A CUT nasceu no coração dos trabalhadores, morreu no colo dos patrões e está apodrecendo no governo capitalista de Lula

Depoimento de Valderi Antão Ruviaro (Valdo)
Projeto: Preservação da Memória dos Trabalhadores do ABC
Data: 25 de maio de 2001

P. Então, Valdo, a gente vai tentar falar um pouco sobre o ENTOES de 1980. O quê você poderia contribuir pra gente?
R. Bom, eu poderia dizer que antes do ENTOES, teve dois movimentos importantes que não podem ser esquecidos porque são os que vão se encontrar no ENTOES. O primeiro é aquilo que foi chamado na época de EOS – Encontro de Oposições Sindicais, e quem liderava isso era a Oposição Metalúrgica de São Paulo – MOMSP. Houve portanto este primeiro encontro antes do ENTOES que foi o resultado, inclusive, uma decisão da Oposição Metalúrgica de São Paulo a partir de seu Congresso, que ampliou para outras oposições em geral, não juntou muita gente, mas juntou várias oposições da cidade e do campo. Depois do EOS, isso é importante porque era um dos veios fundamentais na época dentro do sindicalismo, eu diria até anterior ao sindicalismo chamado autentico após São Bernardo. As oposições sindicais surgiram antes do que o sindicato chamado autêntico, combativo, que basicamente puxou… São Bernardo do Campo, depois Santo André. Depois do EOS, antes de chegar no Entoes, nós tivemos outro acontecimento muito importante chamado ENOS – Encontro Nacional de Oposições Sindicais. A partir da Oposição Metalúrgica de São Paulo, a partir do primeiro encontro de oposições, se fez o ENOS, ampliou portanto uma articulação de oposições do campo e da cidade, de diversas categorias. Isso teve uma importância muito grande, foi determinante na formação da CUT, aliás, até hoje em termos de oposição. Com base nisso, as oposições sindicais num encontro muito significativo, chamou a atenção tanto dos sindicatos mais combativos quanto dos sindicatos mais pelegos, que o pessoal chamado reformista na época, o PCezão, PCdoB e MR8, a gente chamava eles de bloco reformista, e mesmo os pelegos, que aqui em São Paulo na época o líder era o Joaquinzão, eles começaram a ficar assustados, porque isso ia penetrando em todos sindicatos pelegos e os sindicatos iam sendo tomados, essa era a projeção pra que os pelegos… Então, eles quiseram de alguma maneira tentar entrar nesse movimento de oposições, pra poder garantir um certo controle. Então, depois do ENOS veio o ENTOES, aliás o nome mudou e o nome tem um significado político – Encontro Nacional em Oposição à Estrutura Sindical -, quer dizer, só o nome já teve uma puta discussão, que o pessoal do ENOS não queria aceitar porque era uma maneira de driblar o problema, incorporar mais gente numa concepção de unidade que o PCdoB especialmente batalhava, que a pelegada achava que de fato não podíamos fazer encontros paralelos. Enfim, essa discussão tinha rolado na época. Mas o ENTOES foi feito, onde de fato participou uma parcela mais ampla, além das oposições que eram do EOS e do ENOS. Participou o pessoal chamado reformistas.

P. Onde foi?
R. Foi no Rio de Janeiro, se não me falha. Que aliás não teve um grande sucesso, no âmbito político, o ENTOES, ele foi, na minha avaliação, foi uma espécie de aborto daquilo que os reformistas e os pelegos queriam na época. Porque no fundo o objetivo deles era tentar articular o movimento de oposições e tentar apagá-las, e de fato a participação foi relativamente boa, mas em termos políticos ele morreu nele mesmo. A partir daí de fato se retomou a perspectiva anterior do ENTOES, e aí partiu-se para dois desdobramentos que é o que ficou valendo mesmo daí pra frente, antes de chegar na questão do CONCLAT 81. A partir do ENTOES, que foi uma tentativa de unificação mal arrumada, não se conseguiu unificar nela, cada bloco foi lá tentar defender algum posicionamento, não teve, eu acho, uma importância política muito grande; a partir daí de fato se cristalizaram duas posições antes do congresso de 81, que foram a ANAMPOS e a Unidade Sindical. O que o ENTOES não conseguiu, daí pra frente de fato, estes dois caminhos é que foram se consolidando. Por um lado a Unidade Sindical, ela juntava quem? Estava todo pessoal da estrutura sindical fascista que nós conhecemos bá, bá e assim por diante. Quem estava dentro da Unidade Sindical, liderada fundamentalmente pelo pessoal chamado na época de reformistas, que era o pessoal do PCzão, PCdoB e MR8, juntavam-se todas as Confederações e Federações e os pelegos em geral. Por isso é que teve um livrinho, que nós chamamos depois quais são as duas grandes diferenças, que foi importante naquela época, os dois grupos que se… no movimento sindical, nós denominamos o Bloco Pelego-reformista, essa foi a marca, na época era pelego-reformista, que é toda uma avaliação em cima disso, manter a estrutura sindical, manter o controle sobre as federações, confederações. Por outro lado se criou um outro bloco, esse era bloco mesmo, esse foi consolidado, aliás eu fui um dos primeiros a sistematizar essa questão, a polemizar, de fato foi polêmica desde o começo. A teoria do blocos do Valdo. O segundo bloco juntou também duas alas que nunca se confrontaram, mas que trabalharam com diferenciações, que foram as oposições sindicais, que era resultado do EOS e do ENOS e ENTOES e os sindicatos chamados combativos autênticos, que eram. na época, fundamentalmente, São Bernardo do Campo e Bancários de Porto Alegre, do Olívio Dutra, aliás, primeiro o Olívio Dutra, o primeiro sindicato combativo não foi São Bernardo, foram os Bancários de Porto Alegre. Mas se juntou aí, os sindicatos combativos, que na época já estavam avançando, sendo tomados das mãos dos pelegos, o termo, o conceito era Sindicatos Autênticos. Mas, autênticos e combativos tinha a mesma conceituação. Mas no bloco chamado combativo se juntaram, portanto, as oposições do campo e da cidade e os sindicatos na época combativos. Na época não tinha só sindicatos, tinha duas Federações no campo que já tinham sido tomadas pelos combativos, aliás três, uma da cidade e duas do campo. A Federação do Espírito Santo, que foi a primeira no Brasil que conseguiu se livrar da CONTAG, que era pelega pra caramba na época, e um pouco mais tarde a Federação do Pará, e a Federação dos Comerciários, por incrível que pareça, porque no Brasil os comerciários sempre foram uma das categorias mais atrasadas do ângulo sindical e político, foram os comerciários de Santa Catarina. Que juntou vários sindicatos, eram as duas federações que participaram inclusive deste bloco da ANAMPOS.

