Benedito Marcílio

“Este Sindicato é o quartel-general da classe operária deste país. Deste Sindicato surgiu os maiores movimentos dos trabalhadores contra os regimes autoritários, contra os arrochos de salário, este Sindicato criado, fundado em 1933, este Sindicato participou inclusive de todos os movimentos da classe operária. Nós inclusive no período mais difícil da história deste país, do arbítrio, da ditadura dos 21 anos, nós, trabalhadores e dirigentes deste Sindicato fomos cassados inclusive em 1980 pelo regime militar porque participamos de todos os movimentos de libertação dos trabalhadores e as liberdades democráticas que sempre defendemos. Hoje, aos 20 anos após os movimentos que iniciamos e inclusive com as greves que surgiram em nossa região do ABC em 1978, greve esta que serviu inclusive de uma revolta, de uma posição dos trabalhadores cansados de um arrocho de salário, cansados de ser espezinhados dentro das fábricas, um desemprego terrível, um arrocho salarial mais terrível ainda, os trabalhadores (?) e saíram inclusive na luta dentro das fábricas, foi uma paralisação das mais históricas ocorridas neste país, foram as paralisações dentro das fábricas, os companheiros reivindicando os 34,1% que além do arrocho do salário que o governo estava implantando aos trabalhadores, ainda teve condições de manipular os índices para que os reajustes fossem ainda inferior ao índice da inflação. E nós fizemos as greves nas fábricas, greve por fábrica, e conquistamos em média uma reposição de 20% dos salários. Esse movimento foi um grito de alerta dos trabalhadores não só para nossa categoria ou para a região mas sim para todos os trabalhadores destes país encorajaram-se a enfrentar a confrontar inclusive com o regime autoritário, com o regime militar.

Esse movimento serviu também de base e experiência para as greves que iniciamos e fizemos em 1979, 16 dias de paralisações nas nossas fábricas, conquistamos também com as greves o respeito das autoridades governamentais, o respeito dos patrões que sempre estiveram aí como lambe-bota do regime militar, eles tiveram que ceder, dentro de uma política de arrocho salarial, e cederam um reajustamento salarial digno aos trabalhadores. E com isso nós conquistamos também o respeito do próprio regime militar, a conquista inclusive da confiança de toda a sociedade brasileira, nós partimos inclusive além das reivindicações sociais, econômicas, nós levantamos também a bandeira da luta política do povo brasileiro e foi aqui neste Sindicato e no Sindicato de S. Bernardo do Campo aqui no ABC que nós levantamos a bandeira da democracia exigindo inclusive a derrubada do arrocho salarial, exigindo as eleições diretas para todos os postos de governo, exigindo a extinção dos Atos institucionais, exigindo a revogação da lei de greve, exigindo liberdade e autonomia sindical, exigindo o direito de greve, exigindo uma política de salários que atenda os interesses dos trabalhadores.

Foi assim na luta do dia-a-dia, na organização e na força da nossa organização que nós conquistamos a anistia também que foi implantada, aprovada em 79, as eleições de governadores, eleições diretas nos estados, enfim, foi uma luta valiosa, inesquecível que os trabalhadores de nossa cidade iniciaram, sem sombra de dúvida. E além disso o movimento não era só aqui, houve outros movimentos como o MIA, a Intersindical Anti-arrocho, que se organizaram em vários sindicatos de categorias profissionais diferenciadas. Fizemos e participamos das greves dos bancários do Rio Grande do Sul, da Construção Civil de Belo Horizonte, dos Médicos do Rio de Janeiro, dos canavieiros de Pernambuco e outras categorias que se levantaram também, levantado sua voz e exigindo que se caísse por terra o regime autoritário.

Vêm as greves de 1980. Quem dos companheiros não recorda o que aconteceu com as greves de 1980? Que luta inesquecível que vamos agora para os 20 anos que nós estamos relembrando! Que luta extraordinária que foi aquela paralisação de 41 dias, nossos companheiros cassados, intervenções nos sindicatos, prisões dos nossos dirigentes, tudo foram parar nos órgãos de segurança do Estado, além disso, nos quartéis-generais militares, enquadrados na Lei de Segurança Nacional, e o movimento nas ruas, o movimento crescendo em nossa cidade, na região do ABC. Que maravilha de movimento! Que exemplo que os trabalhadores da nossa cidade deram! Que exemplo que os trabalhadores deram a essas autoridades militares que estavam no poder há 21 anos! Foi aí sim o fim inclusive da ditadura militar em nosso país. Foi aí mesmo. Os trabalhadores com as máquinas paralisadas e não voltaram a trabalhar enquanto não tivessem um encaminhamento que viesse a solucionar os problemas reivindicatórios dos trabalhadores. E soluções políticas para nosso país.

