Durval de Carvalho

“Nelsinho, eu penso que as minúcias mais interessantes desse período é que havia um ambiente de muito medo e de muito pavor na sociedade brasileira e nós éramos uma molecada com menos de 20 anos de idade; portanto nós estávamos descobrindo o mundo, e como o mundo era um mundo de pavor, pela repressão, pela ditadura, nós ficávamos entre a sensação de rebeldia, de contestação e ao mesmo tempo de incômodo, de medo porque nós não sabíamos como que as coisas iam se desdobrar objetivamente. As greves eram muito duras. Foi a primeira vez que eu vi policiais armados com bombas, cassetete, máscaras de gás, aqueles cachorros, aqueles pastores alemães, então quando você via uma fileira de policiais com 50 caras armados, aquelas bombas de efeito moral na cintura, aquilo era uma imagem extremamente forte e amedrontadora e nós tínhamos medo, eu tinha medo daquele negócio e acho que ninguém ficava imune.

Mas o que me chama atenção também é que nossa construção nesse período nas fábricas, eu me lembro em 78 foi o ano que eu entrei numa empresa metalúrgica da região que é a Cobrasma, uma fábrica de vagões de trem. Nós começamos ali a trabalhar os primeiros grupos de fábrica, era um trabalho clandestino, escondendo dos chefes, escondendo da diretoria do Sindicato que era ligada às empresas. E nós fazíamos conversa na hora do almoço, na saída, na entrada do trabalho, esse trabalho ele se constituía fundamentalmente em você escutar o que os trabalhadores estavam dizendo. Mais do que falar, nós tínhamos que ouvir, ouvir os trabalhadores, prestar atenção, levar o trabalhador a tomar uma cerveja, uma cachacinha, criar uma relação de amizade, de entrosamento, para você conquistar a confiança desse companheiro porque você não sabia se você estava falando com um trabalhador puro ou se você podia estar falando com um policial, que era muito comum naquela época as empresas de grande porte ter no seu interior policiais trabalhando disfarçados de operários pra identificar algum foco de conspiração, algum foco de subversão que era uma coisa muito forte na época. E então nós tínhamos que fazer xerox de jornais da época, jornal Movimento, jornal Em Tempo, vários jornais da esquerda, Companheiro, que eram jornais que tinham matérias importantes, matérias interessantes, e nós íamos fazendo xerox dessas matérias e passar pra pessoa ler. Então você levava dois, três xerox numa fábrica, nós fazíamos uma agitação, passava pra algumas pessoas ler, lê e passa adiante, então como nós tínhamos muito pouco recurso, era uma pobreza franciscana o nosso movimento, era do nosso salário mesmo, a gente fazia dois, três xerox e embaixo escrevia : leia e passe adiante. E isso acabava sendo lido por muitas pessoas, alguns deles por dezenas de pessoas.

E chega o momento que nós começamos fazer as primeiras reuniões do grupo de fábrica e essas primeiras reuniões nós fazíamos sempre em algum salão de igreja. Eu me lembro que aqui em Campinas nós tínhamos um seminário de padres seminaristas ali na rua Dona Libânia e que era um local, um lugar muito discreto e como nós tínhamos muita preocupação com a liderança sindical que podia nos dedurar, a polícia que podia nos enquadrar no DOPS, então a gente tinha que procurar lugares muito discretos e aquele local ali o seminário era onde a gente achava que tinha mais segurança. Então nós saíamos da fábrica e ia se reunir naquele local, sempre procurando chegar de uma ou duas pessoas, para não chamar atenção, chegando aos poucos, reuniões sempre de cinco, de seis, quando tinha seis pra nós já era uma assembléia, seis pessoas era uma grande reunião, uma bela reunião, pra você começar.

E nós fomos construindo esse trabalho e quando nós, em 78, nós tivemos a primeira disputa eleitoral no Sindicato, juntou um pouco de mais companheiros, foi uma primeira vez que a oposição se levanta em Campinas pra enfrentar o peleguismo sindical, foi uma experiência muito marcante, muito forte, porque foi uma aprendizagem. Claro, fomos derrotados eleitoralmente mas criou ali uma semente, plantou uma semente de um sindicalismo novo, combativo, identificado com as reivindicações e interesses gerais da sociedade, que era a luta contra a ditadura e ao mesmo tempo a luta por melhor salário, por melhores condições de trabalho.