P. ANAMPOS: o que significa?
R. A ANAMPOS era a Articulação Nacional dos Movimentos Sindicais e Populares, aliás tem uma característica interessante. Não era só do movimento sindical, a ANAMPOS começou a ser criada no Encontro em Monlevade em 1980, depois teve o Encontro de São Bernardo, depois teve o Encontro em São Paulo. Já era uma tentativa de aglutinar numa organização não apenas sindical, mas que extrapolava os limites sindicais. O nome aliás era bem revelador, ele queria tentar articular os movimentos sindicais e populares. O pessoal até brincava: “vamos mudar o nome, ANAMPOS parece nome de remédio”. Mas todo mundo conhecia a ANAMPOS e ficou até o final. Depois mais tarde o movimento sindical caminhou para um lado, tinha o setor sindical e o setor popular. Depois da fundação da CUT, os dois movimentos caminharam com autonomia. Bom, antes da CUT tem todo esse quadro que é bem interessante. Tem esse caderno que dava na época a diferença entre os dois blocos, e a gente tentou caracterizar em sete ou oito pontos as diferenças entre o bloco pelego/reformista e o bloco combativo/autêntico, e que vem embora por muito tempo, até pós-CUT. Bom, sobre o EOS, ENOS, ANAMPOS, o que a gente pode dizer basicamente é isso.

P. Entra na CONCLAT 81, então. Como foi? Tinha este movimento de oposição…
R. Em 81, eu poderia dizer o seguinte: foi o primeiro conflito, o primeiro confronto entre essas duas posições do movimento sindical no Brasil. Foi o primeiro confronto institucionalizado e ilegal, porque na época não era permitido. Mas juntou o chamado bloco combativo e o bloco pelego/reformista. Dos cinco mil delegados, praticamente a plenária final, que não teve muita solução, foi uma amostra de fato do que era o sindicalismo naquele momento.

P. Tinha cinco mil?
R. Tinha cinco mil delegados em 81. E dividiu a plenária final – quando se tratou de definir a direção, saíram duas chapas, uma ligada ao Lula e outra ao Joaquinzão, e cada uma era resultado dos blocos que já vinham rolando desde 78, 79, 80 e assim por diante. Aquele foi o momento do resultado de um confronto entre duas posições do movimento sindical brasileiro. Isso tanto nas teses, mas especialmente no momento que estava se discutindo quem era que ia dirigir, que era uma comissão nacional, alguma coisa assim… Então a CONCLAT 81 foi uma conferência…. ela teve origem, teve alguns antecedentes… Teve uma Conferência da classe patronal, em 79 se não me engano, e as federações e confederações reivindicaram que, assim como os patrões podiam se articular a nível nacional, os trabalhadores também poderiam se articular, portanto, reivindicaram que se permitisse na época da ditadura uma conferência, um congresso de trabalhadores, aí a ditadura – na época o ministro era o Murilo Macedo. Não, não era o Murilo Macedo, me lembro depois, ele falou: “Se vocês quiserem, vocês podem fazer uma conferência, um congresso, mas na medida que esteja sob o controle das confederações”, que eram pelegas, portanto o ministro ficava tranqüilo porque era uma conferência totalmente aceitável. É evidente que não avançou, a idéia morreu, ela morreu no berço praticamente. Essa idéia só foi retomada lá diante em 81, em fevereiro de 81, numa reunião em São Bernardo, houve uma grande movimentação, foi chamada, chegou-se a um consenso, de chamar uma conferência de trabalhadores. Nesta reunião tinha tanto os pelegos como o bloco combativo. E se chamou esta conferência para 81. Se tirou uma comissão e conseguiu se chegar a 81. Então se chamou tanto os sindicatos, como as associações pré-sindicais, funcionários públicos e oposições, o próprio pelego/reformista tinha muitas restrições a isso. Eles não queriam porque senão perderiam por causa desse bloco. Então se chamou sindicatos, associações pré-sindicais e no congresso se permitiu que entrassem algumas delegações de oposição sindical. A grande liderança da época, do lado dos pelegos, era o Joaquinzão, do Sindicato do Metalúrgicos, da CONTAG era o Zé Francisco, dos bancários do Rio de Janeiro, do PC, não lembro o nome dele, e do bloco combativo, quem liderava esse movimento todo do lado dos sindicatos, mesmo que tivesse havido intervenção, eram o Lula, Olívio Dutra, Jacó Bittar e no caso aqui era o Valdemar Rossi, que era liderança de oposição sindical. No campo já tinham começado a surgir algumas mudanças, no Pará, enquanto oposição. Então o CONCLAT 81, eu diria que de fato ele foi o primeiro confronto dessas duas posições, que evidenciou claramente no momento de se tirar uma direção, cada um apresentou sua chapa, eu lembro muito bem a imagem, eu estava na mesa assessorando, os pelegos perceberam que estavam perdendo na plenária, se fosse por voto secreto… iam perder, aí não sei se ia pela proporcionalidade ou não, ia ser toda essa discussão, quem seria o cabeça ou não, eu sei que teve um tumulto sério, houve uma interrupção, houve vários cortes de energia, premeditado, corte no microfone, e foi duro segurar a plenária. Acho que quem estava dirigindo a plenária era o Jorge Bittar, do Rio, que era do nosso bloco, mas tinha um certo trânsito no bloco dos reformistas, mas eu sei que parou-se o congresso durante mais de uma hora, aí teve uma coisa bem folclórica, bem interessante. Ficou decidido o seguinte: os dois blocos, as duas chapas, discutem e decidem uma direção unitária, aí foi engraçado porque o prédio estava em construção, era da Construção Civil, eu acho. O único local que encontraram para se reunir foram os banheiros. Eu sempre digo o seguinte: foi a primeira merda que se construiu no Brasil, no movimento sindical, porque se tirou uma chapa unificada, que não unificou absolutamente nada. E o conchavo foi feito no banheiro mesmo. E o pior foi que na avaliação posterior que nós fizemos deste CONCLAT foi que os pelegos reformistas escolheram x nomes, nós x nomes, e nós acabamos saindo em minoria na direção. Bem, o objetivo básico deste CONCLAT 81 foram duas coisas, resoluções, primeiro foi um plano de lutas e segundo tiramos uma Comissão Nacional Provisória. Eu poderia avaliar o seguinte: o plano de lutas, e em 82 haveria um congresso nacional, o congresso de fundação da CUT, que era algo irreversível, que o bloco reformista não queria, mas tiveram que engolir porque saiu esta resolução, eles perderam totalmente, não havia como defender o contrário. Então tirou-se o plano de luta, a data do congresso para fundação da CUT em 82 e uma direção chamada unificada, mas que não era unificada. Do plano de luta de e da direção, dá pra se dizer que de 81 e 82 se avançou pouquíssimo, basta ver que o congresso de 82 não foi realizado, a direção hegemônica era dos pelegos e reformistas, eles adiaram o congresso para 83, alegando que em 82 teriam eleições gerais e que dividiria o movimento sindical e portanto não era oportuno fazer o congresso em 82. Mas o objetivo básico não era esse, era que se protelasse, se jogasse para frente, porque em se jogando para frente, retardaríamos a criação da CUT que eles não queriam, esse foi o argumento político da… 82 rolou, e aí veio o congresso da fundação em 83.

