Bernardo Hervy

“Só vou indicar pontos que depois podem ser retomados pra completar. Dois aspectos eu quero destacar. O primeiro dia da greve que saiu da Scania, eu estava trabalhando como torneiro-mecânico na Krause, em S. André, e fui um dos primeiros a saber que a Scania estava em greve porque eu estava fabricando peças para a Scania e o chefe estava em cima de mim pra dizer: “quando vai estar pronto? quando vai estar pronto?” E quando eu entreguei, falei: “está pronto, vocês vão entregar hoje mesmo”, era sexta-feira, e o primeiro dia da greve da Scania e eu fui na garagem da firma pra saber: “vocês mandaram pra Ia?”, “mandamos mas voltou porque a Scania está em greve”. Aí começou a despertar, comecei a espalhar… logo pra mim. Agora acontece que já começamos a conversar, conversar, conversar, na Krause uma pequena firma com 300 operários, ninguém sabia, nem falava de greve porque era uma palavra proibido… nem de pensar. Mas, quando a gente fala do gatilho, é um gatilho também a partir de um trabalho inteligente que está sendo feito dentro das fábricas. Por que que o gatilho da Krause logo determinou a greve já na segunda-feira? Porque a gente estava na hora por exemplo do café todo o dia conversando, conversando, e colocando coisas, informações de outras firmas e do trabalho que se fazia no sindicato. Eu era o único que estava aliado com o Sindicato. Segunda-feira, a gente iniciou a greve e a primeira coisa que eu gostaria de relembrar é essa experiência que nunca vou esquecer na minha vida, de braços cruzados e máquinas paradas e os chefes passando, o dono da empresa passando no meio de nós, olhando pra nós, olhando pra mim porque ele já estava com… duvidando que era um dos líderes… uma figurinha lá estranha e essa impressão que o trabalhador de todas as firmas devem ter (…) é que somos fortes, quando a gente sabe o que quer, que tem os mesmos objetivos de luta, somos os donos da firma e da produção. E de fato nós entramos para o sindicato e fizemos… chamamos dois diretores do Sindicato de Santo André, para fazer o acordo. E somos nós que decidimos quais seriam os pontos de reivindicações que nós íamos conseguir. Somos os donos da firma. Hoje em dia a gente se esquece que podemos quebrar esse sistema repressivo de exploração do neoliberalismo, mas a gente teve isso forte dentro de nós a partir de uma experiência coletiva, isso poderia se reproduzir, isso por causa do trabalho inteligente que foi feito na base.

A segunda coisa… a gente poderia conversar mais longamente, a segunda coisa que eu gostaria de destacar também foi… fiz parte, pelo Sindicato de S. André, da primeira coordenação do Fundo de Greve de Santo André e era um dos coordenadores principais desse Fundo de Greve, com comunicação com S. Bernardo, a gente trabalhou muito junto. Muitas coisas se fez, isso também nunca vou me esquecer na minha vida. Agora, também por outro lado, tem uma coisa que aconteceu é que a gente procurou também fazer um trabalho cultural operário, aí a Isabel poderá conversar mais sobre isso porque (…) as duas Feiras de Cultura Operária; mas também um trabalho que fizemos junto com os cursos de formação sindical, eram os primeiros passos, e muitas coisas mais que a gente poderia ter feito mas (…) as coisas que aconteceu. Bom, essas coisas sobre o Fundo de Greve também a gente poderia conversar… Vou parar aqui para deixar lugar para os outros. Mas, valeu.”

Grêmio da Scania
São Bernardo do Campo
29 de março de 1998

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