Em 79, nós tivemos um salto de qualidade porque quando estoura as greves em São Paulo e no ABC, aqui também, mesmo a diretoria do Sindicato sendo contra as greves, nós conseguimos reunir numa assembléia no ginásio do Guarani aqui em Campinas cerca de 13 mil trabalhadores, foi a assembléia maior da década de 70 que nós fizemos. Treze mil trabalhadores foram lá, lotaram aquele ginásio e exigindo greve, todo o mundo exigindo greve. O dia foi uma terça-feira, nunca me esqueço, saímos da fábrica e fomos todos pro ginásio do Guarani e uma vez lá no ginásio do Guarani o presidente do Sindicato na época resolveu melar a assembléia: ele falou, falou, falou, falou, discursando sobre todos os perigos que podia trazer a greve, o desemprego, a demissão, o filho sem leite, a família sem amparo, etc, etc. e, como ele não conseguiu mesmo assim acalmar os ânimos da moçada que queria fazer briga, queria fazer uma briga, uma greve, ele desligou o som, catou o microfone e saiu pelos fundos do palco. E isso foi uma cena muito forte para nós, uma experiência forte. E nós não tínhamos naquela oportunidade nenhuma experiência que nos desse a capacidade da gente assumir naquele momento, subir no palco e assumir a palavra e dirigir aquele processo de mobilização. Se fosse hoje, nós faríamos isso como tirar o doce da boca de uma criança. Mas nós éramos apenas uma molecada, com menos de 20 anos de idade, aprendendo o beabá. Fntâo aquela foi uma coisa que marcou, foi um fato histórico de grande relevância, marcou a nossa vida de oposição aqui na região de Campinas. Mas a reação da massa foi uma reação de dispersão, de fúria, de raiva, milhares de companheiros rasgaram as carteirinhas de sócio. Aqui uma curiosidade, o pessoal foi pra assembléia na maioria deles com a carteírínha de associado, uma carteirinha preta, bonitinha, e quando houve aquele episódio de traição desavergonhada, escancarada, covarde, da diretoria do Sindicato com o movimento, a reação dos trabalhadores foi de rasgar a carteírinha. E nós da oposição ficávamos tentando convencer os companheiros de que rasgar a carteírinha de sócio do Sindicato não era a saída, ao contrário tinha que sindicalizar mais gente pra nós. nas próximas eleições, disputar de novo a direção sindical.

Também em 79, nós conseguimos mesmo assim contra a vontade da diretoria nós conseguimos parar algumas empresas na região: a GE, a Mercedes Benz, depois a Cobrasma onde eu trabalhava, nós coordenando aquelas greves, e era uma coisa ao mesmo tempo emocionante, uma aprendizagem, mas ao mesmo tempo uma coisa desafiadora porque o que você tinha de infiltração de policiais no meio nosso era uma coisa muito terrível. E tinha também, sem preconceito, militantes de esquerda bem esquerdista, bem malucos. Eu me lembro que nessa época os companheiros do Trabalho lançaram a idéia do sindicato livre, lembra do sindicato livre? “Não, vamos deixar esse sindicato aí, vamos fazer uma nova sede pra nós, etc, etc.” porque eles compreendiam que nós tínhamos que romper totalmente com aquela referência que a massa tinha daquele sindicato pelego e fazer um novo sindicato mas o desenho que a gente conseguia enxergar do novo sindicato não era uma concepção sindical nova, eu entendia que era uma nova sede, uma nova sede com endereço, com referência, com pessoas, etc. e era muito difícil pra nós enxergarmos, pra eu mesmo enxergar. Eu me lembro, era muito difícil enxergar essa transição tão radical, de você deixar aquela sede, aquela diretoria, que era referência já cultural e política pra nós trabalhadores e aderir ao sindicato livre que os companheiros propunham. E é claro ao mesmo tempo nós tínhamos com nosso convencimento é que nós tínhamos que limpar o velho sindicato com uma diretoria de base, de trabalhadores e dar a ele um novo sentido político ao sindicato.

