João Batista Lemos

“(…) a gente sente muito agradecido, que vocês lembraram da gente aqui e vim falar sobre a experiência. Outra, que a gente lembra disso aqui bastante colorido, bandeira do Brasil, bandeira vermelha, faixas, então foi um momento assim que a classe operária aqui do ABC lançou pro Brasil inteiro a possibilidade de mudar, de transformar essa sociedade, o que está faltando hoje, hoje a gente precisa dessas grandes mobilizações, o desemprego aí está comendo solto, são mais de 1 milhão e 400 mil desempregados em S. Paulo, aqui no Grande S. Paulo, a exploração está comendo dentro das empresas e a gente não conseguiu retomar esse movimento de massa, esse sindicalismo de classe, sindicalismo democrático, o sindicalismo de massa, eu acredito que nós vamos retomar ainda porque não tem outro jeito a não ser retomar a luta mas com muita unidade, isso que a gente precisar tirar como experiência.

(…) Eu acho que na época era um momento assim de super-exploração dos trabalhadores, a maioria das categorias tinham perdas salariais de mais de 30%; em 73, eu morava em Campinas ainda, trabalhava na GE, foi quando o Lula denunciou a manipulação dos 34,1%; então a gente tirou lá um movimento, na GE lá, começamos a fazer oposição e viemos aqui pedir apoio pro Sindicato de S. Bernardo pra oposição em Campinas. Cheguei aqui em final de 77, entrei na Volks e aí a gente conversava com a peãozada e a peão7ada falava: “Olha, a Volks é uma mãe, a Volks tem restaurante, convênio médico, tem Senai aqui dentro, tem condução, caipirinha, fazer greve? Não sai, entendeu? Que que é isso?”. Falar em Sindicato? Isso aí ainda final de 77, não dava pra falar em Sindicato.

Foi a Scania que deu o primeiro tiro. Isso refletiu dentro da Volks, aí parou a Ala 8, parou alguns setores dentro da Volks. Mas isso acho que é dois fatores: uma é a super-exploração, lá na (…) o pessoal fazia hora-extra, era um momento também de crescimento econômico do país que é contrário de hoje, hoje essa política neoliberal tá levando a uma retração da produção, uma quebra das indústrias e os sindicatos estão perdendo o poder de barganha, então o sindicalismo forte, a gente já tira uma lição, também é com desenvolvimento econômico, porque aí você pára, você tem o poder de barganha, você parar quando tá tendo férias coletivas, quando está tendo retração, demissões, o sindicato perde esse poder de mobilização. Então esse é um problema objetivo. Mas eu acredito também que, além desse problema objetivo que nós estamos enfrentando hoje, existe uma certa burocratização das direções dos sindicatos porque os sindicatos precisam também se readequar a esses novos desafios; hoje nós enfrentamos além dessa demissão em massa, projeto neoliberal, quebradeira da indústria, juros altos que está quebrando com o pequeno e médio empresário, nós temos que enfrentar isso, temos que enfrentar a reestruturação industrial, essas novas técnicas gerenciais porque o capital tirou experiência, então eles formaram os círculos de controle de qualidade, CCQ, todo esse trabalho de racionalização da produção, novas técnicas gerenciais para cooptar os trabalhadores e nós temos que ter também novas táticas pra enfrentar essa ofensiva do capital porque a exploração está aumentando demais dentro das empresas, a precarização do trabalho com o processo de terceirização, todo esse tipo de coisa, flexibilização da jornada, entendeu? Tudo isso é aumento da exploração hoje do trabalho.

(…) É… o Sintrema também, ontem nós tivemos contato com eles, eles estão… já está querendo leiloar a Sabesp e Cetesb, então eles estão num movimento muito grande em defesa da empresa pública; então, isso vai colocando prós sindicatos, de defender a empresa pública, de defender a retomada do desenvolvimento econômico porque isso fortalece também a luta dos trabalhadores, a gente tem que dar a nossa linha, defesa dos nossos interesses de classe mas a retomada do desenvolvimento econômico hoje é uma coisa que está colocada. Isso vai contra a lógica do neoliberalismo. Então vamos ter que… os sindicatos vão ter que enfrentar essa luta de forma mais geral pra derrotar esse projeto neoliberal que está sendo instalado em nosso país.

Mas eu vejo assim também que, naquela época, também foi uma época de explosão, os trabalhadores estavam sendo reprimidos durante a ditadura militar, então aqui através da luta, não só através da luta dos trabalhadores, dos estudantes, das forças progressistas, democráticas, a campanha pela anistia, a luta contra a carestia, tinha o Movimento contra o Custo de Vida, a gente falava que “a inflação subia de elevador e o salário subia de escada”, a gente falava isso. Então houve todo um movimento geral também mas os trabalhadores aqui tomaram a dianteira na luta mais urbana; anteriormente houve as lutas no campo, guerrilha, a resistência também contra a ditadura mas os trabalhadores colocaram a sua luta assim no centro, no cenário político foi através desse movimento grevista aqui no ABC.