É hoje com satisfação que estou aqui junto com meus companheiros, alguns deles sócios, outros dirigentes sindicais cassados mas que nós estamos aqui também para fazer esta justa homenagem a todos os trabalhadores, a todos os líderes sindicais que participaram e que sofreram as conseqüências da repressão do regime militar com enquadramento no AI-5 e prisões indevidas, arbitrárias, com inclusive torturas aos nossos companheiros. Mas a gente passou por tudo isso e tenho certeza absoluta que nenhum de nossos companheiros se arrependeram de fazer o que fizemos. E se for preciso fazer novamente tudo o que nós fizemos, não tenham a menor dúvida, eu junto com meus companheiros que estão aqui, Cicote, o Moacir, Eusébio, os companheiros todos aqui, Tião, e outros, que ainda freqüentam este Sindicato, participam das lutas hoje da categoria junto com a Direção da ativa e também junto com os trabalhadores aposentados da nossa categoria profissional e aposentados de outras categorias. Louve-se também a outras lideranças, como o companheiro Gilson Menezes que foi um dos baluartes nessa luta, como trabalhador inclusive da Scania-Vabis, que organizou o primeiro passo do movimento de 78, 79. Companheiro Gilson Menezes, também rendemos as nossas homenagens, ele e outros grandes companheiros, porque foi o início do movimento que serviu de lição para o autoritarismo e jamais vamos admitir neste país o autoritarismo. Os trabalhadores estão de parabéns porque a ditadura começou cair foi com os movimentos que iniciamos em 78, 79 e 80, e outros movimentos que nós participamos também em outras cidades, em outros estados, todos contra o arrocho do salário, contra essa política nefasta daquele regime militar, contra os atos institucionais, e com falta da liberdade democrática em nosso país. Conquistamos tudo que hoje felizmente nós estamos respirando neste país, com todas as dificuldades que vivemos, nós estamos respirando um ar de liberdade. Muito obrigado.

O importante é ressaltar que após os movimento que nós iniciamos na região do Grande ABC, o que resultou desse movimento. Resultou sim a conquista da Anistia que veio em 79. Em seguida, as eleições diretas para todos os governadores dos estados. Em seguida, as eleições para presidente da República. A extinção dos atos institucionais, o AI-5 e outros atos institucionais, ou seja, a extinção de todo o mecanismo repressivo do regime militar. Então nesse período vem também a liberdade e autonomia sindical junto com a Assembléia Nacional Constituinte, que também foi uma conquista do povo iniciada pelos trabalhadores, pela sociedade que se organizaram contra o regime. Vem inclusive a liberdade e autonomia sindical. E inclusive hoje o país está vivendo em termos políticos tudo bem, pelo menos liberdade existe, embora as dificuldades sociais também existam mas não se vê mais hoje baioneta nenhuma no peito de trabalhadores, quando reivindicam melhores condições de trabalho e melhores salários. E isso tudo a gente tem que fazer um balanço realmente resumindo que foi de suma importância pra todos nós, sindicalistas, e pra todos nós brasileiros. É mais ou menos isso que eu queria deixar neste meu depoimento neste dia que estamos comemorando os 20 anos da nossa luta que fizemos aqui na região do grande ABC, 78, 79 e 1980. Mesmo cassados como fomos e a intervenção implantada em nosso Sindicato, com dois anos de intervenções, nós prosseguimos na luta, na organização dos trabalhadores e exigindo inclusive a volta à normalidade do nosso Sindicato, elegemos uma nova Direção e hoje nosso Sindicato realmente está o quartel-general novamente a serviço da classe operária, a serviço dos trabalhadores do Brasil, a serviço dos trabalhadores da nossa região. Este Sindicato que tem sua história desde 1933 sempre levantou sua voz em defesa das bandeiras de lutas da classe operária deste país.