E essa era uma polêmica que a gente desenvolvia no debate entre a esquerda. Ao mesmo tempo, nós tínhamos companheiros do MR-8, PCB, do PC do B, que tinham uma visão de que nós tínhamos que fazer uma aliança com os pelegos e tentar golpear os pelegos por dentro. ”Vamos passar um passa-moleque nos pelegos!”. Que era outra, na minha opinião, outra estupidez.

Um outro aspecto que parece ser curioso na época nesses anos 70, no final dos anos 70, também era como se conformava as oposições sindicais. Elas tinham no seu interior uma diversidade muito grande de partidos, de tendências, de agrupamentos e aqui em Campinas nós tínhamos grupos trotskistas que era o pessoal do Trabalho,a Libelu na época e a Convergência Socialista. E tínhamos nessa área dos stalinistas um elemento particular, eu diria, e que sempre me vem à memória quando eu penso aquelas primeiras experiências nossas, no final dos anos 70, era observar a pluralidade das oposições sindicais. Nós tínhamos grupos trotskistas, grupos stalinistas, que eram os companheiros do PC do B, do PCB, MR-8, os companheiros da Libelu, do jornal O Trabalho, os companheiros da Convergência Socialista e, portanto, nós, claro, e eu e outros que éramos de Pastoral Operária, portanto, uma experiência de pensar o mundo do trabalho, pensar o movimento operário muito referenciado na tradição cultural da igreja católica brasileira que, a partir de 74. ela começa a rediscutir e repensar a questão sindical, fazendo a ruptura com os círculos operários dos anos 50 e 60, que era uma coisa conservadora, pelega, mais de direita, enquanto concepção de mundo, e a Pastoral Operária tenta fazer uma crítica àquela experiência passada e eu acho que ela bebe na fonte da JUC, da JEC, de uma juventude que foi fazendo uma referência, uma ligação entre a Teologia da Libertação e o marxismo. Essa era a nossa referência teórica que nós tentávamos nos referenciar. E portanto ali pra nós era o momento também de aprender com a experiência do trotskismo, do stalinismo, do que se afirmava como leninismo, etc. eu diria, bom, que tinha muito pouco leninismo ali.

Mas os fatos curiosos é que tinha toda uma polêmica sindical: de um lado, um setor do trotskismo propondo que nós fundássemos o sindicato livre e abandonasse o velho sindicato; de outro, os companheiros dos partidos comunistas, nós chamávamos os companheiros os reformistas, propunham uma aliança por dentro com os pelegos e que a gente entrava na chapa dos pelegos, botava dois, três caras lá, ficava lá de molho e quando os pelegos bobeassem, a gente puxava o tapete deles, dava um passa-moleque nos caras e assumia a direção sindical. Acho que isso era de uma bobagem, de uma ingenuidade política a toda prova. A imagem que me vem á cabeça é aquela história que ficou popularizada do Garrincha no Brasil, quando o técnico pediu a ele que fizesse todas aquelas marcações, aqueles dribles, passa a bola pela esquerda, entra pela direita, aí você joga pra outro chutar pra gol e o Garrincha pergunta ao técnico dele se pra fazer toda essa proeza se ele havia combinado com o time adversário pra que tudo saísse de acordo com a teoria do técnico.

Então isso foi uma polêmica nossa. Ao mesmo tempo que a polêmica que nós desenvolvíamos era sobre a leitura da conjuntura brasileira. Nós estávamos sob uma ditadura, havia movimentos de transição porque a pressão social sobre os militares era cada vez mais forte, havia já um processo de esgotamento do modelo econômico, o milagre econômico já tinha passado, e os militares começavam a ficar isolados, eles tinham que fazer a abertura, a transição. E os partidos mais reformistas tinham muito medo de irritar os militares, havia um (…) “nós não podemos irritar os militares, nós temos que ter paciência, temos que ter calma, não podemos ser provocadores, evitar a provocação dos militares, etc.” E era uma, aquilo era terrível porque a impressão é que nós tínhamos que, a gente tinha que ser uma espécie de pacifista da política, pra não irritar os militares, “cuidado com os militares, pode ter contragolpe, contragolpe”. Então, havia uma neurose, rapaz, uma neurose política naquela esquerda naquela época que era uma coisa maluca, maluca: de um lado, um esquerdismo achando que a revolução estava ali pintando na esquina, no front; então “vamos fazer a revolução, vamos construir o socialismo, etc. etc. e vamos arrepiar”; e de outro lado, um setor dizendo “não, vamos com calma, vamos devagar porque a coisa não é bem assim, a gente pode provocar os caras, pode ter contragolpe”.