(…) Sou João Batista Lemos, eu entrei na Volks no final de 77 como ajudante de produção A, depois cheguei a operador, fiz um curso dentro da Volks de inspeção de qualidade, passei a ser inspetor e a início de 78 nós começamos a desenvolver um trabalho dentro da Volkswagen e a reação dos trabalhadores, da peaozada era que falar em Sindicato era muito difícil porque a Volks “era uma mãe”, a Volks dava tudo de presente, condução na porta, restaurante, convênio médico, caipirinha antes da feijoada na sexta-feira ou no sábado então era uma situação muito difícil. Mas se vivia, de outro lado, a super-exploração, a maioria das categorias tinham uma perda salarial de mais de 30%; Lula mesmo a partir de 73 denunciou a manipulação dos 34,1% na questão das perdas salariais contra os índices calculados por Delfim Neto. Então na Volks corria essas discussões mas ela era ainda muito pequena.

Foi quando o Sindicato não aceitou a proposta do governo na campanha já de 78, a Scania pára, cruza os braços, isso estourou, teve uma repercussão grande na Volks, foi quase assim como um movimento espontâneo dentro da fábrica, que começaram parar vários setores, parou a ala 8 da ferramentaria, parou outros setores da usinagem. Eu ainda era novo na fábrica, estava preocupado mais em organizar ali o núcleo de trabalhadores, também era novo no Sindicato. Então a gente mais acompanhou esse movimento e depois da greve de 78 que a gente começou então a criar uma mobilização mais forte, fazer um processo de sindicalização dentro da Volkswagen. Nós chegamos fazer um processo coletivo contra a insalubridade sonora, a gente, com esse processo coletivo que nós abrimos junto com o Sindicato, nós sindicalizamos mais de 1200 somente no setor da prensa, setor das prensas que era um processo que a gente reivindicava o índice de insalubridade e também os equipamentos de proteção contra os impactos do ruído na prensa, o ruído era muito forte. Esses movimentos pequenos dentro da fábrica foi ajudando também a elevar o nível de organização dentro da empresa. As CIPAS mesmo, hoje as CIPAS são bastante sob controle do Sindicato, dos trabalhadores, as CIPAS naquele tempo estavam sendo descobertas pelos Sindicatos, a gente começava a disputar um ou outro a direção da CIPA porque era totalmente controlado pela empresa, então naquele momento o nível de organização dentro das fábricas era muito pequeno, era dado mais através da atuação do diretor de base dentro da empresa. Isso em 78.

Depois houve o processo já de preparação da luta de 79, também no sindicato e na comissão de salário, a gente discutia: “qual era a forma de fazer essa greve?” Foi quando o Bolinha, na Resil, parou os trabalhadores no piquete. Em 79, isso representou pra nós como uma forma de mobilização, de deflagrar a greve em 79. Essa greve da Resil que trouxe a indicação de como a gente ia fazer a paralisação em 79; foi formado a comissão de salários, a comissão de mobilização, eu participei dessa comissão de mobilização em 79 e a gente fez a paralisação sobretudo à base dos piquetes. Já em 80… foi… 79 teve a intervenção no Sindicato, nós ficamos parados, teve a trégua dos 45 dias, precisamos e sentimos falta de um Fundo de Greve mais bem organizado e dessa experiência de 79 nós partimos então para a preparação mesmo, aí superando a intervenção no Sindicato, nós partimos para uma preparação muito mais de fôlego pra uma mobilização na greve de 80.

Então na greve de 80, já se partiu de um grau de mobilização maior dentro das empresas, foi formada uma comissão de mobilização com mais de 400 companheiros, dessa comissão de mobilização, que foi escolhido através de reuniões de fábricas, dentro da Volks foi reunião de setores pra indicar o companheiro pra compor a comissão de mobilização. Fora a comissão de mobilização, foi eleito um grupo de 16 companheiros de base para substituir a diretoria se ela fosse presa. Nesse grupo de 16, a gente participou também pela Volks, indicado pelos companheiros da Volks, então nós participamos desse grupo dos 16, juntamente com a Diretoria, e do grupo dos 16 se tirou 3 companheiros pra falar em nome da comissão de mobilização que foi o Osmarzinho, o Alemão e eu. Eu não tinha muito experiência de intervir nas assembléias, tinha dificuldade de falar em público, uma vez um companheiro da fábrica: “Batista, você falou 10 vezes companheiro” porque a gente não tinha muita experiência, a experiência nossa era muito mais de dentro da fábrica, da organização no interior da empresa. Esse processo da greve de 80 foi um processo muito rico porque foi no período ainda da ditadura, uma perseguição muito grande, o grupo dos 16 fazia reuniões escondido, de forma clandestina, nós chegamos fazer até reuniões no Seminário do Ipiranga, reuniões em paróquia, reuniões em bairros, que só mesmo o grupo dos 16, o comando da greve sabia onde estavam sendo essas reuniões. Então teve também uma forma até mesmo clandestina do comando de greve. A gente assumiu essa luta aí. Quando houve a intervenção no Sindicato, a diretoria foi presa, já indiciada pra ser enquadrada na Lei de Segurança Nacional, o sindicato sob intervenção, a gente manteve a greve, talvez teríamos que retornar a greve, dar um recuo de forma mais organizada mas nós fomos até a exaustão que durou os 41 dias de greve. A gente tirou muita lição: os operários voltaram e retornaram pras empresas com ódio de classe, isso acumulou uma revolta muito grande por parte dos trabalhadores contra a política econômica do governo, contra a ditadura, contra a falta de democracia e também foi despertando uma consciência mais política nos trabalhadores porque a greve mostrou isso: que tem todo um aparato ligou ao capital, ligado à burguesia, contra os seus direitos, pra aumentar ainda mais a exploração dos trabalhadores. A greve de 80 trouxe muita lição aí pro movimento operário não só aqui no Brasil também como em nível internacional.