P. Vamos entrar no Congresso de 83.
R. É claro que aí os dois blocos trabalharam separadamente, desde 82 a Unidade Sindical trabalhou de um jeito, nas federações, confederações, sindicatos, batalhando para levar os delegados para 83. E nós, da ANAMPOS, batalhamos, fizemos articulação a nível nacional, um esforço enorme, porque não tínhamos sindicatos, só alguns sindicatos e oposições sindicais, em termos políticos era uma força muito grande, de base, em termos de infra-estrutura era muito ruim. Eles tinham tudo, eles tinham a máquina das confederações, federações e grandes sindicatos. Então foi uma batalha o ano todo de 1982/83 para chegar ao congresso da CUT. Em maio de 83, se fez uma reunião, eu escolhi o local nesta ocasião, levei o pessoal lá pro mato, num colégio, para fazer a reunião, levou todo mundo, porque a comissão era junto…

P. Em São Paulo mesmo?
R. Foi em São Paulo. A reunião onde se tirou um jornal da Pró-CUT, onde se decidiu, basicamente, confirmar o congresso nacional em agosto de 83 e publicação das duas propostas de estatutos. Tinha a proposta da Unidade Sindical, não se chegou a um acordo, inclusive tem um aspecto pouco revelado, os bancários tinham uma proposta, o Gushiken, Gilmar, o Augusto, tinham uma proposta para sair unificado, para que se saísse só uma proposta de estatuto. Nós, da ANAMPOS, os bancários participavam da ANAMPOS, a maioria da ANAMPOS não concordou, e nessa reunião saíram duas propostas e a decisão de se publicar as duas propostas. Quem assinou foi São Bernardo e Bancários e a outra foi a Pró-CUT. Saiu o jornal com as propostas e convocando o congresso. Isso em maio. Quando chegou em julho, nós estávamos nos preparando, todas as delegações estavam preparadas, no campo, na cidade, as oposições, e assim por diante… Quando chegou em julho, o bloco reformista e pelego deu um golpe, e o golpe foi o seguinte: a reunião foi no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Eles reuniram a comissão, convidaram as confederações, que não estavam na comissão que foi tirada em 81, mas eles convidaram, e na reunião eles destituíram a direção da Pró-CUT, se não me engano foi em 9 de julho, em cima do congresso, o congresso foi convocado para 28 de agosto. Destituíram a Pró-CUT e adiaram o congresso, passaram por cima de duas deliberações fundamentais da Conferência de 81, destituição da direção e adiamento do congresso. Eu estava lá, o pessoal não permitiu que eu entrasse, eu era o assessor, eu fui assessor da ANAMPOS, as três grandes figuras da época eram o Lula, Jacó, Olívio Dutra, João Paulo Pires, de Monlevade, e o Avelino Ganzer, e eu era o assessor nessa época destes capas-pretas. Nesta reunião eu fui proibido de participar, fiquei lá aguardando, e, uma imagem interessante, foi como uma mãe dando um parto, que de lá sairia a decisão de se fazer ou não o congresso. E eu fiquei umas quatro horas sentado na porta, e o pessoal vinha me consultar: “Valdo, tá acontecendo isso lá dentro, o que você acha?” E íamos discutindo. Estavam lá o Paim, Jair, Jacó, o Lula não estava, mas estava o nosso bloco lá representado. Então o golpe foi esse: adiar o congresso para o final do ano e ao mesmo tempo a deposição da direção. Daí o nosso pessoal criou vergonha na cara, eu já tinha esta tese há tempo, que nós tínhamos independentemente da decisão, que nós realizássemos o congresso. E assim foi. Quando os pelegos tomaram esta decisão, Jair, Paim, Jacó, enfim, o nosso bloco falou o seguinte: “A partir deste momento nós deixamos a Pró-CUT porque ela não existe mais, não concordamos com estas decisões que estão aqui, e nós vamos sair para manter as decisões do congresso”. Descemos a escadaria, até veio o pessoal do PCdo B e falou: “Pelo amor de Deus não rache o movimento.” Falamos: “Não tem retorno.” Saímos de lá, eram uns dez caras no máximo, e nos reunimos naquela noite mesmo no Sindicato do Químicos, que tinha sido tomado por uma oposição, estavam lá há pouco tempo, e escrevemos a carta de confirmação do congresso, e a partir daí começou a se organizar o congresso. Os pelegos em geral achavam que nós não teríamos fôlego. Eles eram maioria. E saiu nos jornais que o congresso tinha sido adiado. E aí veio aquela chuva de telefonemas, foi adiado? foi, não foi… e a nossa confirmação era a seguinte: “O congresso vaí existir”. Em agosto teve uma plenária na tentativa para ver se convoca ou não convoca o congresso, foi no sindicato do Joaquinzão. E um dos argumentos que eles usavam era que não tinha infra-estrutura para realizar o congresso, que a classe trabalhadora não estava preparada para um congresso nacional. Aí eu me lembro que houve intervenção em cinco sindicatos. Petroleiros, em primeiro, Mataripe, depois veio São Bernardo, Bancários e Metroviários. Aí então foi uma bomba, imagine nós tentando bancar um congresso nacional, e uma intervenção em cima disso. E a intervenção foi por conta de uma greve geral, que os pelegos não queriam de jeito nenhum em julho. Os petroleiros puxaram a greve, nós estávamos no Congresso dos Metalúrgicos de São Bernardo em Piracicaba. Saímos de lá e fomos direto para Campinas dar todo apoio à greve que havia começado. Voltamos para São Bernardo, era para continuar o congresso na semana seguinte, não houve a continuidade, porque estourou a greve, no dia seguinte a direção convocou a greve, aí a intervenção veio em cascata. Mas a greve saiu, a estimativa é que três milhões de trabalhadores aderiram à greve. E os pelegos dizendo que não, porque foi convocada, havia um certo movimento de massa, a greve saiu e isso deu muita força para se bancar o próprio congresso, e nos preparamos para isso. Teve uma plenária no inicio de agosto que foi uma tentativa de encontrar uma saída unificada, ficou de bolar dois projetos para a viabilização do congresso, que eles achavam que não tinha condições financeiras, estrutura… Então São Bernardo, Bancários, nós da ANAMPOS, preparamos uma proposta de infra-estrutura, pensamos em tudo, alimentação, colchonetes, locais, dinheiro, transporte, segurança, enfim, tudo que era possível. Foi um documento de mais de 150 páginas. Apresentamos, distribuímos o documento, e também conseguimos do prefeito, Aron Galante, de São Bernardo, uma carta em que ele se comprometia, contra o Montoro, e escreveu na carta: “Eu banco o local, no Vera Cruz”, e a gente chegou e leu a carta nesta plenária. A primeira coisa é desmantelar o argumento que não temos local para fazer o congresso. Então o Jair falou, Valdo vai lá e explica…

