Clodovil Ap. Carvalho

“Eu acho que um grande momento realmente foi em 1978, com a paralisação da Scania. Nós, rodoviários, tinha uma meia dúzia de companheiros na época que, como se disse, loucos, ousados, malucos, e a gente até chamava o pessoal (…) de porra-louca, o companheiro Josias, Osvaldo, eu, Valério, o Zé Inácio… e foi justamente por causa de questão de aumento salarial que a gente iniciou, mas iniciou sem experiência nenhuma porque não tínhamos conhecimento na época e nem amparo do Sindicato.

O nosso Sindicato estava na mão do pelego lá praticamente há 20 anos colocado pelo regime e a gente tinha descontado no nosso holerite a mensalidade (…) e tinha um selinho de carta. Você perguntava na empresa o que era aquilo, “é do Sindicato”, “mas onde fica o Sindicato?”, nem isso a gente sabia onde ficava. E foi justamente na questão do aumento salarial, que as empresas não repassaram, porque o nosso aumento era só o que o governo dava, nós ganhávamos o salário-mínimo, em maio vinha aquela mixaria que o governo dava, era aquilo e nada mais. Simplesmente a empresa em que nós trabalhava não repassou o aumento. E aí nos resolvemos recolher os ônibus em plena luz do dia, chegava no meio da rua, falava pra população descer, colocava “reservado” e ia encostando os carros na garagem. Isso sem ser direção, sem ser nada, simplesmente com a coragem.

Os companheiros metalúrgicos de São Bernardo, os companheiros metalúrgicos de Santo André, Marcílio, companheiro Valdo, Isabel, Henricão, e outros companheiros que estão aqui, foram companheiros que acreditaram naquele grupo de pessoas que estava tentando mudar a história dentro do transporte o rodoviário da região do ABC. E a Isabel falou aqui, a a gente era cricri mesmo, porque nós não tínhamos nada, até nós tínhamos uma vantagem, porque era difícil o trabalhador querer trabalhar no setor de transporte, era uma categoria marginalizada, era uma categoria que ninguém dava valor aos trabalhadores do transporte. E isso faltava faltava muita mão-de-obra nesse setor, então a gente parava e as empresas, como pagavam pessimamente mal, elas ficavam na porta da auto-escola esperando o camarada tirar uma carteira de habilitação para pegar esse cara e trazer para ser motorista e isso nos favorecia muito nos nossos movimentos. E o Valdo inclusive era a casa dele que era um dos pontos de reunião, chegava lá tarde da noite, sentava com ele, ele ajudava a fazer os boletins, nós saímos pras ruas para pegar caixas de papelão nas lojas comerciais de Santo André para fazer os cartazes pra colocar em porta de empresa porque realmente não tinha dinheiro. E se não fosse esses companheiros dos Sindicatos Metalúrgicos de São Bernardo e Metalúrgicos de Santo André, Padre Rubens que não está aqui presente, lá da Vila Palmares, o Augusto Campos do Sindicato dos Bancários na época, o Salvador da Frente Nacional que eram os companheiros que realmente o pouco que eles tinham dividiam com a gente e isso foi até 1980 quando a gente descobriu o Estatuto do Sindicato e estava no período de eleição.

E a gente compôs uma chapa e os companheiros da categoria não queriam entrar, tinham medo e essa meia dúzia de companheiros é que conduziu o processo e os outros ficaram na retaguarda simplesmente para completar a chapa. Aí em 1980 nós tivemos 3 eleições, tivemos o primeiro turno da eleição, nós ganhamos a eleição, o advogado do pelego era o Miguel Parentes, Miguel Parentes, que era o advogado do pelegão, e ele foi lá e anulou o primeiro processo eleitoral; nós tivemos o segundo processo eleitoral, ele anulou também e o terceiro ele conseguiu anular também; com isso, a nossa chapa praticamente se desmantelou, todo o pessoal desempregado e aí nós começamos arrumar pra trabalhar em depósito de material de construção, trabalhar com Kombi, teve companheiros que foi vender cachorro-quente com carrinho, e foi nomeada uma junta ínterventora para o Sindicato que em 90 dias eles teriam que convocar eleição. O pessoal gostou tanto daquilo lá que eles só foram chamar eleição em 1981.

E aí novamente esse mesmo grupo foi pra cima e conseguimos ganhar a eleição, só que lá não nos foi dado posse, lá foi tomado posse mesmo porque, como a Isabel disse, foi debaixo de porrada, na pancada que a gente acabou assumindo aquele Sindicato e de lá pra cá vimos construindo e mudando realmente a história que os rodoviários hoje têm, os Rodoviários do ABC é uma categoria que é reconhecida a nível nacional até pela sua organização, pelas suas condições de trabalho mas pra isso muitos companheiros perderam o emprego, alguns companheiros perderam a vida e hoje graças a Deus a gente se sente até emocionado de estar aqui perante estes companheiros podendo relembrar essa passagem da história que se não fosse os companheiros acreditar realmente naquilo que nós estava desempenhando a gente não teria chegado aonde chegou.