A partir de 80, ainda com a Diretoria cassada, o Sindicato sob intervenção, começou também a preparação para as eleições da Diretoria. Acho que isso é importante colocar. Nessa escolha, na formação da chapa acabou existindo uma divisão aí das lideranças, o pessoal do Lula no Sindicato eles criaram um veto (…) Então em 81 começou a formação, a preparação pra a sucessão na Diretoria do Sindicato que também significava a retomada do Sindicato que estava sob intervenção. Fntão começou o debate da formação de uma chapa e se definiu uma chapa unitária porque a unidade é que prevaleceu todas essas mobilizações — uma coisa assim positiva que teve na mobilização: que a Diretoria do Sindicato, sob a liderança do Lula, soube unificar todas as forças que atuavam na categoria e nas empresas, independente das suas posições políticas e ideológicas — mas quando foi pra formar a chapa em 81 houve uma opinião que o pessoal em torno do Lula não poderia ser de grupos ideológicos; aí foi quando então se excluiu o Osmarzinho, se excluiu o Alemão, o Alemãozinho, e também a mim, de participar dessa composição da chapa porque tanto eu, como o Alemão e o Osmar não éramos fechados com a proposta que estava se trabalhando do PT. Então isso… de cara, já houve um processo de exclusão dessas lideranças na formação da chapa e se acabou formando a chapa 2 . O que eu tiro agora é que houve um erro por parte do pessoal do Lula e do pessoal da Diretoria mas o erro maior foi nosso, isso a gente assume de forma muito clara, uma auto-crítica aqui por parte da nossa posição política do PC do B, o Partido errou em 81, nós não poderíamos de forma nenhuma ter rompido e ter dividido por cima esse processo, o momento era de unidade pra retomar o Sindicato, o momento era de unidade dos trabalhadores contra a ditadura e contra a exploração das multinacionais dos patrões aqui em S. Bernardo e em nosso país. Então nós assumimos de forma muito clara essa autocrítica, mesmo com erros do pessoal do Lula, mas nós erramos mais, nós deveríamos ter recuado, ter apoiado a chapa mesmo não participando dela porque isso não contribuiu para o avanço da luta dos trabalhadores aqui em S. Bernardo. Então a gente assume essa autocrítica de forma bastante explícita.

A partir de 80, então se retoma essa luta, houve um certo refluxo em S. Bernardo, se retoma essa luta em 83 mas em 82 o movimento de desempregados foi muito forte, 83, 84, demissões em massa da Mercedes, demissões em massa da Volks, em S. Paulo houve uma luta dos desempregados, desempregados quase ocupam o Palácio dos Bandeirantes e aqui em S. André em 82 nós, metalúrgicos, organizamos a ocupação do Conjunto Habitacional do Centreville, eram mais de 540 casas, esse povo mora até hoje lá, sem pagar aluguel porque foi fruto de uma mobilização muito grande; o que nós utilizamos na ocupação do Centreville foi muito lição concreta da organização dos trabalhadores nessas greves aqui em S. Bernardo.

Então era mais isso que a gente tinha que falar. O momento hoje é de retomar essa mobilização contra o desemprego, contra o projeto neoliberal, o que está colocado hoje para os trabalhadores dentro das empresas não é a flexibilização da jornada, porque isso é uma proposta patronal, o que está colocado para o movimento sindical é conquistar a redução da jornada de trabalho. Hoje atuo na coordenação nacional da Corrente Sindical Classista e nós levantamos uma bandeira que ajusta a bandeira das 40h semanais, que as 40h semanais atingem os trabalhadores somente que trabalham 44, aqueles que já trabalham 40h, como os petroleiros, setor de bancários, mesmo alguns metalúrgicos de algumas empresas trabalham menos de 40, trabalham 40 ou menos de 40h. Então nós estamos levantando a bandeira de reduzir por 4h, na semana jornal de trabalho sem redução de salário, aqueles que trabalham 40 devam lutar para trabalhar 36, e aqueles 44 lutam pra conquistar as 40h semanais sem a redução do salário. E também o processo de luta de unidade contra o neoliberalismo. Vamos enfrentar as eleições e hoje está colocado prós trabalhadores a unidade dos partidos de esquerda, do PT, do PSB, do PDT, do PC do B pra unir com todo o povo para derrotar Fernando Henrique e eleger Lula presidente. É isso.”

Estádio da Vila Euclides
São Bernardo do Campo
15 de abril de 1998

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