Alfredo José Ribeiro

“(…) na Scania, com o Gilson, e nessa época, aí eu estava à noite, trabalhando à noite. Quando eu cheguei, tava todo o mundo parado, a ordem que a gente tinha era ficar todo o mundo ao pé da máquina, quietinho. braço cruzado, igual como comentaram aí. Aí de repente, chegou lá o Ambrósio, gerente da empresa e falou “ó, vamos ligar as máquinas” (…), “eu não, você tá louco? E a hora que eu sair daqui, como é que fica minha cara lá fora? “Então, onde é que liga esse negócio aqui?” “Se vira, né?”. E ele foi lá e ligou a máquina. Ligou uma máquina, ligou outra, ligou três máquinas lá dentro da sala, tudo fechado, e foi lá pra fora e falou “o pessoal lá dos mandrilhadores tão trabalhando”, era duas pessoas, eu e mais um garoto jovem, eu era um pouquinho mais velho. Daí, os caras: “Mas, que trabalhando? Eu tô vendo um cara de braços cruzados” porque pelo vidro via, a máquina ligou, ligou a máquina, ligou a chave geral. Resumindo: a gente à noite era difícil porque eles ligava os motor, ligava teste de motor pra fazer barulho pra dizer que estava trabalhando e não deixava ninguém sair do setor. Aí, o pessoal: “não, a gente só vai trabalhar quando chegar uma ordem, nós queremos os nossos sindicalistas aqui dentro dizendo: a agora vamos trabalhar, vamos trabalhar, senão ninguém vai trabalhar”. Bom, resumindo: logo após as greves de 78, foi muito bom, a coisa pegou e foi aquela maravilha, a gente partiu por aí. Bom, logo uns dois, três meses depois, me mandaram embora até o Gilson ficou surpreso porque eu encarei o homem lá, fiquei (…) depois me mandaram embora.

Então agora, (…) quietinho (…) cruzar o braço (…) até a família disse: “não se mete mais em greve, você perdeu um bom emprego por causa de greve”. Aí fui pra KS Pistões . Aí chega lá, greve de 80, greve de novo, vamos lá! E saí fazendo arrecadação de fundo de greve. Aí aquela companheirada, aquela luta, aquele negócio todo, quando tava já aquele pique lá de 30 dias já de greve, clima difícil, (…), a gente correndo da polícia lá na igreja de São Bernardo, correndo.passando debaixo da saia do padre. Bom, resumindo: nós saímos com alguns companheiros arrecadando alimentos e houve uma briga de grevistas contra fura-greve, que tinha uns caras já furando greve lá numa empresa; e nessa daí, saiu a pancadaria lá, eu socorri um companheiro que tava lá dentro (…) com a gente no fundo de greve, e nessa daí saíram vasculhando quem é os caras que tava (…) e veio a polícia me buscar. Os caras vieram me buscar em casa. Quando eu cheguei no DOPS, quem que eu encontrei lá: primeira pessoa parede e meia, Gilson, Alemão, Lula, Cicote, olha, tinha 17 sindicalistas, aí nós ficamos parede e meia, nós ficamos em 4, parede e meia, aí tinha um buraco, uma rachadura assim na parede da cela, ali era por onde a gente se comunicava. A comida, não dava pra comer a comida dali, era péssima, aí “Ô, Gilson, pelo amor de Deus, vai falar com os caras, tá vindo comida pra vocês aí de fora?”, “Tá, nós vamos mandar comida pra vocês”. Aí começaram a mandar comida pra nós lá. E foi por aí afora.

É o que o Valdo falou: é um pouco de loucura? Mas não é, é o sangue que corre na veia. Brigamos, começamos aqui na Scania, comecei aqui nessa luta da Scania, depois passei por essa passagem lá na KS Pistões, não fui mandado embora, continuei trabalhando, continuamos tendo greve, o Martinha se lembra muito bem, teve uma época que nós fizemos uma greve na KS Pistões, tomamos conta da fábrica, ficamos 11 dias morando lá dentro, não ia mais embora, de dia e de noite direto, 24 horas, inclusive mulheres.

Eu continuei trabalhando na mesma empresa. Depois essa empresa mudou lá pra Nova Odessa, pra lá de Campinas, eu fui pra lá, me enfiei no meio do Sindicato de Campinas de novo, fiquei mais 6 anos lá e foi por aí afora. E consegui aposentar lá na luta e nunca parei porque, veja bem, acho que a gente tem essa loucura, mas tem sangue na veia mesmo, e é a necessidade e eu acho que nós (…).

E hoje eu fico até emocionado de tá vendo os depoimentos do pessoal aí e estar vendo esse pessoal (…) que conhece (…) inclusive na época quando eu fui preso lá o Marcílio, que era o presidente do Sindicato, na greve de 80, quando nós voltamos da cadeia, ficamos procurando o Marcílio, o Marcílio já tinha sumido também porque os caras estavam na cola dele, e não achava o Marcílio também, eu sei que a igreja nos ajudou e aquela coisa toda, igual acabaram de contar, a gente não tem condições, eu sei que a igreja ajudou, todo o mundo ajudou e nós (…). E foi muito bom. E eu não podia deixar de dar meu depoimento até porque quando fala que as greves começou em 78 na Scania, que a gente estava bem organizado e não era à toa porque na hora do almoço o Gilson subia em cima da mesa, subia em cima da mesa, antes de começar a greve, subia em cima da mesa na hora do almoço e fazia discurso e (…) parou foi a mesma coisa de apertar um botão, desligou tudo (…) daí começou tudo.

Daí partiu pra essa luta que até hoje a gente sabe muito bem da história toda que houve, tivemos prejuízo, um determinado prejuízo? Tivemos. Levamos porrada? Levamos. Mas valeu a pena. Se tivesse que voltar, começar tudo de novo, eu voltaria e começaria tudo de novo.”

Grêmio da Scania
São Bernardo do Campo
29 de março de 1998

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