Eusébio (Antonio Eusébio e Silva) e José Cicote

EUSÉBIO

“Estamos aqui em frente da Pírelli a fim de gravar uma mensagem dos 20 anos de luta da classe trabalhadora da qual participei. Meu nome é Antônio Eusébio e Silva, naquele tempo eu era um diretor de base, trabalhando na área metalúrgica aqui da Pírelli, no setor do estirado e foi quando desencadeou um movimento de luta em função de um percentual de 34,1% que levou a classe trabalhadora a uma luta quebrando assim o arrocho salarial inclusive mas deflagrando uma greve depois de vários anos que não acontecia uma greve aqui no nosso país, principalmente na nossa região.

E eu tive, não sei se é o privilégio, eu tive o privilégio de participar desse movimento. Foi quando eu entrei no horário das 14 e marquei para o pessoal que até as 16h a gente tinha que parar a fábrica. Naquele momento, naquelas alturas, algumas outras fábricas da região já tinham parado, como a Scania em S. Bernardo, sob o comando do companheiro Gilson, que teve muito sucesso a luta naquele momento o trabalho dele naquela fábrica. E aqui a gente pegou, eu junto com outros companheiros, tinha o companheiro Cicote que fazia parte da Diretoria, inclusive era parte da efetiva, e o companheiro (?). E pra minha surpresa, a gente de repente aconteceu aqui. Parece que o trabalhador estava esperando uma voz de comando da qual a gente soube dar ela naquele momento muito bem dado mas a gente tem também que dizer que não foi fácil. Mas todas as seções foram paradas no horário em que eu determinei e pegamos a Pírelli numa posição muito, naquele momento ela ficou surpresa porque ela achava que isso não vinha acontecer dentro dessa fábrica.

E por outro lado foi bom que aconteceu que depois de 78 horas parada a Pírelli teve, abriu, quebrou, nós quebramos aqui o arrocho salarial de tantos anos, foi aqui dentro desta fábrica que nós conseguimos quebrar o arrocho salarial, então a Pírelli abriu com um percentual de 8% que isso a partir daí foi estendido para outras fábricas da região como S. Bernardo. Sabíamos também o que estava ocorrendo em S. Bernardo, que todas as empresas de grande porte estavam dizendo para o Sindicato, os trabalhadores, que o que outras empresas desse, ela abriria o seu percentual, elas também daria. Mas estava ganhando só na promessa, prorrogando aquela situação. Agora a Pírelli, não sei se é o fato de ela ter compromisso (…) no país, e aqui tem duas áreas importantes, que era a área metalúrgica e pneus, e que depois das 70h mais ou menos a pneus também veio a parar, e ela abriu o percentual de 11% que pra nós foi uma alegria, eu junto com os companheiros fizemos uma festa importante aqui dentro da fábrica, festejando aquele momento que deixou uma marca muito importante na vida da gente. Inclusive a gente tem que ressaltar o seguinte: que não é por que houve uma paralisação, eu era um diretor de base, fazendo um trabalho já…, aquilo vinha pesando a gente porque não era fácil ser um diretor de dentro de uma fábrica naqueles momento e quando chegamos parar, eu tive momento de emoção muito grande, tive momento de alegria e também de medo. Por que medo? Porque nós estava vivendo num regime de ditadura militar. E a partir daí nós sabíamos também que era a forma de quebrar aquela força da ditadura e como desencadeou eleições diretas, liberdade e autonomia sindical, que hoje a situação do país não é muito boa, nós sabemos disso, que a miséria ela reina por todos os lados, tem hoje uma miséria muito grande, mas há uma liberdade de imprensa, há liberdade de se falar as coisas, enquanto que naquela época se colocasse uma cornetinha em cima de um carro pra sair falando para os trabalhadores, o que ocorria? Éramos presos, humilhados por aí nas delegacias e os patrões não perdoavam, mandavam massacrar a gente.

Então hoje nós vivemos assim de certa forma não resolveu o problema da classe trabalhadora porque é um pouco complicado mas porque nós pegamos um momento de uma evolução muito grande do país e que não só do país como também do mundo, é uma transformação quase mundial e não teria condição de resolver essa situação. Mas estamos aqui relembrando esses 20 anos de luta e também eu quero deixar aqui, falar dos companheiros que participou com a gente e deixar inclusive gravado que se não fosse a força dos companheiros, a vontade deles fazer com a gente tudo aquilo que fizemos, não era fácil fazer. Então a gente deve essa luta, deve aos trabalhadores, unidos, a todos os trabalhadores da Pirelli que participou com a gente.