P. Você estava com o Bargas fazendo um mapa…
R. Nesta plenária nacional nós queríamos quebrar dois argumentos básicos, eles argumentavam um só, mas nós sabíamos que não esse, o argumento era político, eles não queriam a fundação da CUT. Eles diziam que não tinha infra-estrutura, e nós queríamos quebrar este argumento para desmascarar. E foi exatamente o que aconteceu nesta plenária. A gente chegou com tudo detalhado, um puta dum mapa de três metros, eu fui de botas, com um puta espeto gaúcho, eu fui explicando, na mesa estava inclusive o Almir Pazzianoto. A Confederação quis me cortar a palavra porque eles perceberam que de fato… Inicialmente nós lemos a carta do Aron, dizendo portanto: “olha o local já esta garantido”. E aí detalhamos tudo, tanto que o pessoal dizia: “puta merda, o pessoal está organizado mesmo”. Nós calculamos inclusive o seguinte, se houvesse um incêndio no Vera Cruz, em quantos minutos nós tiraríamos os cinco mil delegados de lá. Fizemos isso, consultamos bombeiros, as portas eram… na melhor das hipóteses, em três minutos nós conseguiríamos tirar os cinco mil delegados de lá. Foi uma preocupação com os mínimos detalhes. Queriam nos pegar. “Tem banheiro lá? Tem.” Nós provamos que tinha banheiro pra todo mundo. Mas faltava colchonete? Os colchonetes já estão garantidos. Então foi um projeto completo mesmo, nós tapamos todos os possíveis buracos. Quando eles perceberam isso… primeiro que tinha uma carta do prefeito bancando, portanto estava sacramentado, segundo que tinha todos os locais definidos. Aí então veio à tona o grande argumento: “que não era possível, hoje há um grande embate de duas posições…” Naquele dia, foi outra bomba que nós jogamos, foi distribuído este caderninho aqui, com duas propostas de diferenças do movimento sindical, proposta 1 e 2, que foi uma análise do estatuto. A proposta 1 que era do bloco pelego/reformista e a proposta 2… esta também foi uma bomba, que o pessoal caiu matando em cima, dizendo que nós queríamos dividir o movimento sindical, que se fosse realizado o congresso, necessariamente se dividiria o movimento sindical. Eles começaram a bater nesta tecla, porque não tinha mais o argumento da infra-estrutura. Então ai, de fato, começou uma discussão política em relação a isso. Mas eles mantiveram o adiamento, estas coisas todas… E aí a gente bancou o Congresso da CUT. Eles tentaram 15 dias antes fazer uma campanha nacional e internacional, porque as Centrais Sindicais já estavam convocadas para o Congresso, nós tivemos que rebater e reconfirmar o congresso a nível nacional. E as delegações que nos perguntavam, tinha gente do Acre, do Pará, que vinham de ônibus, demoravam uma semana, já tinham contratado ônibus, e perguntavam: “o congresso sai ou não sai?”, isso 15 dias antes, quando a pelegada fez a campanha de desconfirmação. Montamos um comitê central nos Químicos, onde se articulou tudo. Aliás tem coisas folclóricas, porque minha casa… eu morava em Santo André nesta época, construímos uma casa, a Yara e eu. Em 80 foi interessante, a casa, um sobradinho, em maio de 80 a gente ia entrar, mas a primeira coisa que entrou lá não fomos nós, foram 30 mil boletins da greve de 80, a casa serviu como depósito do material. Então o comitê, a ANAMPOS se reuniu lá varias vezes. Mas o que eu queria contar é o seguinte, eu mesmo dormia, como era o assessor, isso desde 81, depois da cassação em São Bernardo, infra-estrutura praticamente nós não tínhamos, então minha casa e o telefone, ele foi o telefone certamente mais usado e abusado. A tal ponto que eu, por exemplo, tinha um hallzinho, e todos os telefonemas de articulação eu marcava depois de meia-noite, porque era mais barato, as contas vinham altíssimas. Da meia-noite às quatro da manhã atendia todos telefonemas de articulação nacional, o pessoal me