Augusto Cássio Portugal Gomes

“(…) agora eu acho muito importante tentar lembrar da história do Severíno que hoje é um companheiro ausente daqui (…) que te levou pro sindicato (…) e é um companheiro que (…) na verdade ele já tava liberado, né, Gilson? (…) o Severíno já tava liberado, já era da primeira diretoria. Ele teve um papel muito importante pra gente, pra dar força pra gente que era só militante, prós diretores do sindicato que estavam entrando na primeira gestão {…}. Então é uma história de detalhes que eu acho importante não perder porque sei lá daqui pra frente de repente morre isso (…).

Eu acho que, em hipótese alguma, a gente pode deixar de chamar os companheiros do Sindicato dos Metalúrgicos de S. Bernardo, Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que essa luta nasceu nessa base, os companheiros foram dessa diretoria, eu sei que há muita diferença, que há muita brigaiada por aí, a gente ouve falar mas é um absurdo que na recuperação de um momento tão importante como este onde todos nós estávamos unidos, brigando juntos, a gente deixa passar esse momento pra tentar falar juntos da mesma história. Em hipótese alguma, a gente pode deixar esquecer que nós estávamos juntos, apanhando da polícia, brigando contra a ditadura e que se a história pra frente mudou um pouco o curso disso, ela não pode mudar o sentido daquilo que já aconteceu. A gente não pode fazer como em alguns lugares que aconteceram aí, apagar a história e deixar companheiros que foram super-importantes aqui à margem. (…) e a mesma coisa a gente fala pro pessoal de S. Bernardo. Ouer dizer, essa história que dia 12 de maio vai ter uma comemoração da festa do sindicato, ninguém que está aqui pode faltar lá, tem que tá todo o mundo, a gente tem que estar unido nessa história. É muito importante isso.

Eu queria sugerir uma outra coisa até na linha do que o Gilson falou, eu acho que dado geral, situações gerais de greves, de conflitos, de palavras mais políticas, eu acho que a gente tem uma história muito bem contada. 0 que eu acho que falta é essa história miúda, da gente que estava vivendo naquela dia, quer dizer, a greve começou numa sexta-feira, numa quinta-feira eu e o Gilson fomos pro Sindicato, conversamos com o pessoal, o pessoal ficou meio surpreso; pra recuperar a lembrança de pessoas como o Severino (voz do Gilson: surpreso não, não acreditavam) (…) não acreditava, até ficaram brigando com a gente (…).

Então essa história miúda eu acho muito muito importante porque na verdade a gente fala sempre de grandes eventos e a história do detalhe de como aconteceu, que às vezes é muito importante, que nela ali está o germe daquilo que vai explodir, uma coisa grande, às vezes passa de lado, quer dizer, levantar como que a gente foi organizando a greve até chegar nessa sexta-feira, uma greve que começou numa sexta-feira e depois continuou numa segunda-feira com um fim-de-semana no meio quer dizer, {…) uma série de detalhes (…) não tinha lógica (…).

Eu esses dias estava conversando com o pessoal que era da Prensas Schuller (…) lembra do Melão e do Sacolinha? eu conversando com eles por telefone e eles (…) mas nessa época eles estavam na Prensas Schuller no dia que saiu a greve e o Melão e o Sacolinha (…) isso depoimento do Sacolinha, que hoje trabalha na CUT, falou “a gente estava em outra, não ligava pra esse negócio de greve, não tava nem aí”. E quando aconteceu a greve da Scania, eles ficaram tão atordoados que mudou a cabeça deles dum dia pra noite e hoje eles são pessoas que tiveram uma trajetória muito grande no movimento sindical, têm trajetória política, mas no dia da greve da Scania eles ficaram assustados porque nem podiam imaginar o que era aquilo. São pessoas que como eles, um exemplo, muitos outros despertaram pra luta e pro movimento por conta da greve da Scania.

Então eu acho importante levantar também a história dos companheiros da Scania, companheiros que fundaram vários movimentos por aí, o Fundo de Greve é um deles que teve a ver com essa coisa da solidariedade, a solidariedade das outras fábricas que pararam junto com a gente, na verdade, deram fôlego pro movimento que a gente não teve condições de segurar mas nesse momento a gente não fazia questão, “ah, nós vamos manter porque nós somos turrão”. Não, nossa força tem limite, nosso papel foi esse e a greve continuou e foi um grande movimento que depois em 80 culminou na maior greve até então de uma categoria com a greve de 41 dias.

(…) Agora eu acho importante, você era da primeira diretoria, você já estava liberado, já era da primeira diretoria, né? Ele teve um papel muito importante pra gente, pra dar força pra gente que era só militante, (…) diretores do sindicato (…) primeira gestão (…). Intercâmbio. Exatamente. Então é uma história de detalhes, que eu acho importante não perder porque (…)”

Grêmio da Scania
São Bernardo do Campo
29 de março de 1998

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2 respostas para Augusto Cássio Portugal Gomes

  1. rose marinho prado disse:

    Não fiz parte de sindicato ou lutas….Mas estive atenta a…

    Li este texto, por acaso, gostei bastante. Incisivo , coerente, forte.

  2. Alcione Domingues disse:

    Olá, gostaria de tornar a falar ou lembrar dessas coisas, fatos importantes,

    Um beijo

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