1991: Uma tese sobre o PT (Partido dos Trabalhadores)

1991: UMA TESE SOBRE O PT (PARTIDO DOS TRABALHADORES)

(roteiro elaborado em 1991)

I – 10 anos de PT: o quê está sobrando?

II – O PT foi, é e pode ser uma alternativa?

III – O PT e o socialismo

IV – O PT e a forma de PROPRIEDADE

V – O PT e as classes sociais

VI – O PT e o poder

VII – O PT e a organização de sua base de sustentação:
> trabalhadores (movimento sindical e movimento popular)
> partidos de esquerda

VIII – O PT e seu PROGRAMA de Governo

IX – PT – Sindicato – Administrações Populares

X – Algumas conclusões sobre o PT


I – 10 anos de PT: o quê está sobrando?

1.O PT nasceu dentro de uma conjuntura de esgotamento da estratégia (quase mundial) militarista enquanto forma principal de controle da classe trabalhadora.
2.O PT nasceu dentro de uma conjuntura de esgotamento da era da ditadura militar no Brasil.
3.O PT nasceu como resultado da falência das experiências da esquerda brasileira (PCB, PC do B e todas as suas variantes).
4.O PT nasceu a partir de um novo núcleo revitalizador dos anseios da massa trabalhadora que foi se insurgindo de forma bastante ampla, em nível dos trabalhadores da cidade e do campo. O PT não nasceu na República de São Bernardo do Campo, mas, nasceu a partir de um amplo movimento que foi assumindo a luta da classe trabalhadora. Não foi o Lula que criou o PT, mas foram os trabalhadores que teceram e fizeram emergir o partido e seus líderes.
5.O PT inegavelmente penetrou na massa dos trabalhadores da cidade e do campo já nos seus primeiros anos de vida. Podemos afirmar, com certa segurança, que o PT foi o partido que maior penetração conseguiu na história dos partidos políticos no Brasil. Penetrou nos meios operários, camponeses, populares e em boa parte dos setores da classe média.
6.O PT conseguiu esta penetração porque se apresentou como:
a) partido da classe trabalhadora e não da classe dos patrões;
b) partido que apontava para a superação do sistema de exploração e dominação capitalista;
c) partido que apontava para uma nova sociedade (mesmo que não bem definida) chegando mesmo a defender o socialismo;
d) partido que apostava na organização dos trabalhadores como forma de garantir o novo PROJETO de sociedade;
e) partido que lançaria mão de todas as formas de luta para chegar a seus objetivos, apostando mais nas que vêm da capacidade dos trabalhadores e menos nas que são resultado
do estabelecido em lei;
f) partido que estaria disposto a assumir as necessidades da grande massa como seu Plano de Lutas;
g) partido que buscaria formas de contribuir com a luta dos trabalhadores em nível internacional.
7.Com 10 anos de idade, o quê o PT conseguiu avançar em todos os seus pressupostos básicos? Apenas para citar algumas questões:
a) O Partido dos Trabalhadores caminha para quê leque de parceiros, de alianças, de entendimentos?
b) O PT quer superar o capitalismo ou apenas acabar com as suas formas “atrasadas”, “selvagens”, etc.?
c) O socialismo continua como alternativa de sistema global de sociedade para o PT? Alguns sindicalistas, alguns guerrilheiros e alguns intelectuais já abandonaram o rumo socialista. O PT caminhará pela trilha destes? (Se é que algum dia tiveram trilha…).
d) E a organização do partido, como anda? Onde estão os milhares de “núcleos do PT” (nos bairros, nas fábricas, nos locais de trabalho em geral, no campo, etc.)?
e) O PT foi caminhando para uma via, praticamente, única: A VIA INSTITUCIONAL (eleições para vereadores, prefeitos, deputados estaduais, governadores, deputados federais, senadores e presidente da república). Sem falar no imenso esforço de ganhar postos, cargos, pastas, em áreas do judiciário, em áreas de comissões, etc. etc.
Afinal, a ocupação do espaço legal é o compromisso estratégico do PT para se chegar ao poder?
Como o PT encara o problema de “companheiros” que chegaram “lá” e que depois montam a sua “maquininha” com o objetivo de se garantir ‘lá” de qualquer jeito?
Como o PT encara companheiros e até BLOCOS ARTICULADOS que, “chegando lá”, depois mudam de partido como se muda de roupa no final do dia?
Como o PT encara “figuras” que ontem eram inimigos do partido e hoje se “converteram” e entram no partido (especialmente os que “são bons de voto”)?
O PT nasceu e cresceu a partir de um amplo leque de formas de luta: greves, ocupações de terra, na “marra”, na lei, no confronto, na bala, no voto, na rua, etc. etc. etc. Como o PT pode encurralar toda a luta para a via institucional?
Vale aqui lembrar as DIRETAS JÁ! Houve grandes mobilizações de massa na rua. O “Sr. Diretas: Ulysses Guimarães” chegou e disse: “BASTA de rua! O povo já se manifestou. Agora, deixem conosco. No PARLAMENTO tudo resolveremos.”
Para citar o exemplo da esquerda: o PCB, a partir dos anos 40, apostou na “ocupação do espaço legal”. Resultado: o PC não ocupou o espaço e perdeu-se como alternativa. O PT seguirá caminho semelhante?
Concluímos todo este questionamento, citando a tese básica do grande e respeitável filósofo e estrategista da burguesia, Augusto Comte: “A liberdade consiste em cumprir a lei.”
Daí nasceu a palavra-de-ordem da bandeira brasileira: ORDEM E PROGRESSO.
Vamos entrar nessa? É claro que seria demais. Mas, há quem, dentro da esquerda, esteja próximo disso. Afinal, o argumento moderno de hoje é o seguinte: “precisamos estar abertos a tudo”. O que eu temo é que esta abertura moderna acabe por entubar mais uma vez a classe trabalhadora. E depois a gente se consola e tenta “sair por cima”, fazendo a famosa auto-crítica. Esta, de pouco ou nada vale, se antes não formos críticos.
8.Finalmente, o PT vai para onde?
Uma esperança que nasce no meio do povo, mas que morre porque não organizou o povo, demora uma vida para nascer de novo. E daí chegamos tarde mais uma vez! É certo que a luta continua! Mas podíamos tê-la continuado num patamar superior.