ligava a cobrar, e a gente liberou mesmo. “Valdo, não tem jeito, depois a gente acerta” e dois anos depois a gente acertou algumas contas. Eu arrastava o colchão para perto do telefone, e atendia deitado, dormindo, acordado…. Então esta articulação foi assim… Em 83, a gente bancou e foi realizado o congresso, o grande chamado foi o seguinte: “vai ter congresso”. Num certo momento teve um problema sério que a gente achou que ia acontecer, teve um zum-zum, não me lembro a data, dez ou quinze de agosto, que o exército, aqui em São Paulo, estaria pensando em desmobilizar o congresso, fazer uma intervenção militar para inviabilizar o congresso, e que as delegações não chegassem. Eu sei que foi objeto de discussão numa reunião da comissão organizadora do congresso. Como foi um zum-zum, a gente não sabia se ia acontecer ou não, mas como era uma conjuntura de ditadura a gente achava que podia acontecer, serem barradas, por exemplo, as delegações que vinham de ônibus, era só pegar três ou quatro grandes vias nacionais. Em uma reunião nós discutimos isso, que se ocorresse, isso não está escrito em lugar nenhum, são coisas que a gente lembra, a palavra de ordem seria esta: onde os ônibus fossem brecados, o pessoal tentaria, seja no mato, na rua, dentro do ônibus, onde for, realizar o congresso. O pessoal sabia qual era a pauta, o que discutir, como tirar a direção, realizaria o congresso, e depois mandaria as resoluções de onde foi feito. Nós estávamos preparados portanto para o que der e vier, então não tinha como brecar o congresso, nós já tínhamos este expediente. No congresso nacional, os pelegos apostaram que não tínhamos infra-estrutura, só que nós já estávamos nos preparando há mais de dois anos mais ou menos, eu mesmo viajei com o Jacó Bittar, pela ANAMPOS, fizemos vários contatos internacionais, na Europa, para articular, não só com centrais sindicais, mas com ONGs, para que elas bancassem uma parte deste movimento, da ANAMPOS, e a criação da CUT. Então, em infra-estrutura nós tínhamos condições, com o dinheiro de cada categoria, dinheiro que fosse arrecadado em show, foram feito dezenas, milhares de show, arrecadação de fundos. Então nós estávamos em condições financeiras de bancar um congresso de miséria, com um colchonete de 3mm, e uma marmita por dia garantida. Foi realizado, participaram mais de mil delegações, oposições sindicais, funcionários públicos que não tinham sindicatos, porque era proibido, tinham associações, sindicatos rurais e urbanos, de norte a sul do país, foram em torno de cinco mil delegados. Foram tiradas daí quatro resoluções fundamentais; primeira, fundação da CUT, foi a primeira votação, segunda, aprovação do estatuto da CUT, terceira, plano de lutas, que foi discutido três dias, e quarta, uma direção. E foi tirada uma quinta, que depois não deu muito certo, que foi a greve geral.

P. Esta direção era provisória?
R. De fato houve uma polêmica em relação à direção. Houve uma divisão interna, um debate interno, se seria uma direção definitiva ou não. Tinha uma ala que queria uma direção definitiva, com presidente, secretário, e outros que achavam que tinha que ser uma coordenação, um colegiado. Teve todo um debate, o congresso até parou meia-hora. E chegou-se ao seguinte consenso: que se tiraria um colegiado, que dirigiria a CUT, com representantes de todos os estados, com 85 membros na direção nacional, 15 na executiva, e sete da coordenação com um coordenador geral. Então saiu o que na época nós chamamos de uma Direção Colegiada, uma coordenação, e o Jair Meneguelli foi o primeiro coordenador. Então estas cinco coisas foram fundamentais, a fundação da CUT, por unanimidade, aliás não foi, teve delegações do PcdoB, que participou do congresso, foi lá e votou contra, foram cinco votos contra cinco mil e não sei quantos.