Então, essa foi uma polêmica que nós alimentávamos o debate de como conduzir os movimentos de massas porque 77, 78 e 79, começa a surgir o movimento de massas, as greve, mobilizações, e cada um dava uma orientação tática a partir da visão estratégica que nós estávamos construindo. Claro que quem tinha militãncia anterior, tinha leitura, tinha acúmulo teórico e prática, era mais fácil fazer esse movimento. Mas, nós, que era aquele bando de moleques de menos de 20 anos de idade, com pouquíssima leitura e nenhuma experiência, aquilo era brutal, era terrível porque você tinha que apostar em coisas que a gente não tinha nenhuma certeza, nenhuma segurança, e, portanto, era sempre apostar numa novidade, a gente tinha que combinar uma dose de audácia, de coragem, mas ao mesmo tempo tinha elementos visíveis de aventura política, tinha aventura política mesmo. E nós não conseguimos enxergar também a dimensão desses movimentos de base com a luta geral da sociedade. Qual era o impacto que eles de fato exerciam no sentido de mudar a consciência da opinião pública, mudar o estado de espírito da opinião pública que era um estado de espírito, como eu disse antes, de medo, de pavor, com relação a tudo que o Estado de exceção significava naquele momento histórico pelas torturas, pelos assassinatos que tinham sido praticados dez anos anteriores, em 68 e até início, até meados dos anos 70.

E nesse período também nós começamos o debate sobre a idéia de criação de um partido político de esquerda no Brasil, um partido dos trabalhadores e uma central única dos trabalhadores, que depois veio se chamar CUT, e veio se chamar PT. Foi um debate também forte e bastante exaustivo no interior da esquerda sobre quais eram os caminhos do sindicalismo, como que a gente construía nas oposições sindicais uma concepção de sindicalismo que pudesse ser um sujeito político, educador de massa, no sentido dos trabalhadores adquirir consciência de classe, enxergar a sua situação de exploração do capital sobre a nossa classe trabalhadora e, ao mesmo tempo, como que a gente ia aos poucos educando, conversando, convencendo os nossos companheiros de que nós tínhamos que fazer uma luta para além do capitalismo, nós tínhamos que romper estruturalmente com o modelo porque o modelo é um modelo de exclusão, de concentração da riqueza, como o capitalismo. Nós tínhamos que ir convencendo os trabalhadores de que era preciso lutar pelo socialismo. E na época o socialismo era um palavrão. Se hoje o socialismo está demodê pra muitos de nós da esquerda, que até estão se arrependendo porque um dia foram socialistas, ou foram confundidos com a possibilidade de lideranças socialistas, como eu vejo e ouço pela televisão, os rádios, e leio nos jornais e revistas de as pessoas dizerem que nunca foram socialistas, e com um certo orgulho, inclusive, naquela época o socialismo era uma coisa bastante… era reprimida, era muito perseguida, o fato de você se identificar com a ideologia socialista. Mas, enfim, aquele movimento nosso, tanto na ação sindical como na ação popular, nós sentíamos que era preciso dar um sentido político mais consistente, mais global, que era pensar um espaço de um partido que pudesse questionar a tradição partidária dos partidos comunistas da Terceira Internacional, aquele partido com uma visão monolítica, aquela visão dogmática, sem nenhuma democracia, com o tal do centralismo democrático confundido com o autoritarismo burocrático que eles tinham já feito e pensar um partido que pudesse ser um espaço para construir uma nova esquerda, uma esquerda democrática, uma esquerda plural, uma esquerda que pudesse pensar a perspectiva do socialismo com a circunstáncia histórica, social e cultural da sociedade brasileira e referenciada na teoria política do Marx e de outras figuras importantes do pensamento da esquerda mundial.

