança a engrossar o caldo da multidão.
Mas, e a multidão?
Cadê a multidão?

Pois bem, vamos lá:
Uma olhadela pelos 25 anos e veremos que a multidão deixou sua marca:
O movimento popular contra a carestia
A luta pela reposição salarial
As lutas no campo dos posseiros, canavieiros, bóias-frias
Os movimentos grevistas do ABC e de São Paulo, alastrando-se pelo Brasil afora
A mobilização de solidariedade nacional às greves dos trabalhadores (comitês de solidariedade, fundos de greve)
A explosão dos movimentos de oposição sindical na cidade e no campo
As mobilizações dos desempregados com ocupações de supermercados
As grandes articulações sindicais, Unidade Sindical, ENOS, ENTOES, ANAMPOS, CONCLAT, PRO CUT E CUT
Mobilizações de milhares de trabalhadores em assembléias, Congressos estaduais e nacionais
Milhares de greves locais, setoriais e gerais
Milhares de ocupações de terra pelo MST
Frentes populares e centrais de movimentos populares encampando lutas sociais
Milhares de ocupações de prédios, de áreas vazias, pelos sem-teto
Grito dos Excluídos combatendo a exclusão de todo o tipo
Movimentos das Mulheres ocupando espaço na sociedade
Movimentos negros combativos em busca da igualdade
Movimentos GLBT quebrando tabus
Movimentos estudantis, cara-pintadas, ocupando as ruas
Multidão exigindo Diretas-já
Multidão do “Fora, Collor!”
Movimentos contra a ALCA, combatendo o Império dos Estados Unidos
Multidão de representantes no Fórum Social Mundial, buscando novos caminhos
Movimentos de cunho religioso, mobilizando e organizando setores populares
Movimentos contras as guerras
Surgimento de novas articulações e partidos de esquerda
Multidão exigindo “Fora, corruptos!”
Multidão começando a rasgar o seu título de eleitor
e, por que não, a sua carteirinha de filiação partidária…
E, por fim, uma multidão começando a ensaiar um coro de
“Fora!”, “Fora!”, “Fora!” que certamente vai se alastrar
em diversas direções e níveis.

E, para finalizar, queremos dizer que este tipo de avaliação não é novidade.
Diversos segmentos, especialmente companheiros dos 30% da reserva histórica, no final da década de 80, início dos anos 90, já faziam uma avaliação que apontava para este rumo que hoje se torna mais explícito.
Como exemplo, em abril e maio de 1994, nós mesmos lançamos um Caderno bastante polêmico que já fazia a seguinte avaliação:

“1. A CUT (e também o PT) nasceram e se consolidaram na medida em que foram assumindo a RADICALIZAÇÃO das lutas da classe trabalhadora da cidade e do campo.

2.A CUT (e também o PT) estão indo para o brejo e morrendo enquanto perspectiva classista, na medida em que foram se distanciando da postura de RADICALIZAÇÃO e, ao mesmo tempo, foram assumindo uma postura de domesticação, de amaciamento dos confrontos, de laitização, de colaboração de classes, de alianças anti-classistas, enfim, uma postura de segurar, travar e acalmar os ânimos da massa trabalhadora.

3. A CUT (e também o PT) vão indo para o túmulo de vez, na medida em que abandonaram a perspectiva do SOCIALISMO e se lançaram nos BRAÇOS DO CAPITALISMO!”

(Obs: Este texto integra o DOSSIÊ das mobilizações dos Movimento Sociais no primeiro semestre de 2005, a ser publicado em breve)

Valdo/Yara, Agosto de 2005

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