P. Você se lembra de que setores eram?
R. Eram da saúde, daqui, me lembro até os nomes, não vou citar os nomes aqui, me lembro dos braços levantados, era o pessoal que até hoje está no PCdo B, eles estavam no outro bloco, mas uma categoria decidiu participar mas foram contra a fundação da CUT. Então foi o plano de lutas, o estatuto, a direção e a greve geral, cinco coisas determinantes neste congresso. Evidente que o fato fundamental, naquele momento, era a fundação da CUT. Eu acho que a fundação da CUT teve importância política em dois níveis, eu diria quase visualizando uma luta de boxe, ela deu duas porradas em duas coisas. A primeira porrada foi na ditadura, porque era proibido, foi um congresso ilegal, que nós tivemos coragem, a classe trabalhadora teve coragem de bancar a ilegalidade. Isso politicamente teve uma importância enorme. E segundo uma porrada no bloco que não queria a fundação da CUT. E a partir daí a gente abriu a brecha, agora não tem mais quem nos segure, todo mundo saiu de lá com esta convicção. Aliás tem um dado interessante, que pouquíssima gente lembra, porque tinha tarefas enormes, eu mesmo, era assessor político, ao mesmo tempo era o cara que ia ao cartório fazer…, ia ao correio, dirigiria meu fusquinha, enfim, cada um se desdobrava em mil coisas ao mesmo tempo. Então eu me lembro do primeiro jornal da CUT, depois da fundação, eu fiquei incumbido pela coordenação pensar… a decisão política foi a seguinte: vai sair com todas as resoluções. E o pessoal falou: “vem cá, quantos nós vamos tirar?”. A tiragem, uma coisa histórica isso, pouca gente lembra. O pessoal falou: “nós temos que tirar um grande número”. A minha opinião naquela época foi: “nós temos que forrar os dez mil sindicatos, espalhar…” “Então vamos tirar quanto? 20 mil, 50 mil?” “Eu falei, gente, temos que tirar de 200 mil pra frente, ser ousado mesmo!” “Você esta louco! 200 mil, como vamos bancar?” “Pode deixar que a gente…” tinha sobrado dinheiro, ninguém sabia, só sabia a direção. Nós tínhamos conseguido arrecadar em nível de solidariedade nacional e internacional, que nós podíamos bancar inclusive isso. Isso foi um problema, porque quem foi fazer disse: “puxa, vocês tem dinheiro pra pagar isso?” Então a decisão foi tirar 250 mil exemplares, a tiragem de um Estadão, de uma Folha de São Paulo, e foi feito na gráfica do Diário do Grande ABC. O pessoal queria uma garantia, porque era um dinheiraço, e quem bancou, assinou a nota fiscal, foi o Agenor, que era presidente do Sindicato, que já tinha sido tomado, aliás a primeira sede da CUT foi numa casinha ao lado do Sindicato dos Químicos, os químicos cederam, já saímos com sede, direção. No dia seguinte já estávamos instalados, e a primeira reunião foi nesta semana mesmo. Foram 250 mil exemplares de 32 páginas, veio uma jamanta, não coube lá. Eu tive que fazer matéria de capa e contra-capa, teve um jornalista, não me lembro o nome do companheiro, que ajudou, levamos uns 15 dias para fazer isso. E nós ficamos três meses distribuindo o jornal, porque tinha que divulgar as decisões, porque elas tinham que chegar lá na puta que pariu, tinha que chegar, em todo Brasil e a nível internacional, que a CUT tinha sido fundada, e o jornal era um instrumento de trabalho, não tínhamos nada, não tínhamos televisão, não tínhamos rádio, telefone, era tudo contra nós, grande imprensa. Deu notícia que a CUT tinha sido fundada mas com estremecimentos… Dia 20 de setembro mais ou menos estava saindo o jornal, demoramos outubro, novembro, dezembro para distribuir, juntamos uma equipe de distribuição, porque, veja bem, era um jornal ilegal, e se for preso o jornal, como é que fica? Então nós tínhamos que montar um esquema de segurança para isso. Então a distribuição era para as CUTs Estaduais, Regionais, Sindicatos e Oposições sindicais, tínhamos todos os endereços, vínhamos trabalhando desde 80, portanto três anos de experiência. Nas reuniões, plenárias, tinha pacote de mil exemplares, via Itapemirim, empacotava de tal maneira que ninguém descobrisse que aquilo era jornal. E tínhamos que tomar cuidado, porque sabíamos que esse jornal ia parar na garagem x, que ia chover, tudo isso nós tínhamos que maquinar. Então o jornal tinha que chegar pelo menos legível, teve região que chegou depois de um mês, mas chegou jornal em todo canto. A estratégia foi a seguinte: não poupar nenhum sindicato, mesmo pelego, mandamos para os oito mil sindicatos que existiam na época. Iam três exemplares cada envelope, para o cara não esconder. Montamos uma equipe que passou dois meses envelopando. E não distribuímos só num correio, em cada dia num correio diferente, porque naquela época era isso. Esses 200 mil exemplares, eu sempre dou o exemplo, hoje tem mídia, na época foi a mídia.

P. Isso foi logo depois da fundação?
R. Três meses depois, até dezembro ficamos distribuindo material. Para sindicatos, oposições, associações, sindicatos pelegos, federações, confederações, políticos, partidos políticos, ONGs, que tinham pelo menos 400 ou 500 no Brasil, centrais sindicais internacionais, ONGs internacionais, personalidades, toda Igreja, enfim, mandamos para todo setor.

P. Já estava fechada a data do 1º CONCUT, estava sendo divulgada neste jornal que seria no ano seguinte?
R. No congresso, foi uma das resoluções que o 1º CONCUT seria em agosto de 1984.