E, então, essa foi a tentativa que nós começávamos a desenvolver e, por isso, a experiência do PT ela nos ganhou, nós fomos ganho pra esse debate já no final dos anos 70, nós fomos discutindo, debatendo, aprendendo e entramos de cabeça, de cara, de corpo e alma nessa experiência já naquela época, fazendo filiações das pessoas, na época a gente fazia filiação em massa, de certa maneira trazíamos algumas pessoas, filiava a laço, claro, porque tinha que legalizar o partido. Hoje o pessoal faz filiação em massa para ganhar maioria nos encontros, o que eu acho um escândalo, uma vergonha, é uma violência à nossa memória, à nossa visão de partido socialista. Isso não tem nada a ver com a esquerda, isso é coisa que a gente viu lá atrás, a gente combatia porque era prática de direita, a manipulação, o uso das pessoas etc.

Bom, e o debate sobre uma central única de trabalhadores ele foi um debate que nós fizemos em 79, nós fizemos um grande encontro das oposições sindicais nacional, e nunca me lembro, nunca me esqueço que vieram os companheiros do Pará, de Santarém, o Avelino Ganzer, o Geraldo Pastana e outros, tinha lá conosco o Gushiken, dos bancários, tava ganhando a eleição dos bancários, o Gushiken na época era um trotskista ferrenho, sempre uma figura brilhante. Cada um com seu carisma, o Avelino também era uma figura muito carismática, também. E outras, o pessoal da Oposição Metalúrgica de São Paulo, que era o núcleo, eu diria, mais consistente no plano da teoria política sindical que nós tínhamos no Brasil naquela época. Então nós fizemos esse encontro nacional, discutimos muito a idéia e a concepção de um novo sindicalismo no Brasil. E, ao mesmo tempo, tinha um setor do sindicalismo, os chamados autênticos, que tinham muita dificuldade de compreender a gente, porque vários deles estavam mais convencidos da teoria dos PCs, de que tinha que ganhar por dentro. Fazer uma aliança tática e fazer mais adiante, a gente dá um… a gente distrai os pelegos e a gente toma deles o aparelho sindical. Nós dizíamos “não, o nosso problema não é ganhar aparelho, o nosso problema é ganhar a cabeça dos trabalhadores, se possível o coração para uma visão nova de sindicalismo pra gente desenvolver um movimento que possa ter uma dimensão nacional e se possível internacional. Então, nós fizemos ali, em 79, 80, 81, foi o ENOS, o ENTOES, e aquilo foi dando a nós uma referência de movimento nacional, de movimento mais expressivo no Brasil inteiro e fomos construindo ao mesmo tempo uma leitura crítica da estrutura sindical, do aparelho sindical, daquele modelo sindical getulista, fascista, e pensando que podia ser uma estrutura sindical nova, de classe, uma estrutura sindical livre, que pudesse estar fora do aparelho, fora do Estado, fora daquela visão mais verticalizada do sindicato.

Bom, então esse debate foi desenvolvendo, nós fomos participar já em 81 da primeira CONCLAT, e eu nunca me esqueço que foi publicado, se não me engano pelo CPV, uma pequena resenha sobre a CONCLAT, com artigos interessantes, e na época eu levei, aí já tava mais aberto o trabalho em 81, eu levei pra fábrica, para a Cobrasma, vários daqueles, passei prós companheiros, já estava mais encorajado, e eu sei que nós levamos acho que umas duas dezenas, passei pra alguns caras, porque aí já tinha avançado, já reunia vinte caras naquela fábrica, tinha vinte trabalhadores que se reuniam, já conversavam, tinha um grau de confiança muito grande nos companheiros e viemos pra assembléia, fizemos o pelego convocar a assembléia, fizemos a assembléia, tiramos delegados de base pra ir pra Conclat porque nós já tínhamos um certo acúmulo até porque 81 já foi a segunda eleição no Sindicato, nós disputamos a eleição no Sindicato de novo, fomos fragorosamente derrotados pelos pelegos mas a gente já estava mais maduro, ali a gente tinha clareza de que ia ser derrotado eleitoralmente mas era uma vitória política e nós tínhamos que continuar o movimento de organização no local de trabalho, organização nos bairros, pra gente ir dando corpo à idéia da oposição de um sindicalismo novo, de um sindicalismo de luta, combativo. Então essa foi já uma etapa mais avançada, mais desenvolvida que nós já tínhamos conseguido atingir nesse movimento nosso.

