Certo dia, certos documentários, certos diálogos

Certo dia, Joãozinho e Zezinho estavam conversando sobre documentários; eis que veio à tona um diálogo polemicamente peculiar.

Zezinho — Assisti ao tal Inside Job, que ganhou oscar e tal – embora esse filme se esquive de análises mais agudas e se limite a demonizar os investidores e banqueiros ultra-ricaços (tentando salvar a pele de bilionários “honestos”), ainda assim as entrevistas, nuas e cruas, com várias figuras de Wall Street são dignas de serem assistidas.

Joãozinho — Parece interessante.

Zezinho — Pois é.

Joãozinho — Eu, de minha parte, acabei de ver o filme-documentário The Obama Deception: The Mask Comes Off. O título é pertinente, pois o filme é realmente uma decepção.

Zezinho — Ah sim? Por quê?

Joãozinho — Porque é uma verdadeira salada. O diretor se embrenha em mil assuntos, misturando e bagunçando tudo. O filme faz várias críticas que, em um primeiro impacto, podem parecer até interessantes, e que talvez sejam até fundamentadas. Por exemplo, promessas de campanha que o Obama vêm descumprindo, uma depois da outra. Mas no geral o filme me pareceu uma grande salada, ora falando dos planos de Wall Street para uma dominação global (que usa o Obama de fantoche e tal), ora entrando em tomateiros norte-americanos de todos os tipos.

Zezinho — Percebo. Pois veja que acabo de buscar um pouco na internet sobre as alianças políticas de fundo desse filme. Achei ligações com o tal republicano Ron Paul, que normalmente é chamado de «libertarian»

Joãozinho«Libertarian»? Que diabos é isso?

O documentário era uma salada geral

O documentário era uma salada geral

Zezinho — É um rótulo que nos EUA significa uma variedade meio de direita, que vagamente pode ter a ver com os Tea Party; mistura de teorias conspiratórias, fanatismo, defensores de um “isolamento” dos EUA em relação ao resto do mundo, e com ares de serem “contra” grandes banqueiros (Wall Street) e governos centralizadores (leia-se, cortar impostos de ricaços e ser contra sistema de saúde pública), tudo de forma individualista, não classista nem revolucionária – enfim, uma salada esquisitíssima, que pelo jeito bate com a sensação da salada geral que você viu no filme. No trailer, quase se vislumbram preconceitos contra negros também.

Joãozinho — Na mosca… é exatamente esse o biotipo do filme! O foco é dar provas de que o Obama é apenas uma marionete, que simplesmente dá continuidade ao teatro dos Bushs e Clintons anteriores. Afirmam que o povo elege o presidente, mas não decide quem são os candidatos, ou seja, todo um esquema forjado… e que os que realmente governam são a meia dúzia de Wall Street.

Zezinho — Entendo.

Joãozinho — Mas não se empolgue; o filme é uma salada geral, lembre-se. Não merece tanta credibilidade.

Zezinho — Por quê não? Não vá me dizer que essas críticas ao Obama, Bush, Clinton e companhia são daquele ângulo sensacionalista e conspiratório, que provoca reações nas pessoas baseadas em medos irracionais, e que não tem nada a ver com uma análise crítica marxista?

Joãozinho — Exatamente. Parece até que você assistiu ao filme.

Zezinho — Não. Esse filme, em particular, não. Mas eu já vi esse filme antes.

Joãozinho — Eheh, uma frase de bravura. Mas enfim, o documentário vai adiante insistindo o tempo todo que são contra o FED, porque é no fundo uma instituição privada acima de leis, presidentes, congressos.

Zezinho — Descobriu a América.

Joãozinho — O curioso é que eles defendem que o FED se submeta às leis e ao governo… ué, mas não acabaram de dizer que o governo é apenas um fantoche?

Zezinho — Realmente muito curioso.

Joãozinho — Pois é. Prosseguem afirmando que bancos privados centralizadores estavam previstos no Manifesto Comunista, e “daí vieram as ditaduras Lenin, Stalin, Hitler e Mao”, e que os americanos não podem deixar o mesmo acontecer «in America»… criticam uma tal coisa Bilderberg Group, que é uma reunião anual de uns 150 multibilionários. Segundo o filme, ali decidem tudo, inclusive as diretrizes para a formação da “New World Order”, a formação de um governo ditatorial global. Afirmam que foi esse grupo que escolheu e bancou o Obama etc.

Zezinho — Percebo. Imagino que talvez eles mostrem esses 150 multibilionários como vilões mal-intencionados, ao passo que todos os outros são apenas “empreendedores” honestos, bem-intencionados.

Joãozinho — Exato.