Inclusive tivemos momentos aqui que ficou marcado. Por exemplo, a Pirelli reunindo todos os trabalhadores no restaurante para tentar convencê-los de que eles deviam voltar a trabalhar sem uma proposta definitiva. E a gente receber telefonemas de companheiros assim lá no Sindicato que viesse correndo porque eles não iam aceitar essa proposta da Pirelli sem a nossa participação, que era a minha e do companheiro Cicote. E a gente vim pra portaria e a Pirelli ter que mandar buscar a gente pra conversar junto porque sem nós eles não conversaria. Então isso pra nós ficou gravado e a gente só tem… nunca vai esquecer esses momentos importantes que aconteceu aqui na nossa luta dentro da Pirelli. Eu não sei se eu cumpri o meu papel mas espero ter cumprido. E quero agradecer a todos os companheiros que participaram comigo nessa luta.

CICOTE

Nós estamos aqui na frente da Pirelli onde uma das partes mais organizadas da região do ABC, aqui os trabalhadores bastante politizados e contando alguns episódios dos companheiros da Pirelli, eu como trabalhei 17 anos, Eusébio que está aqui junto com a gente trabalhou 17 anos também aqui na Pirelli e fomos dirigentes sindicais num momento muito difícil mas a base estava muito organizada e eu era um diretor afastado, que eu era da efetiva do Sindicato, o Eusébio era da base, ele com outros companheiros de briga aqui dentro, luta aqui dentro, organizou os trabalhadores, os trabalhadores fizeram um movimento muito importante aqui dentro, aonde a gente chegou a ter em 78 uma das maiores paralisações, que aqui parou tudo, nessa empresa aqui parou tudo. E foi a empresa que quebrou também o monopólio das grandes (…), o monopólio industrial que não fazia acordo separado, e essa fez o acordo em separado, primeira que fez o acordo a nível de Brasil foi a Pirelli. Não dizer só do movimento sindical do ABC, ou só da Pirelli mas aquele ano o país todo seguiu o exemplo do ABC.

A primeira fábrica que parou foi a Scania, com o companheiro Gilson fazendo o mesmo papel do companheiro Eusébio aqui dentro, dentro da Scania, um companheiro importante, hoje é prefeito em Diadema. E esses companheiros então merecem muito respeito da gente, esses companheiros merecem o maior respeito que pode existir porque quebrou a ditadura militar e aquele tempo era muito difícil de encontrar quem queria fazer algum movimento, queria participar de algum movimento por causa da ditadura, o governo repressivo, era um tempo muito de escuridão, até que na época, nós passou tempo, tempo, e aqui teve, acho que o Eusébio já relatou os acontecimentos aqui, foi um acontecimento muito importante aonde eu levei umas porradas aqui dentro, outros correram, outros levou porradas, e eu apanhei da polícia, bati, apanhei, apanhei mais do que bati na realidade foi essa e aí teve o dia que fui preso.

Depois em 80 fomos cassados de uma vez. Afastou nós do Sindicato em 79 e em 80 a gente foi cassado de uma vez e foi preso. Eu até nesse episódio, eu tava um dia em casa que já tinha sido cassado, tava um dia em casa quando bateram na porta de casa me chamando: “O Cicote, o Cicote”, e a minha mulher pegou e falou: “olha, você acorda porque o pessoal do piquete está aí te esperando”. Eu nem acordei, abri a porta, (…) quebrou a porta, era a polícia que estava lá , não era o pessoal do piquete, não. Aí eu fique 36 dias ou 41 dias na cadeia, não estou lembrado. Depois fomos enquadrados na Lei de Segurança Nacional aonde teve um processo de julgamento muito… de carta marcada onde teve muitos companheiros condenados mas não ficamos na cadeia, todo o mundo respondeu em liberdade, todo o mundo ficou naquela prisão domiciliar, aquela prisão que… não ficamos atrás das grades, atrás das grades nós ficamos 36 dias ou 41 só que chegamos a um episódio que a gente pensou que tinha que sair do país, deixar o país por causa da repressão que era bastante.

Agora, todos os momentos aqui bastante bacanas foi da amizade que a gente teve, da amizade e do companheirismo que a gente teve, teve sábado aqui, você já contou Eusébio?, do sábado no restaurante, então fizemos uma reunião no restaurante muito importante, que o Eusébio já contou, pra não relembrar toda a história, não tornar a repetir.