Bom, esse movimento nosso também tinha alguns episódios que eu diria que foram peculiares assim, bem significativos, marcantes. Nós tivemos nesse episódio o movimento dos companheiros da Mercedes Benz que já em 79, quando eles, eles estavam tão convencidos, tão convencidos do sindicato livre que eles vieram um dia, vieram pro Sindicato, todo o mundo da assembléia veio em marcha pro Sindicato e expulsou os diretores de dentro do Sindicato. Foi um gesto de bravura, de audácia, de coragem, que a gente tem que reconhecer o mérito deles. Mas aí não tinha chance porque no dia seguinte os caras voltavam lá com um monte de policiais, aquela massa dispersava e o Sindicato era deles, porque toda a legalidade estava com eles e a situação política do país não nos era nada favorável. Mas eles expulsaram os pelegos, os caras saíram do Sindicato enxotados. Então as assembléias eram muito concorridas, eram assembléias animadas, tinham sempre, eles tinham sempre ali dez, vinte bate-paus de judô, caratê e nós éramos uma molecada franzina mas não fugíamos do pau, a gente enfrentava os caras na assembléia também com as nossas condições porque falar numa assembléia era um risco, primeiro você ser demitido na fábrica pela deduragem dos pelegos, segundo que se você ofendesse o pelego você podia ter um sopapo na cara ou pela parte de um segurança ou de um bate-pau dos pelegos. E chute na canela era muito comum a gente levar chute, empurrões, agora porrada na cara era uma coisa mais… aí era o limite da agressão, você tinha que ir pra cima, aí dava pau e a assembléia terminava.

Mas eu acho que essas experiências, o que me chama a atenção é que elas foram experiências… que a gente hoje eu olho pra trás e “puxa, bons tempos que tinha bate-pau no sindicato de direita”; hoje tem bate-pau no sindicato da CUT, pra nos envergonhar, pra nos escandalizar.

E, portanto, é isso que nós precisamos falar 20 anos depois: por que é que nós ficamos tão esclerosados e estamos repetindo aquilo que nós éramos inimigos viscerais há 20 anos atrás?

Acho que nós mudamos pra cacete e nós mudamos pra pior, pra fazer aquilo que a gente tinha nascido pra negar e portanto nós estamos tripudiando a memória, a história da classe trabalhadora brasileira e mundial e prestando um desserviço à esquerda. Quando eu olho pra CUT hoje, eu olho com profunda tristeza porque não foi isso que nós imaginamos construir, muito pelo contrário, jamais construiria o calvário da nossa classe, jamais participaria da construção da derrota histórica, da desmoralização política, ético-moral da nossa classe porque eu vejo hoje uma CUT desagregada, uma CUT desqualificada, uma CUT degenerada, com práticas de gangsterismo, de peleguismo, tanto na conciliação com os de cima quanto no método da intolerância, da fraude eleitoral para manter a maioria nos sindicatos nossos e da violência física, com bate-paus, com homens armados, arrebanhados aí nas periferias dos grandes centros das cidades pra enfrentar cutistas, enfrentar petistas, numa batalha fratricida que só se justifica em função deste momento crucial da esquerda brasileira e mundial em que nós perdemos referenciais, perdemos nossos princípios, perdemos nossos valores e nós conformamos, portanto, no interior dos sindicatos, 20 anos depois, uma nova velha direita sindical, que tem discurso de esquerda, tem fala de esquerda, nos textos, mas isso decididamente não pode ser esquerda porque se isso for esquerda nós estávamos errados 20 anos atrás porque essa prática que tem hoje nos sindicatos da CUT, tem exceções, tem sindicatos da CUT muito combativos, democráticos, mas que cada vez cresce mais no interior da CUT esse neo-peleguismo; por tudo o que ele representa, da corrupção econômica à fraude eleitoral, da deduragem na fábrica dos militantes que divergem da política da maioria à violência física do gangsterismo sindical, tudo isso nós nascemos 20 anos atrás para combater, para um combate à morte dessa prática velha.