Sindicato dos Metalúrgicos
Santo André
abril de 1998

(outra entrevista de Benedito Marcílio)

Eu queria registrar aqui primeiro a satisfação de estar junto com os companheiros aqui presentes, o companheiro Gilson, o Petrolli, que é jornalista, tem mais jornalistas aqui presentes, o Petrolli foi o jornalista (…) ele acompanhou par e passo todos os movimentos pelo Diário do Grande ABC, embora muito do que ele escrevia… ele também era podado lá, ele também foi um perseguido lá no Diário, mas tem muito coisa que ele sabe e vai contar, acredito, um depoimento dele é importante… Padre Bernardo inclusive, grande companheiro… Só dá alegria pra gente.

Mas a verdade é uma só. (…) Eu senti desde quando assumimos o movimento sindical, eu sou sócio do Sindicato desde 1956, eu sou metalúrgico e associado do Sindicato, sempre participei antes do golpe de 64 (…) movimento sindical, inclusive vinculado ao Partidão, não era filiado mas era simpatizante. Após 64, continuamos a nossa atividade sindical e vim a assumir a presidência do Sindicato em 67 e tudo o que ocorreu realmente nesse período, é claro que o golpe foi em cima da classe operária, todos nós aqui temos consciência que o golpe militar foi em cima da classe operária. Com a repressão em cima… montada através dos órgãos de segurança que era o SNI, que recebia as informações, o DOPS em São Paulo que era o órgão estadual, a Polícia Federal e a Operação Bandeirantes que era uma operação inclusive organizada civis e militares que era tudo (…) paramilitares para reprimir todo quanto é movimento, quer queira o movimento popular, movimento sindical e qualquer movimento que surgisse nesse país, essa que é a grande verdade. Em cima disso, impuseram a nós um arrocho dos salários dos mais terríveis. Os Sindicatos, através da vigilância permanente, sem autonomia, porque a legislação pra fazer uma greve tinha que fazer a lei 4330 que, eu lembro muito bem dela, tinha que chamar 2/3 da categoria pra poder ir no Tribunal, pro Tribunal dar uma sentença que bem entendesse, dentro da legislação de arrocho e você não podia fazer mais nada. Essa que é a verdade.

Mas, houve vários movimentos nesse país, inclusive companheiros por combater a política do arrocho salarial foram cassados do movimento sindical. Nem greve fizeram, por motivo de apenas discordância da política salarial foi cassado como o Rui Brito, da Contag, que era o presidente da Contag, Frederico Brandão, dos Bancários de S. Paulo, e daí desencadeou o movimento todo, o MIA, por exemplo, que nós criamos, o MIA era um movimento também de categorias diferenciadas aonde a legislação não permitia a organização de categorias diferenciadas num processo de luta e nós conseguimos organizar o MIA que foi o Movimento Intersindical Antí-arrocho, foi um dos grandes movimentos da história, da história. Porque conseguimos também não ficar intimidados com referência à estrutura sindical e à legislação repressiva; embora o movimento cresceu no MIA e inclusive a base que mais se organizou foi Osasco, Osasco conseguiu com o Ibrahim se organizar ainda mais, em fazer uma articulação maior dentro do movimento sindical do que nós aqui no próprio ABC e desencadearam no momento certo um processo de greve lá na Brown-Boveri e em todo o Osasco. E foi uma semana de guerra aqui. O que virou o ABC aqui 79, 80, foi em 68 na cidade de Osasco. Virou uma praça de guerra lá também. E interviram e cassaram os companheiros.

Mas esse movimento de Osasco serviu também como um grande despertar nacional. Depois veio o movimento inclusive dos Bancários do Rio Grande do Sul, com o Olívio Dutra, veio o movimento da Construção Civil inclusive com vítima, assassinaram o companheiro nosso da Construção Civil de Belo Horizonte, vem o movimento dos canavieiros de Pernambuco, fizeram aquelas greves também em Pernambuco, veio o movimento dos médicos do Rio de Janeiro, onde fizeram a greve dos médicos também no Rio de Janeiro. Então foi colocado nesse período todo já um confronto com o regime, um confronto com o regime.

