Cruz (José dos Santos Cruz)

“(…) eu trabalhei em 74, 76 em 77 na Scania eu trabalhava na manutenção e eu tive uma passagem, eu fui da direção do Sindicato dos metalúrgicos na época, uma época difícil, e naquela época nós tivemos a felicidade de ter um dirigente sindical dentre muitos que tivemos que foi o Afonso Monteiro da Cruz, foi o grande inspirador da decência no sindicalismo na região, junto com o Marcílio e mais alguns outros. E antes de falarmos sobre a Scania, naquela época difícil nossa, o Marcílio com certeza falará sobre isso com mais propriedade do que eu, o Marcílio, junto com o Afonso, com o Manoelzinho de S. Caetano, com o Argeu lá de Campinas, com o Antônio Tolezano que era dos bancários, o Marcelo Gato, eles criam um movimento dentro dos sindicatos chamado MIA (Movimento Inter-Sindical Anti-arrocho). Foi uma grande batalha porque naquela época o ministro do Trabalho era o famoso Passarinho, coronel do Exército, aliás ele não gostava que chamasse ele de coronel, queria que chamasse ele sempre de ministro.

E foi muito difícil aquela época, o Marcílio está aqui, o Afonso que se foi, foi o grande líder, foi grande inspirador, notadamente nós aqui em S. Bernardo, da decência, como se dirigia um sindicato democrático. O Afonso nunca se curvou à pressão da ditadura que era constante em cima dele, quantas carreiras nós tomamos de lá de S. André, junto com o Marcílio e companhia. E eu me lembro bem que aquele movimento custou a vida do Antônio Tolezano. Ele foi a Sorocaba (…) na volta ele foi fazer um debate sobre (…) nós pregávamos (…) contra o arrocho salarial e ele foi pra lá fazer uma pregação inclusive contra o Fundo FGTS que estava sendo implantado. F os policiais da ditadura mataram ele no caminho, seqüestraram ele e mataram (…). Era bancário, Tolezano era bancário. Então a coisa rolava mais ou menos assim.

E eu me afastei do Sindicato, perdi a eleição, concorremos na oposição, perdemos a eleição, a Rolls-Royce naquela época me mandou embora, fui trabalhar na Volkswagen, levava o jornal do Partidão pra lá de dentro pra entregar pro Devanir Ribeiro (…) e tal (…) e eu me lembro quando eu vim trabalhar na Scania, o Zé Paulo era do RH , o Gilson trabalhava na ferramentaria, o Manoel Anísio, o Severino, o Afonso tinha vindo do Sindicato, trabalhava no departamento de custos (…) era da Scania (…) E eu me lembro de uma passagem interessante. Eu tinha o costume, eu era mecânico de manutenção, e aquilo que o Manoel falou, nas horas vagas, que a máquina estava suja pra consertar, o pessoal do setor tinha que lavar a máquina, deixar limpa pra gente poder pôr a mão na máquina. A gente ia pro banheiro, então tinha um sinal característico, era só fazer assim, ó (faz movimento com a cabeça), e eles já sabiam que era pro banheiro (…) 8, 10, saía (…) daí a pouco vinha mais e tal. Era o dia inteiro a gente fazia (…). E eu me lembro que uma segunda-feira de manhã — pra falar sobre o Severino, da lealdade, da honradez de um homem — nós chegamos segunda-feira de manhã para trabalhar, daqui a pouco chega o Severino assustado, “Cruz, tudo bem com você?” “Tudo bem, Severino”, e ele tremendo, eu falei “o que está acontecendo com você?”, “Você já falou com o Afonso, hoje? ” Falei: “não” – “Liga pra ele, vê se ele está aí”. Aí eu liguei e o Afonso estava. Aí eu apertei e falei: “O que que tá acontecendo, Severino?” Eu tinha sido dirigente sindical, o Afonso estava afastado. Foi exatamente naquela época que foi preso o Manoelzinho, de S. Caetano, frei Chico, o Marcílio andou correndo, aquela zorra toda, foi preso o Osvaldo que trabalhava no Dieese, acho que ainda trabalha no Dieese, e foram vários dirigentes sindicais, vários, o pessoal do Partidão, o o Raimundo, o Luiz Martins (…) foi uma queda geral aí, um negócio impressionante. O pessoal do (,..) na Volkswagen, o pessoal da Volks também (…) E aí o que aconteceu? O Severino chega pra mim e falou: “olha, você, por favor, não fala que eu te avisei mas o frei Chico foi preso ontem, o Afonso almoçou com ele ontem, os caras da ditadura tinham filmado todo o processo do dia do frei Chico, com quem ele saiu, pra prendê-lo no sábado à tarde na casa dele aqui no Jardim (…). Aí o Severino chegou pra mil e falou: “Olha, eu recebi um telefonema do Sindicato pra saber se você estava dentro da Scania.” E eu falei: “olha, eu não tenho jeito, se os homens quiser vir me buscar, eu não tenho como correr porque todo o mundo sabe onde eu moro, sabe o que eu faço, minhas atividades no dia-a-dia, eu não vou ter jeito.

E uma das coisas, e o Augusto sabe bem disso, que a ditadura tinha mais medo era a ligação operário/estudante, por isso quando houve movimentos em outros lugares, não deu tanta repercussão e não deu a efervescência que deu, exatamente por isso, porque qualquer outro setor não era importante naquela época pra ditadura, não era o pilar de sustentação. Quem era o pilar de sustentação naquela época era o setor automobilístico, esta era uma coisa que eles não podiam admitir de jeito nenhum uma greve. E aquela greve só teve sucesso exatamente porque os trabalhadores da Scania tiveram um grau de politizacão muito interessante, de organização, como disse o Augusto, uma greve que começa numa sexta-feira, trabalhador vai pra casa sábado e domingo, na segunda volta de greve ainda, é um negócio que o cara teve consciência do papel que ele estava desempenhando.

Quer dizer, então isso foi muito interessante dentro da Scania e eu parabenizo vocês pela iniciativa, que é muito interessante, contudo que não se esqueçam do homem que se chamava Afonso Monteiro da Cruz e Severino Alves da Silva que foram pilares de sustentação moral, foram espelho que muitos dirigentes sindicais, eu digo daqui de S. Bernardo (…) não acompanharam o grande exemplo que eles deram, lamentavelmente. Mas, fica aí a alegria de ver vocês todos reunidos aqui relembrando esses fatos que culminaram exatamente com a derrocada da ditadura (…)”

Grêmio da Scania
São Bernardo do Campo
29 de março de 1998

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Uma resposta para Cruz (José dos Santos Cruz)

  1. Maura Silva Pires disse:

    Fico muito feliz, ao ler o comentário acima do brilhante dirigente sindical da época – José dos Santos Cruz, quando lembra e cita nomes de outros como Afonso Monteiro da Cruz e Severino Alves da Silva como pilares de sustentação moral….Me orgulho de te-los conhecidos, trabalhando ao lado, como funcionária burocrática, vivenciando essa grande batalha desses grandes homens…Parabéns ( CRUZ )

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