A Cofap teve um momento importante, a Esan teve um momento importante. Então aqui os companheiros teve um momento importante. Philips foi a primeira que parou aqui em Santo André, na nossa base territorial, foi a empresa Philips e aonde teve o companheiro Toninho Silveira que não tá mais, já mudou daqui, tá aposentado, tá pro interior. Mas teve uns companheiros do Sindicato que eu gostaria de louvar neste momento, companheiros muito combativos. E eu acho que o fator importante foi que o companheiro Gilson em 78; a história não tem contado muito sobre esse rapaz no movimento sindical mas esse rapaz teve importância contra a ditadura militar, contra o arrocho salarial, e nós lutava contra o arrocho salarial, e nós lutava pela estabilidade do emprego. Hoje, o sindicalismo está um pouco diferente, já não luta pra… já não tem luta pra estabilidade do emprego, o negócio aqui é fazer pacotão, o negócio agora é mandar gente embora mas recebendo 4, 5 salários. E nós nunca lutamos com isso aí, nós nunca assinamos acordo pra mandar embora, nós nunca fizemos um acordo pra mandar companheiros embora. A gente ia na briga, parava a fábrica pra retornar. Se não retornasse ou cortava a cabeça de mais alguém, era outra história pra gente.

Mas o nosso ideal era que o companheiro não perdesse o emprego de espécie alguma, não perdesse o emprego porque a gente tava precisando que o companheiro fizesse uma casa, tinha segurança no seu lar, tinha segurança com sua família. Foi uma história muito boa, foi uma história muito importante, que eu me sinto muito feliz de ter participado junto com os companheiros aqui tanto o Wilson como o Ernesto Cencini, que foi diretor desta fábrica, não estão aqui mas foi diretor desta fábrica, é bom relembrar esses companheiros, e o presidente Renato Gama, que morreu aqui, morreu em 76, 75, por aí mais ou menos, antes do movimento 1 ou 2 anos, e os companheiros todos que ficaram aqui dentro da Pirelli; teve algum fura-greve também que saía correndo aqui nos anos 79, 80. Teve. Mas só que esses companheiros então, a orientação nossa era o seguinte: que ninguém conversava com ele, nem no banheiro, todo o mundo virava as costas pra ele. E até teve um rapaz que chamava Chico, no meu setor, que ele ficou até muito entristecido e pediu que fosse transferido de setor porque não agüentava mais a gozação do pessoal por ter furado a greve, traindo os companheiros, traindo não a memória dos companheiros, traindo aquele momento histórico aonde não se podia reunir 10, 12 pessoas que já era crime, se nós falava em liberdade e autonomia sindical era crime, se nós falava em segurança no emprego era crime, se nós falava em aumento de salário era crime. Tudo era crime. Tudo era crime.

Então depois veio aquela lei 1632 também que acabou de ferrar a gente, que não podia fazer movimento nenhum; pra gente fazer o 1° de Maio, nosso Sindicato nunca ficou fechado, Eusébio, no 1o de Maio, nunca ficou fechado no 1º de Maio, a gente sempre fez o 1º de Maio, a gente foi preso, eu fui um dos caras que foi preso convocando pro 1º de Maio.

Essa é a história principalmente que a gente gostaria que todo o trabalhador, toda a imprensa soubesse porque o 1º de Maio {…) quase todos os Sindicatos ficava fechado, o nosso Sindicato nunca ficou fechado. Santo André, Mauá, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra nunca ficou fechado, e não começou a abrir depois de 79, nós abria antes, fazia jogral de (…), fazia um debate, trazia político, cobrava da imprensa, a gente cobrava pela imprensa a gente cobrava dos governador, dos nossos parlamentares, todos eram convocados pra vir nas (…) dos metalúrgicos de Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Aonde que nesta portaria que nós estamos hoje aqui, ela é nova mas naquele tempo era velha, a gente muito tempo aqui entrou e saímos, entramos e saímos fazendo 12h e não era reconhecido. A gente até pela empresa não foi reconhecido, não foi reconhecido pelo trabalho não foi reconhecido porque quando cassou nós, todos os 4, tanto eu, como o Eusébio, como Wilson, como o Ernesto Cencini, a gente foi mandado embora, mesmo com estabilidade no emprego foi mandado embora, a gente tinha 1 ano de estabilidade no emprego, foi mandado embora não foi reconhecido nada. Então não tivemos assim aquele… por lutar assim pela liberdade, pela democracia, porque uma ditadura difícil agüentar, a gente viveu nela, só quem viveu sabe o quanto que é difícil, hoje a gente vive numa democracia graças a muitos companheiros. E nós estamos muito feliz, Eusébio, porque a gente faz parte dessa história, companheiro.