E em seguida vem o movimento popular se organizando, a Igreja nos ajudou muito, a Igreja inclusive nos ajudou muito com a Pastoral Operária, com os movimentos da JOC, movimentos da Igreja, inclusive em Santo André nós tinha um movimento muito grande dentro da Igreja que era a a AP, que era a Ação Popular, que funcionava realmente, mais do que muitos partidos políticos hoje está funcionando, a AP. E todos engajados em todos os movimentos populares, reivindicando além do direito social mas também nós estávamos firmes na luta política e ideológica e o movimento sindical era mais ideológico do que hoje, era muito mais ideológico. Porque… era a favor da ditadura, quem era a favor da ditadura, era a favor da ditadura, e quantos sindicalistas que eu conheço, que eu posso falar pra vocês, que no dia 15 de novembro de cada ano era obrigado, era intimado pelo sistema a puxar a bandeira no dia da Pátria, dia 7 de Setembro, dia Primeiro de Maio, e carregar a bandeira em favor do regime militar (…) quantos eu conheço que até desfilar, desfilavam. E nós mantivemos nossa posição de que “nós não aceitamos isso, nós não aceitamos isso”. E pode verificar na história que nós aqui nunca carregamos bandeira em favor do regime militar e muito sindicato grande, inclusive o Sindicato de São Paulo, os Metalúrgicos de S. Paulo carregava bandeira lá, era convocado por que? Atrás disso tinha o apoio político do regime e além disso as indicações de juizes classistas quer queira nos Tribunais e inclusive nas Juntas de Conciliações. E era assim a nossa política sindical. Mas era ideológica: quem era a favor deles, era a favor deles, quem era contra, era contra também.

E daí inclusive verificamos o grande movimento da classe operária e dos movimentos populares a organização inclusive pelas liberdades democráticas, pela volta da plenitude democrática, documentos e manifestos que surgiram, reprimidos, sim, sempre reprimidos, prisões era permanente, tudo o que combatia o governo era tachado como comunista, como organizador de ligas camponesas e outras coisitas más que colocavam pra tentar reprimir tudo o que foi movimento. Mas o que aconteceu? A classe operária não é boba, a classe operária ela Tem atividade, ela é inteligente, quer queira ou não, ela sabe qual é o dirigente que tem condições de conduzir o movimento e organizar e ela também sabe se organizar. E foi o que aconteceu, foi o que aconteceu.

Tivemos outra passagem maravilhosa também na conquista da praça, que todo o mundo falava: “a praça é do povo”,”a praça é do povo”, mas para conquistar a praça, companheirada, foram anos e anos de organização e o movimento surgiu de todo esse conjunto da sociedade participando e eu lembro muito bem a primeira tomada da praça da Sé que inclusive tocaram fogo no palanque, fizeram uma passeata lá, nós não organizamos fogo no palanque, nem organizamos tentar invadir o quartel do 2a Exército, isso também nós não tentamos fazer; mas em nosso meio existia, existia tanto descontentamento e revolta no nosso meio e as organizações todas participando que conseguiram fazer isso, e inclusive naquele Primeiro de Maio surgiu proposta de invasão do quartel-general lá da ladeira General Carneiro. E nós fomos obrigados como liderança que levamos aquela massa pra lá, dizer que esse não era o nosso comportamento, confrontar com algumas lideranças que estava nesse meio, E inclusive eu recebi como presidente do Sindicato, nós levamos 19 ônibus, (…) e tudo estava lá, nós fomos presos inclusive pra prestar depoimento no DOPS, tudo com fotografia com uma roda desse tamanho na cabeça da turma nossa. E inclusive o Marquinhos, o Marquinhos, que inclusive trabalhava em S. Caetano, chegou no Sindicato e falou: “Marcílio, você vai falar pelo ABC, você e o Dom Jorge Marcos de Oliveira, e mais ninguém ia falar pelo ABC”. “Mas quem é você pra decidir dessa forma? Nós que estamos convocando, nós que estamos participando”. “A ordem é essa”. E o resultado? Esse Marquinhos era um engenheiro, era engenheiro esse moço e naquele movimento da praça da Sé, ele foi um que articulou a tal invasão lá no quartel-general, com um tremendo de um trabuco na mão deste tamanho, e resultado: ele também estava fazendo a história dele, a gente tem que reconhecer que ele estava fazendo história, do modo dele, mas fazendo junto… querendo levar o movimento até pro terrorismo mesmo. Nós tinha consciência que não era esse o caminho. Tivemos que confrontar. Saímos todos por um buraco daquele palanque lá e a Catedral do Carmo foi a nossa salvação (…) lá dentro, porque tocaram fogo em tudo. Resultado: passados alguns dias, mataram o Marquinhos, mataram o Marquinhos. Por que que mataram o Marquinhos? (…) a operação do Exército, aí, .– mataram o Marquinhos. Porque segundo estava informando, ele foi aquele que apagou aquele general militar americano que fazia parte da CIA aqui no Brasil. Segundo a declaração da história (…) exatamente.