P. Então já tinha neste jornal?
R. Já. Foi uma das resoluções. Mas diante destas cinco resoluções, era uma decorrência. Então foi uma grande batalha, uma grande luta, a greve geral que era dia 25 de outubro de 83, ela não saiu, porque foi contra um decreto Lei 2045 de arrocho salarial, não tivemos condições de fazer a greve geral. Era tão grande a dificuldade de articular a nível nacional que teve Estados que dois dias antes, até porque o governo voltou atrás, aliás foi uma vitória, mas teve Estado que fez a greve geral, porque não recebeu a informação que tinha sido cancelada a greve. E o pessoal que quis fazer o movimento, quis manter, a direção mesmo que tudo bem, alguns locais onde já estava tudo preparado, a determinação era de taticamente desmobilizar, até porque o governo estava voltando atrás. Dentro desta ilegalidade é interessante certas coisas. Historicamente é uma coisa que pouca gente deu atenção na época, foi o seguinte: era o Governo Figueiredo, e a CUT pediu uma audiência ao ditador, e nós achamos que nem ia receber, quem recebeu foi o Leitão de Abreu, que era da Casa Civil, o que deu um nó danado na ditadura, “como receber alguém ilegal!” Inclusive o próprio ditador recebeu criticas de seus comparsas: “como você vai receber uma delegação que é ilegal!” E nós enfiamos goela abaixo em Brasília que tinha que receber. Era coisa que não podia voltar atrás, a ditadura não podia desconhecer a CUT. Então saltamos para 84, 1º CONCUT. Foi realizado, mais tranqüilo, o bloco pelego/reformista tentou fazer plenária para a gente não fazer o congresso, fazer um unificado, então eles decidiram, até porque foram atropelados, então em novembro de 83, eles fizeram a CONCLAT. Para nós estava claro, na época, que a tendência era chegar a uma central sindical pelego/reformista, como depois deu na Força Sindical. No congresso de 84 foi reafirmada a necessidade de implantação da CUT e do seu fortalecimento. E as novidades que saíram deste congresso foram basicamente duas: primeiro, tirar um plano de lutas e uma campanha nacional de lutas, seja pelas reivindicações imediatas mais gerais, como as diretas já, e uma direção que não era mais colegiada, uma direção definitiva. Porque havia determinados setores que diziam: “olha, não vamos tirar uma direção definitiva porque ainda é possível chegar a uma central única”. Porque em 83 a palavra de ordem foi: Central Única dos Trabalhadores. Mas, se formos analisar a fundo, no nascimento da CUT não nasceu a central sindical única. Porque não era única, já tinha outra, do outro bloco, que de fato três meses depois foi formulada e adiante foi. Então Central Única dos Trabalhadores foi mais um símbolo, porque não existia a unidade, porque se fosse forçada, a unidade seria falsa, como foi demonstrado no CONCLAT 81 e nas diversas plenárias em 81/82. Podemos dizer que nessa época já existia o germe destas duas centrais sindicais, ou até mais. Então em 84, duas decisões básicas, uma campanha de lutas, uma direção definitiva e pequenas mudanças no estatuto, tendo o Jair Meneguelli como presidente.

P. Os mesmos sindicatos que foram em 83, foram em 84?
R. Todos, praticamente todos. E claro, avançou. Teve sindicato que era pelego, que pela investida que nós fizemos, inclusive pelo jornal, acabaram participando, e as oposições sindicais, nesse ano todo vários sindicatos foram tomados, e outras oposições que foram criadas.

P. Você se lembra de algum significativo, que vocês até comemoraram?
R. Eu lembro dos rurais que foram vários, eu não saberia dizer exatamente. No Espírito Santo, teve uns três sindicatos, que eu não me lembro agora, que as oposições tomaram, e que participaram do congresso seguinte, no Pará também. Dos sindicatos urbanos… claro que a grande vitória foi a reconquista dos sindicatos que estavam sob intervenção. Talvez o mais significativo foi o Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro.

P. Fala da greve geral.
R. Eu vou falar da greve de 85, que foi a mais significativa depois desse movimento todo. Eu diria que ela foi a greve que consolidou a perspectiva da CUT em dois níveis; naquilo que se brigava, pelas reivindicações imediatas e históricas, que sempre se tentou juntar, inclusive este era um conceito utilizado na época. A batalha, a luta da CUT era…
Em 85 teve todo um movimento, talvez tenha sido uma das melhores greves gerais, que se estendeu por um período longo, que foi dos metalúrgicos, químicos e bancários, que foi desde março até setembro de 85. Foi de fato uma greve diferente, sem prazo determinado, uma bola de neve, que para mim foi uma greve geral prolongada. Porque o chamado político já foi nesse congresso. Por isso a importância do congresso em 84. Saiu de lá a bandeira de uma campanha nacional de lutas, e de lá saíram quatro grandes bandeiras. Em setembro de 84 a executiva se reuniu e tirou quatro grandes bandeiras, que foram estas aqui, que aliás saiu um cartaz bonito, em termos gráficos, em termos de idéias. Estas foram as quatro grandes bandeiras, e a bandeira mais geral daquela conjuntura.

P. Que são…
R. 40 horas, Reforma Agrária, Reajuste Trimestral, Salário Desemprego e Diretas Já. Este foi o mote fundamental da campanha. E saiu um cartaz sobre as 40 horas, no campo saiu vários cadernos, e saiu uma enorme leva de materiais de todos os tipos. A responsabilidade da CUT Nacional era de espalhar, fomentar e produzir este material. Em 85 a idéia era a seguinte: “a gente conseguindo fazer uma grande campanha nacional, a gente consolida a CUT não apenas como referência, que era outra grande discussão que existia, mas como direção de fato das lutas”. E a palavra de ordem foi a seguinte: jogar estas bandeiras em todo os movimentos, seja de uma categoria, oposição, comissão de fábrica, de uma CIPA. Não era portanto uma data x, era uma concepção de uma luta permanente, esta foi a palavra de ordem, e de fato ela funcionou assim mesmo. Então se você pegar um cartaz de unificação da luta dos metalúrgicos, dos cinco, seis grandes metalúrgicos da época de 85, o bloco combativo, era março, portanto o produto da primeira greve de campanha, o slogan foi esse, a Campanha Nacional de Lutas em cima das 40 horas. E teve uma importância muito grande porque a redução da jornada de trabalho, fazia muito tempo no Brasil que não se mexia. E nessa campanha dos metalúrgicos do Estado de São Paulo foi a primeira brecha. Nem pelegos, nem as multinacionais, nem o governo, acreditaram que esta bandeira ia vingar. Mas o movimento foi tão forte que conseguiu impor-se, e não conseguimos muita coisa não, mas houve a redução da jornada de trabalho. Aquela janela do cartaz, que foi o símbolo, “para viver melhor”, em termos de mais emprego, foi muito importante, e o mapa do Brasil com essa janela, que seria o novo horizonte. E a Reforma Agrária que tem um cartaz bonito, com uma grande cerca circundando o Brasil todo, e os sem-terra cortando a cerca e ocupando. Depois, o movimento sem terra deslanchou por ai. O movimento sem-terra e a CUT se juntaram imediatamente pós-CUT e trabalharam muito junto. Tinha divergências internas, mas cada um seguindo sua independência. Se você pegar um documento da CUT Estadual São Paulo, a CUT São Paulo foi fundada, tardiamente, somente em 85, porque outras CUTs estaduais e regionais já tinham sido fundadas. E a gente dizia: “puta merda, São Paulo que fez um grande esforço para poder…”