EUSÉBIO

A gente deu um pouquinho da gente pra que isso chegasse aonde chegou, conforme já citei na minha entrevista, e acho que a gente só tem que…. eu, por exemplo, me sinto até de certa forma feliz de ter, junto com companheiros como ele e outros, a gente ter dado essa contribuição nossa pra que quebrássemos essa ditadura que era ferrenha nesse país, principalmente a gente tem que ressaltar, que eu esqueci de falar na minha entrevista, o seguinte: trabalhador, ele não foi à luta não tanto por causa de salário, não foi tanto, a gente percebia isso, porque quando colocamos a proposta de greve foi uma coisa muito séria porque havia dentro de cada um aquele sufoco, aquela opressão do dia-a-dia, eram engenheiros comandados pela empresa pra ficar até andando nas seções com tabuleta debaixo do braço, marcando cada passo que o trabalhador dava e ainda com os seus supervisores que o trabalhador não tinha direito a falar nada, ele só tinha direito a ouvir, quer dizer, “faça o que eu mando, o resto eu não quero saber” . Então, isso estava trazendo uma série de problema, inclusive muito acidente de trabalho. Importante ressalvar isso, dava muito acidente de trabalho porque o trabalhador trabalhava nervoso e inclusive ficou comprovado: eu fiz particularmente a minha pequena estatística, depois dos movimentos de luta que a gente buscou a liberdade, que que ocorreu? Diminuiu mais de 70% os acidentes de trabalho. Por que? Porque o trabalhador passou a trabalhar mais tranqüilo e a produção melhorou. Isso nós ouvimos, chegamos a ouvir, está o companheiro Cicote que é prova disso, a própria diretoria da empresa chegou a falar isso pra nós, que a produção é a mesma coisa ou melhor, com melhor qualidade porque o trabalhador está mais tranqüilo. Então, a gente de certa forma deu a nossa contribuição não só para o país mas também até para a própria empresa e para os trabalhadores de modo geral.

CICOTE

Vocês aí vão assustar que eu estava olhando muito aqui pra trás, é que aqui na Pirelli eu sou muito azarado. Quando eu chego aqui a polícia (…) e a polícia veio no Banco aqui tirar algum dinheiro, fazer algum depósito, mas chegou a visitar a gente aqui. Eu não fico na Pirelli, eu sei que aqui na Pirelli a polícia vem, não tem jeito, ela vem mesmo. Mas agora a gente já está numa democracia que foi conquistada a duras penas pela classe trabalhadora e o nosso Sindicato teve um papel muito importante, a gente agradece a todos os companheiros, à base territorial de Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Agradece também aos companheiros que lutaram e alguns que tombaram naquela luta, alguns que perdeu o emprego naquela luta, pais de família que perdeu o emprego naquela luta, alguns companheiros ou companheira que esteve junto com a gente até o último momento, depois veio a intervenção, a gente foi pro pau com a intervenção, tiramos a intervenção, colocamos uma diretoria, e estamos dando apoio à diretoria, veio um movimento aqui em Santo André das 40h, participamos junto das 44h, das 40h, agora é 44, mas a gente teve uma participação muito importante. Eu agradeço muito, né companheiro Eusébio?, muito obrigado.

EUSÉBIO

E a luta continua.

CICOTE

O Eusébio, quando eu despedi dele, falou “luta continua”. Aquele tempo o nosso lema era A LUTA CONTINUA NA FÁBRICA E NA RUA. E a gente dizia também assim, essa era uma palavra de ordem da Convergência Socialista que ajudou muito o movimento grevista. A Convergência Socialista teve um papel importante, os companheiros achava que era radical mas teve um companheiro muito importante, Zé Maria, companheiros outros que hoje já foram embora daqui, não estão mais naquela tendência, mas era então de uma tendência política que o pessoal achava um pouco radical mas eles tiveram uma importância muito forte, muito grande na luta contra a ditadura militar, na organização dos trabalhadores aqui no ABC.

Então a palavra de ordem deles era: GREVE GERAL ATÉ A VITÓRIA FINAL. E tinha alguns companheiros que falava: GREVE GERAL ATÉ A DERROTA FINAL. Então era algumas questões assim pitorescas que a gente encontrava e outras reuniões que a gente ia até de madrugada, depois ia embora, a polícia perseguia a gente, e foi um passado assim bastante importante, o aprendizado, eu acho que aprendi mais aqui no Sindicato nessas brigas, na luta, do que numa Faculdade. Muito obrigado.

EUSÉBIO

Cicote, você lembra a música que nós cantava nas assembléias, com os companheiros na época? Vamos cantar só um pedacinho.

(Cicote e Eusébio cantam juntos):

“A classe roceira e a classe operária
ansiosa espera a reforma agrária
sabendo que ela dará solução
para a situação que está precária.
Saindo o projeto do chão brasileiro
se cada roceiro plantar sua área
sei que na miséria ninguém viveria
pois a produção já aumentaria
500% até na pecuária.”

Em frente à portaria da Pirelli
Santo André
abril de 1998

Esta entrada foi publicada em 20 anos da quebra do silêncio - 1978/1998. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
To prove you're a person (not a spam script), type the security word shown in the picture. Click on the picture to hear an audio file of the word.
Anti-spam image