Mas os movimentos foram crescendo extraordinariamente dentro da categoria com consciência da importância da organização do movimento. E quando surgiu aqui o companheiro Gilson e outros companheiros que estão aqui presentes prestando esse depoimento, iniciaram esse movimento aqui na Scania, os trabalhadores estavam com o saco-cheio disso aí porque além de uma política de arrocho salarial, ainda fomos roubados na manipulação dos índices e quando tomamos conhecimento, a classe operária tomou conhecimento da divulgação que mais 34,1% tinha sido roubado pelo governo de Delfim Neto, isso foi uma gota d’água realmente e aonde estava mais organizada, a revolta estava preparada, surgiu o movimento, organizado e coordenado pelos companheiros. E serviu de uma experiência extraordinária para futuros movimentos que surgiram em 79, as greves de 79 e as greves de 41 dias de 1980. Foi um aprendizado e a perca do medo. Foi uma liberação do medo que existia no meio da classe operária até com razão porque você era reprimido de todo o lado, você não podia sequer participar de nada que você era denunciado, no dia seguinte tava na rua; um alto índice de desemprego que estava no país fazia com que o trabalhador tinha revolta mas não conseguia como pôr ela pra fora, individualmente era impossível, tinha que ser coletivo; e essa greve, com manchetes nos jornais da região, greve pela reposição de 34,1% que foi manipulado pelo governo de Delfim Neto, serviu de recorte de muitos jornais, e a divulgação desses recortes e a implantação disso aí dentro das fábricas, a panfletagem, que surgiram os movimentos que nós denominamos movimento pipoca porque ela explodia dentro da fábrica e era dentro da fábrica que se fazia a paralisação; no dia seguinte da paralisação da Scania, aqui a Philips em Santo André foi uma das primeiras que paralisou também e eu como presidente do Sindicato, eu participei da negociação de todas as firmas da nossa cidade, negociando entre 16% a 20%, que foi o valor da reposição no geral; e com um fato interessante que eu vou aqui homenagear as mulheres.

Nós entramos numa negociação numa firma que 90% era mulheres, a Brosol, e lá fizemos a negociação, a discussão, numa seção numa ala de ferramentaria e lá na ferramentaria a proposta era 16% e os ferramenteiros “ah, tá bom”. E aí vamos pra seção das mulheres, aquela multidão de mulheres naquela seção. Chegamos na seção das mulheres, passamos já a discussão, “a firma quer repor 16% e o que vocês acham disso?” Ah, meus companheiros, as companheiras levantaram (…|: “nós paramos foi por 20%, nós não aceitamos menos de 20% de forma alguma”- “Vocês querem 20% ou quer aceitar os 16%?”- “Nós queremos os 20%.” Colocamos em votação, foi unânime: 20%, e isso junto com a diretoria da firma, todo o mundo levantando (…). Veja que nível que chegou as companheiradas, e não era 10 mulheres, não, 50 mulheres, tinha mais de 500, mais de 600 mulheres (…) então também é um fato histórico, a gente rende homenagem às nossas companheiras, quando elas são organizadas, elas sabem muito bem (…). E assim foi o movimento.

Depois veio realmente a greve de 79, que a de 78 serviu pra grande experiência de 79, 79 foi aquela greve vitoriosa nossa e a de 80 também foi e af foi o começo do fim do regime autoritário porque daí veio também o grupo dos CBAs organizados, os CBAs, que eram grupos pela anistia, teve uma participação fundamental na conquista da nossa plenitude democrática, da anistia, das eleições diretas, a queda dos atos institucionais e inclusive eleições para Assembléia Nacional Constituinte. Tudo foi desencadeado aí após a greve de 1980 e iniciada e a gente tem que render homenagens aos companheiros da Scania que em boa hora organizaram e saíram às ruas e que foi manchete não só a nível aqui na região mas a nível nacional porque nós queríamos fazer a greve e não tinha como iniciar o processo e os companheiros iniciaram e serviu de lição e exemplo de coragem pra todos nós, pra prosseguir o exemplo que os companheiros deram aqui na Scania.”

Grêmio da Scania
São Bernardo do Campo
29 de março de 1998

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