Adonis Bernardes

“Eu quero lembrar um pouco aqui de alguns militantes que foram fundamentais nessa época. Eu estava na Equipamentos Villares nessa época e não posso deixar de lembrar que o movimento dessa época teve a mão decidida de alguns militantes que trabalhavam em diversos campos da esquerda. Na verdade, (…) o Alemãozinho, que tinha um trabalho consistente, um homem que naquele momento desenvolvia idéias de esquerda (…) nós tínhamos um Saulo Garlipe, esquecido (…) uma época trabalhando também lá na Mollins, que era um organizador, nós tínhamos um homem que trabalhava, o Zé Maria, Zé Maria, tínhamos um Wagner Lino, eram todos trabalhadores que não estavam à frente do Sindicato, o Nanci, que eram pessoas que ajudavam muito na organização lá no chão da fábrica (…) então era muito importante esse pessoal e que dava uma retaguarda muito importante para a Diretoria do Sindicato num papel que o Sindicato não podia fazer naquele momento, não podia fazer abertamente, então isso era muito importante. E esse pessoal fazia a ligação do trabalho sindical nessa época com o movimento popular.

(…) falar do movimento popular, quem não se lembra do Movimento da Carestia nessa época nós juntamos mais de 1 milhão de assinaturas no país, aqui no ABC foram juntadas 115 mil assinaturas, o Gilberto Natalini inclusive na época estava junto nesse movimento. Por que? Era o movimento que colocou na praça da Sé mais de 20 mil pessoas, apanhamos lá na praça da Sé {…) naquele momento. E foi o embrião do movimento que junto com o Sindicato foi o embrião com uma série de movimento popular. A ocupação que ocorreu no Centreville, da qual eu estive à frente com o Batista e outros companheiros, ela começou dentro da Mercedes. O Batista estava na Mercedes, houve um grande volume de demissões na Mercedes e foi um grupo de 30 trabalhadores da Mercedes que viu a necessidade de ocupar aquele Conjunto. A gente juntou com outros segmentos do movimento popular, junto com trabalhadores da Glasurit, que era uma fábrica química que tinha um grupo lá liderado pelo Agenor, e juntamos esse pessoal e ocupamos o Centreville. E ela foi uma ocupação consistente porque tinha uma organização diferente, a gente tinha cobertura de todo o movimento popular, de D. Cláudio da Igreja, do Bernardo, Padre Mahon, do Padre Mahon, que tem uma história fantástica aqui no ABC de retaguarda a todo esse movimento. Esse pessoal fez com que o movimento popular se organizasse também. Isso começou sob influência do movimento operário (…) medo que todo o mundo tinha de tomar a frente. Então isso foi muito marcante. E deu certo. Todo o movimento que os trabalhadores organizaram e participaram, eles conseguiram produzir resultados. Inclusive Centreville hoje está com mais de 15 anos de ocupação, eu ainda estou morando lá no local e até hoje existe uma organização consistente, com trabalhadores, com dirigentes sindicais, gente de diversos movimentos participando e fazendo com que a luta do povo não se esqueça. Nós fizemos na época um filme, o Gilberto lembra-se disso, que era chamado A luta do povo. Esse filme passou em tudo quanto foi sindicato desse país, passou nos sindicatos, retratava as greves que estavam acontecendo no ABC, os movimentos populares. E foi marcante.

Hoje nós estamos tendo uma inversão desse papel. Não se faz mais o trabalho de militância no chão da fábrica como se fazia antes. Talvez possa ser porque sejam novos os tempos porém a luta do povo não tem tempo. Eu tenho a esperança que a gente possa, a partir desses elementos históricos, reconstituir uma luta prática que possa efetivamente fazer a transformação desse país, porque o país está em curso, o movimento popular não pode morrer, o movimento sindical não pode cair só nas falácias das negociações. É preciso ser mais contundente e a gente começar a avançar no exemplo de comissões como a que (…)”

Grêmio da Scania São Bernardo do Campo
29 de março de 1998

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