E portanto o balanço desse movimento 20 anos depois ele é da maior importância pra nossa esquerda, pra nossa juventude e pra homens e mulheres que, embora tendo começado 20 anos atrás, ou 30 anos atrás, mantiveram dignos, mantiveram íntegros, não perderam os valores nem a memória, e muito menos os princípios e querem e precisam se alimentar na esperança de que nós podemos reconstruir, reconstruir. Eu acho que nós estamos numa fase de resistência e de reconstrução. E como eu sou da tradição cristã, nós temos uma máxima do Evangelho que diz o seguinte: “que, onde 2 ou mais estiver reunido em nome de uma causa maior, lá estará o espírito iluminando”. Eu estou nessa fase, eu penso que quando reúno dois, três companheiros de esquerda pra discutir essa experiência, pra falar sobre ela, pra debater sobre ela, crítica e autocriticamente porque nós também erramos, eu também errei, nós temos esperança e temos a possibilidade de reconstrução porque nós reconstruímos lá nos anos 70, em plena ditadura, a gente era um grupo de moleques com muita energia mas sem nenhuma experiência prática e com pouquíssima teoria. E hoje nós temos alguma experiência e nós temos, sem falsa modéstia, alguma teoria, portanto é possível recomeçar e embora eu seja profundamente crítico e, de certa maneira até uma crítica ácida, eu sei que tem uma certa acidez na minha crítica, mas eu sou profundamente otimista com o futuro, com o futuro de reconstrução, o futuro que a gente possa redesenhar a perspectiva de um socialismo renovado, um socialismo libertário, transformador, mulheres e homens de bem, que a gente possa discutir para além da luta econômica e social, a luta cultural, a luta de valores, o direito da mulher, o direito dos negros serem gente como todas as pessoas, o direito dos gays e das lésbicas serem tratados como seres humanos quanto à discriminação da sua orientação ou opção sexual, o direito das crianças de rua serem incorporadas como seres humanos plenos e, ao mesmo tempo, o direito dos idosos pra que não morram na Santa Genoveva, no Rio de Janeiro, como morreram vários deles naquelas imagens fúnebres que a televisão brasileira mostrou pra nós.

Eu penso que nós temos a experiência dos Sem-Terra, como um movimento de resistência, de luta no campo e que são hoje talvez o sinal mais importante, mais visível que ainda resgata e mantém e alimenta a esperança da nossa militãncía, do nosso povo de que nós não estamos dobrando a espinha; nós, ao contrário, nós não estamos feito aquele povo hebreu Que após atravessar… atravessar sair do Egito a escravidão, atravessar o deserto por 40 anos, começa a adorar bezerro de ouro. Como eu vejo hoje alguns amigos nossos adorando bezerro de ouro, fazendo menções de gratuidade, de gentileza com o Ermírio de Moraes, esse desgraçado é o símbolo mais forte e mais podre que burguesia brasileira construiu. O que é o Ermírio de Morais senão o empresário ganancioso que fez riqueza mamando no Estado, mamando na instituição pública do povo. As suas empresas têm uma relação de trabalho semi-escravocrata. selvagem, perversa em que matam os trabalhadores pelas condições de trabalho, a relação que ele mantém com os sindicatos é de truculência, de intolerância, de brutalidade, de perseguição, esse infeliz não tem nada a ver com nosso povo, ao contrário, ele é um faraó do povo, portanto, nós não podemos, com o devido respeito aos companheiros, adorar. fazer menções de gratuidade á gente assim, porque essa gente não é nossa gente, ao contrário, são os inimigos da nossa gente. Temos que fazer outras coisas. Temos que fazer portanto outras coisas.