II – O PT foi, é e pode ser uma alternativa?
1.O PT já foi um começo de alternativa nos seus primeiros anos de vida. Mostrou aos trabalhadores que era necessária uma mudança profunda e radical do sistema de sociedade.
2.Hoje, os trabalhadores já dizem: “O PT? Não sei, não! Parece que está caminhando como qualquer outro partido.” Ouve-se de muitos companheiros que hoje são vereadores, deputados, etc. falarem o seguinte: “Entrei numa fria”, “Foi a pior viagem que eu peguei”. E esses companheiros poderiam até se reeleger com certa tranqüilidade.
Tanto pela massa como por muitos militantes, o PT hoje é colocado, pelo menos, em dúvida. Todos deverão continuar “firmes no PT” mas sem aquela confiança. Para um partido que se quer como alternativa, não é nada animador. As estatísticas “eleitorais” de 88 e 89 (as melhores safras provavelmente deste final de século) e as estatísticas de filiação após os mais de 30 milhões de votos para presidente não devem ser referência segura de que o PT está bem.
As administrações populares do PT, pelo Brasil afora, deverão sofrer um certo abalo em 92. Há casos em que não são mais petistas. Há casos que poderão mudar de sigla para garantir o patamar conseguido (e que o PT não mais consegue dar). Haverá casos, possivelmente, de perda simples e pura. Isto já é decorrente da posição, prioritariamente, eleitoral do PT.
3.O PT foi um esboço de alternativa. Hoje, mesmo liderando o bloco da esquerda, parece estonteado. E, daqui para frente, como será o PT? Para alguns, o PT deve voltar às origens. Para outros, o PT deve mudar (nem sempre definindo o quê mudar e para onde). Para outros, ainda, o PT deve se tornar um partido moderno, civilizado, menos radical e até, quem sabe, cordato.
Afinal, o PT pode ser uma alternativa?
Vai depender, em grande parte, da definição política e dos rumos que o seu congresso nacional tomar neste ano de 1991.
Mais 10 anos e estaremos no final do século. Estamos chegando ao século 21 com grandes desafios. Algumas lições históricas foram ficando, como, por exemplo:
* o capitalismo se mantém e busca formas de continuar a exploração e a dominação sobre a grande massa;
* o socialismo se apresentou como alternativa de superação da exploração do homem pelo homem. A experiência de 80 anos de socialismo nos deu algumas lições e aponta para a necessidade de mudanças;
* a experiência da esquerda brasileira tradicional se esgotou. Novas esperanças emergiram da classe trabalhadora nos últimos 10 anos e passam por um teste histórico: ou dão a volta por cima, ou o seu “novo” não era nada de novo e poderão enterrar-se juntamente com o século que finda.
Estou me referindo, especialmente, ao PT, à CUT, aos Movimentos Populares classistas e às Administrações Populares.
4.As grandes questões que vão definir o PT como uma possível alternativa são basicamente:
* O PT e o socialismo;
* O PT e as formas de Propriedade;
* O PT e as classes sociais;
* O PT e o Poder;
* O PT e a organização de sua base de sustentação;
* O PT e seu Programa;
* PT – Sindicato – Administrações Populares.

III – O PT e o socialismo
1.Negação do capitalismo
2.Afirmação do socialismo:
a) crítica aos erros cometidos;
b) afirmação do socialismo;
c) chamar os trabalhadores para a tarefa da construção do socialismo.

IV – O PT e a PROPRIEDADE
1.A propriedade como referência histórica e base para qualquer tipo de sociedade;
2.A propriedade privada e a propriedade coletivista;
3.A propriedade sob o controle do coletivo;
4.As diversas formas de PROPRIEDADE:
a) Coletiva
b) Estatal
c) Privada (familiar, pequena e média)
d) Mista

V – O PT e as classes sociais
1.A existência de classes provou a impossibilidade histórica de resolver os grande problemas da humanidade. Problemas que vão do estômago à estética.
2.O antagonismo de classes:
a) PT: partido sem patrão!
b) PT: massa trabalhadora.
c)

Obs.: Este texto foi escrito há 16 anos atrás, em 1991. É um roteiro incompleto. O texto final nunca foi escrito, mas foi utilizado em inúmeros debates de formação política, contestado e rejeitado pelas lideranças do PT e CUT na época, mas aceito com entusiasmo pela base do movimento sindical e popular. Na nossa opinião, continua mais atual do que nunca.

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