R. Este é o cartaz da Campanha Unificada. São Paulo que puxou a questão da CUT… Veja bem isto aqui, setembro de 85, ela tem um titulo interessante, aliás eu acho, em termos de sugestão, o melhor cartaz, inclusive para o site, até o Bargas certamente concordaria, até o movimento em geral. Esta página – “Os livros de história contarão esta greve” – ela teve um lance até futurístico, ela foi uma greve fundamental para a consolidação da CUT e abriu brecha. Então era a CUT Estadual que estava à frente de todo movimento. Foram jogados depois, movimentos de unificação, aí juntou químicos, várias categorias …

P. Em 85 foi uma campanha salarial unificada?
R. A palavra de ordem era: Campanha Salarial Unificada. Em minha avaliação, após esta campanha que foi mais geral, em todos estados, eu acho que foi uma das poucas amostras em nível de CUT, daí pra frente, em 86/87, as campanhas e mesmo as greves gerais não caminharam mais nesta direção, de campanhas unificadas de categoria, que foi uma grande perda histórica. Porque em 85, que foram campanhas regionais, estaduais, a nível nacional onde era possível, tipo bancários, que já tinha uma certa articulação nacional, petroleiros… Foi uma campanha que tinha uma concepção de greve geral prolongada. Acho que esta foi uma grande marca da greve, que eu chamaria de uma das melhores greves gerais que o Brasil fez.

P. Que inclusive os metalúrgicos de São Paulo fez.
R. São Paulo teve que entrar, forçaram, não teve como não entrar. E claro em cima de bandeiras do campo e da cidade e bandeiras de conjuntura, seja, abaixo a ditadura, contra o FMI, a dívida externa, contra o pacto social, que veio logo depois.

P. Estava o Sarney.
R. Quer dizer, contra toda uma parafernália pós-ditadura, que viria, a gente tinha certeza, dar uma continuidade em termos de dominação. Então o embate que se deu nesta greve de 85, ela deslanchou, mas o fio condutor foi unidade nas lutas. O resto a gente pode até discordar mesmo organicamente. Aliás tem um texto interessantíssimo que saiu – dos metalúrgicos do Estado de São Paulo (na ocasião, eram 5 sindicatos chamados independentes) -, que eu acho que foi o fio condutor, e eu acho que vale até hoje, que foi isso aqui: “Acreditamos na força da unidade, mas da unidade provada na luta e cimentada no apoio das bases”. Aqui fundamentalmente remete a duas coisas: à concepção de unidade e à questão que a CUT só avança se tiver base. Foi exatamente isso que deu origem a Pró-CUT, o bloco todo, a CUT, e a sua própria sustentação posterior. Aqui vai uma critica, uma critica não, uma avaliação que eu tenho. Por exemplo: nesta reconstituição que eu fiz da unificação dos metalúrgicos do ABC, e depois do racha, pra mim, no fundo, tentou-se, e aí eu acho que a hegemonia que é a Articulação na CUT forçou a barra, tentou uma unidade, foi frustrada a unidade, ela estava sendo motivada por uma visão equivocada da Articulação. Era um controle político em nível de CUT, sindicato, de movimento, e controle financeiro. Não foi briguinha de Santo André com São Bernardo, tudo isso é perfumaria. A briga de fundo mesmo foi, e aí eu acho que tem que ver com o são-bernardismo, foi uma briga da hegemonia da CUT que persiste até hoje, de poder fazer aquilo, que eu discordo totalmente, que é a centralização política e financeira, que está caminhando para o sindicato único, que eu acho um erro histórico. Eu tenho uma avaliação seguinte: a CUT hoje ela não tem muita diferença das outras centrais que estão ai. Mas esta é outra avaliação. Nos cursos de formação em 84/85/86 até 88, nós tínhamos um cartaz, eu fui coordenador da CUT Estadual na formação política, que era assim: “Diferenças entre CUT e sindicato de resultados”. Não existia Força Sindical ainda, mas previa-se que era CGT, Força Sindical, qualquer coisa dessa natureza. E tinha onze pontos de diferença, desde a concepção imediata até a questão de socialismo, e em todos os cursos de formação a gente remetia a estas diferenciações políticas. Porque era uma concepção de prática sindical e de uma visão de mundo geral… Hoje este cartaz eu já rasguei, não fisicamente, porque eu preservo a história, rasguei porque não é mais. Entre um companheiro da APEOESP (na ocasião, presidente da CUT Nacional), que vai para Brasília procurar o FHC, e o presidente da Força Sindical, hoje a disputa (vou ridicularizar um pouco) é ver quem chega primeiro ao Palácio em Brasília; eu acho uma decadência em termos de concepção de central sindical. Mas isso é uma outra história. Vamos ficar por aqui.

P. Podemos encerrar então, Valdo? Obrigado.

Local: São Paulo
Entrevistado por: Nádia Aparecida Lopes de Camargo
Transcrição: Marita Regina de Carvalho

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