Então a gente agradece a oportunidade de estar presente para estar contando esta história e espero que no outro encontro que a gente venha a fazer, alguns companheiros rodoviários que não estão presentes aqui hoje, possam estar presentes como Josias Adão, o caso do Valério, o companheiro Rubens que também fez parte desse primeiro grupo de rodoviários pra reconquistar o Sindicato e hoje a gente poder estar aqui junto, batendo este papo descontraído poder estar ajudando a mostrar que quando a gente acredita, quando a gente quer alguma coisa, não tem obstáculo, não tem barreira pra que a gente não consiga ultrapassar. Isso é uma pequena parte do que a gente conseguiu fazer nesse período. Eu espero que no desenrolar da atividade a gente possa estar passando inclusive muito mais informação porque a gente tem inclusive muitos materiais, muito material guardado, o Valdo inclusive está escrevendo, reproduzindo, tentando reproduzir na íntegra, através de livros, a história dos Rodoviários do ABC, já tem acho 4 ou 5 volumes que ele conseguiu fazer, com todo o material que a gente está recuperando. É isso. 0 Marcílio era o que cedia o Sindicato pra gente fazer as assembléias (…) quando a gente convocava a assembléia, os patrões mandava ônibus lotado de gente pra quebrar o sindicato, quantas vezes o Sindicato de Santo André não foi destruído inteirinho…

Comentário do Marcilio:

Tem uma passagem linda que ele não contou mas é verdade. O Sindicato dos condutores estava mal dirigido (…) pessoas que tinha cargo na (…) compromisso com o Estado e não atendia os objetivos da categoria. Certo dia eu vejo uma passeata, uma paralisação dos condutores, uma passeata de motoristas e rumo ao Sindicato. Chegou no Sindicato e a direção do Sindicato lá que depois saíram (…) da categoria* fechou as portas pro movimento dos motoristas e cobradores que estavam nessa reuniào. Aí o que aconteceu? Como eles já estavam acostumados a reunir no nosso Sindicato, “vamos lá no Metalúrgicos, vamos lá!”. E saiu uma passeata pro nosso Sindicato. Quando ele chegaram ali perto do nosso sindicato, já estava o pelotão de repressão que já vinha vindo pra arriar o cacete nos motoristas e com peruas e carro tudo já com cacetes aqueles tamanho-família, aqueles grandão mesmo. Aí, eu cheguei na hora na porta do Sindicato, pulei na frente do movimento dos companheiros e por sinal fui dar de cara com um comandante que eu nem lembro quem era “você tá fazendo, vou arriar o cacete”. Então falei: “não vai arriar o cacete em ninguém aqui, não”. Aí eu peguei o microfone, tinha um falantinho em cima dessa perua e tive a oportunidade de falar para os motoristas e condutores e dizer a eles: “nós vamos exigir que o seu Sindicato receba vocês lá”. E comandei essa passeata de retorno lá pro sindicato e invadimos o sindicato dos condutores e fizemos com que aquela diretoria que não queria atender os trabalhadores, atendeu os motoristas e cobradores naquele momento. E ninguém apanhou naquela hora graças a gente ter chegado naquele momento certinho, senão eles iam ser reprimidos com violência terrível naquela hora.

Continuação entrevista do Clodovil:

Era justamente isso, não tinha ninguém dentro do sindicato, não tinha amparo nenhum, não tinha experiência, então era essa loucura, você reunia o pessoal, “pessoal, tá de greve, vamos pra qualquer canto”, então ia pro Sindicato dos Metalúrgicos, Sindicato da Borracha, na Apeoesp ali de Santo André, da Igreja, muitas vezes corria lá pro Padre Rubens porque era justamente locais que a gente podia estar se encontrando para fazer isso. E esse companheiros que aqui estão hoje, Gilson, Marcílio, o Valdo, Isabel e outros companheiros é que sempre estendeu a mão pra gente pra que a gente pudesse realmente continuar fazendo aquele movimento porque senão a gente teria sido atropelado pelo regime e talvez a gente não estaria aqui hoje porque não tínhamos amparo nenhum.

Nosso Sindicato infelizmente na época em que vocês já tinham uma organização dentro das fábricas, dentro do próprio sindicato, o nosso nunca se preocupou em fazer nada. E a preocupação só aconteceu após 1981, quando, no primeiro pleito, o Josias assumiu a presidência do Sindicato e de lá pra cá que a gente conseguiu mudar isso. A gente vai ter oportunidade de conversar mais ainda, de lembrar mais coisas. Vou deixar os companheiros falar senão a gente vai ficar aqui a tarde toda contando a história.

Grêmio da Scania
São Bernardo do Campo
29 do março de 1998

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