Zezinho — E imagino ainda que faltou pouco para acusarem o Obama de “socialista”, como se fosse um palavrão.

Joãozinho — Confesse, você assistiu a esse filme.

Zezinho — Já disse que não.

Joãozinho — OK. Não contentes, os caras que fizeram o filme afirmam que o 11 de setembro foi uma pataquada dos poderosos americanos. Logo, meio que vindo do nada e indo a lugar nenhum, entram no assunto do aquecimento global, afirmando que é uma farsa, que essa variação de temperatura que está ocorrendo faz parte do ciclo normal das relações entre Terra e Sol.

Zezinho — Pelo que você me conta, a alucinação parece rolar solta nesse filme.

Joãozinho — Por quê?

Zezinho — Ora, negar o aquecimento global é uma plataforma típica da direita em geral e dos Republicanos nos Estados Unidos, para barrar a implementação de políticas regulatórias estritas para conter a poluição desmedida emitida por grandes corporações. Obviamente, essa negação favorece grandes corporações de petróleo, automobilísticas, et cetera. Os tais multibilionários incluídos.

Joãozinho — Inclusive, no filme eles não explicam muito bem os porquês; apenas saem dizendo que o aquecimento global provocado pelo ser humano é uma farsa, e ponto final.

Zezinho — E sobre as elucubrações do 11 de setembro, não vou nem gastar saliva.

Joãozinho — Sim, melhor deixar pra lá. Uma outra coisa particularmente interessante no documentário é quando, empolgados, começam a enaltecer ex-presidentes que, imagino, devem ser figuras daquelas “honradas e intocáveis” para o americano médio, tipo uns George Washington e uns John Kennedy da vida (esses sim queriam construir um país livre e tal). Começam aqui os tomateiros.

Zezinho — Sim, os típicos e apreciados tomates norte-americanos.

Joãozinho — Deslumbrados, mencionam o tempo todo os tais «First Amendment», «Second Amendment» etc. como se fossem maravilhas divinas que somente os americanos têm o privilégio de possuir, e criticam o Obama porque “ele quer desarmar os americanos”.

Zezinho — E dá-lhe com os tomates.

Joãozinho — Exato. Assim mantém-se a única coerência do filme, que é uma salada.

Zezinho — Tomates constitucionalistas, diga-se de passagem.

Joãozinho — Como assim, tomates constitucionalistas? Essa não consta no meu dicionário.

Zezinho — Sim, constitucionalistas, ao melhor estilo dos Tea Party, que se dizem enormes defensores da constituição americana. O «First Amendment» é o que defende liberdade de expressão. Já o «Second Amendment» é o que dá o direito ao porte de arma. Já se começa aqui a sentir um cheiro da National Rifle Association, aquela associação de ultra-direita, e de texanos alucinados que vão com seus rifles atirar em imigrantes mexicanos cruzando a fronteira, «defending America».

Joãozinho — Texanos, daqueles que têm picapes enormes, e usam chapéu de caubói?

Zezinho — Esses mesmos.

Joãozinho — Eles devem se divertir atirando em imigrantes como se estivessem em um parque de diversões, na barraca “acerte o pato e ganhe um urso de pelúcia”.

Zezinho — Ou qualquer coisa nessa linha.

Joãozinho — Falando em coisas ridículas, uma das partes mais ridículas do filme é a de um dos principais entrevistados, desses que ao longo do filme sustentam todas as críticas colocadas. Esse carinha começa dizendo que “uma das grandes vantagens” dos americanos é ser livre, e ser um povo com espírito inovador… e depois dispara «You know, if I was born in Italy, I wouldn’t be the trend forecaster I am today… because I would’ve been locked into a culture of thinking one way».

Zezinho — Por que será ele encrencou com a Itália, justamente?

Joãozinho — Sei lá. Talvez ele não goste de espaguete.

Zezinho — Talvez ele ache que o espaguete poderia bloquear o espírito inovador dele.

Joãozinho — Ou talvez ele ache que a Itália é muito pequena, sendo que ele precisa de espaço para sair atirando.

Zezinho — É, pode ser isso.

Joãozinho — O fato é que esse carinha realmente crê que ele mesmo NÃO está «locked», e nem deve suspeitar que esse deslumbramento americanóide dele possa ser o melhor exemplo de uma «culture of thinking one way».

Zezinho — Típico.

Joãozinho — Mas… o que é um «trend forecaster» exatamente, tipo um analista político?

Zezinho — Algo assim. Nunca ouvi exatamente essa expressão. «trend» é tendência, moda, etc. Previsor de tendências, eu diria.

Joãozinho — Ah, tá. Então fechou.

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