De maneira, Nelsinho, eu estou nessa fase assim de balanço crítico, duro, comigo mesmo e com os meus amigos e. ao mesmo tempo, convencido, animado, de que nós podemos, nós podemos reconstruir essas coisas porque há vento, há vento a favor também na esquerda mundial. Nós, que viajamos para algumas regiões do mundo, nós podemos identificar que lá na Europa, lá nos Estados Unidos, lá na Ásia, lá na América Latina, lá na África pós-apartheid tem sinais de esperança, tem resistência. E aqui no Brasil também nós estamos fazendo nossa resistência, com os Sem-Terra, com a juventude, com os movimentos sindicais que não se renderam, que não se apodreceram, são poucos mas ainda tem uma resistência, que não está podre ainda, e que tem a crise, que a crise é resultado da reestruturação capitalista mundial que devassou a nossa categoria e a nossa classe, pela reestruturação produtiva, brutal, visceral. Mas o tempo tem a lucidez, tem o esforço pelo menos de construir a lucidez porque nós vivemos num momento não de lucidez mas de perplexidade. Temos a lucidez sobre que lado nós devemos estar, de que nós não podemos entrar nessas conversas moles que são, na minha opinião, verdadeiras heresias do capital, esse negócio de banco de horas, de jornada flexível, aquilo que alguns companheiros nossos adoram como saída para o desemprego, “vamos formar profissionalmente porque se formar, se qualificar profissionalmente vai ter emprego pra todos”. Gente, não tem, cacete! Com o devido respeito, vamos fazer alguma justiça à inteligência, à pesquisa, à informação, aos gráficos, aos indicadores sociais, para a gente perceber que hoje tem engenheiros desempregados, médicos desempregados, tem professores amigos meus da rede estadual que estão fazendo pós-graduação na UNICAMP em filosofia, em sociologia, em várias áreas do conhecimento e eles foram demitidos pelo Mário Covas, não tem emprego pras pessoas, mesmo elas estando qualificadas profissionalmente. Portanto, a saída nossa não pode ser as heresias do capital, “vamos reduzir os direitos sociais porque aqui os encargos sociais são muito altos, o custo Brasil, etc. etc.”

Eu penso que nada disso tem a ver com a saída para os trabalhadores, nós temos que reencontrar portanto a noção de que nós precisamos de um projeto alternativo, um projeto para o Brasil, um projeto que combina modelo de desenvolvimento centrado nos interesses sociais e que o centro é a população, o centro são os direitos sociais, da reforma agrária aos direitos sociais dos trabalhadores, aposentadoria por tempo de serviço, especial, proporcional, porque isso são conquistas históricas, do direito ás políticas sociais públicas, como educação, saúde, moradia, como políticas universais para todos, pra toda a população, E ao mesmo tempo claro que a gente possa evoluir num processo de reconstrução de um Estado popular e democrático que sinaliza para uma relação diferente do povo com a política, do povo com as instituições públicas, que possa construir uma combinação da democracia representativa dos velhos conselhos populares lá de trás, que nós esquecemos de falar dos conselhos populares, de que nós não queríamos tomar o poder da burguesia de assalto, nós queríamos construir um poder dos de baixo, alternativo, e que essa construção do poder pela base, nos bairros, nas fábricas, nos bancos, nas escolas, nas roças, esse povo organizado, senhor da história, conhecendo que projeto nós estamos a caminho é que poderia conformar uma nova correlação de força e sinalizar para um processo revolucionário, transformador, revolucionário no sentido que transforma radicalmente tanto as relações de poder como as relações econômicas, as relações sociais, as relações culturais, pra desenhar um desenho, uma imagem, um panorama de mundo novo. Eu penso que isso é plenamente possível e acho que está cada vez mais retomando com a nossa militância já que o povo está fazendo a experiência amarga com o neoliberalismo e a exclusão toda, o que representa de exclusão, de violência, de concentração da riqueza, destruição do Estado, destruição da possibilidade de nação soberana e, por isso, eu penso que o balanço dos 20 anos sobre o que foi esse sindicalismo novo do final dos anos 70, como que ele teve esse sofrimento, esse sofrimento, essa crise e como que ele foi também se apodrecendo e negando a sua própria origem e conformando, 20 anos depois, um neopeleguismo, um velho novo peleguismo e, assim como a direita do Joaquinzão, a CGT, renovou a velha direita sindical com Medeiros e a Força Sindicai, nós na CUT fizemos um processo muito semelhante em que, pela esquerda, nós estamos conformando uma nova direita sindical porque pra mim isso não é uma esquerda sindical. E essa velha direita sindical, que o Medeiros reformou nos anos 80, a CUT faz um processo inverso, uma metamorfose, como se fosse na música do Raul Seixas; eu nunca me esqueço que um dia o nosso presidente da CUT Nacional, o Vicentinho, fez uma intervenção no Congresso de 91, no Anhembí, em São Paulo, dizendo que ele preferia ser essa metamorfose ambulante e eu não entendia ele muito bem. Hoje eu entendo. De fato, ele é uma metamorfose ambulante, ele fez a esquerda virar direita, e talvez a direita tentando se apresentar como esquerda. Nada pessoal, absolutamente, nada pessoal.”

Campinas 20 de abril de 1998

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