HUMANISMO: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS HISTÓRICAS CONFLITANTES

(Texto elaborado em novembro/2000)

1. BREVE INTRODUÇÃO

Em todos os momentos da história da humanidade, em qualquer tempo e espaço, observamos que a questão HUMANA, do HOMEM, ou ainda, os diversos HUMANISMOS estiveram presentes e foram objeto de embates de idéias, de projetos humanos, de confronto de alternativas buscando implantar sistemas sociais de acordo com a visão das classes sociais presentes nos diversos cenários históricos. Dentro desta perspectiva é que devemos olhar para a história de ONTEM e a história de HOJE. Para implementar esse debate destacaremos a seguir alguns acontecimentos históricos relevantes ocorridos no tempo e no espaço, pelo mundo afora, e que revelam as concepções e práticas de humanismos. Finalmente, faremos alguns comentários sobre o momento histórico em que estamos vivendo e os rumos que estão se delineando.

2. O HUMANISMO VISTO DO ÂNGULO DO PODER DOMINANTE

As classes dominantes, desde as mais remotas até as mais recentes, discutiram, definiram e buscaram implantar a sua visão de HOMEM, a sua visão de HUMANIDADE, através de formas, mecanismos e armas diversas, de acordo com cada época e com a correlação de forças de cada situação histórica. E isto foi sendo sempre traduzido em um conjunto de idéias e práticas que pudessem garantir os objetivos e interesses dominantes. Não quero aqui ter a ousadia de fazer uma prolongada recuperação de fatos históricos. Vou apenas citar aquilo que poderíamos chamar de “SÍNTESES” de projetos humanistas do poder dominante. São uma espécie de “PALAVRAS DE ORDEM” que simbolizam uma visão de mundo e uma visão de HOMEM, isto é, daquilo que a classes dominantes acham ser o melhor para a humanidade. Vamos arrolar algumas históricas “SÍNTESES” ou “PALAVRAS DE ORDEM” formuladas através do tempo:

a)- O Império Romano resumiu o seu projeto para a humanidade em duas frases célebres:
” AVE, CESAR!” – uma saudação usada especialmente após a vitória de ROMA sobre algum dos povos da época;
” CARTAGO DEVE SER DESTRUÍDA!” – os cartagineses se insurgiram contra ROMA e chegaram a sitiá-la por longo tempo. O império romano, vendo-se ameaçado na sua hegemonia mundial, criou esta palavra de ordem e a levou até o fim.
Para o império de Roma, elevar qualquer indivíduo (inclusive o escravo) à categoria de “cidadão romano” era o máximo do gesto humanitário. Impor o estilo romano de vida a todos os povos era tido como um avanço da humanidade. Este foi o “HUMANISMO” de Roma.

b)- No início da era cristã, através de CONSTANTINO, homem forte da época, foi criada uma “SÍNTESE” da visão cristã de humanidade através da histórica frase “COM ESTE SINAL, VENCERÁS!” Era a palavra de ordem para “cristianizar” a humanidade. E para não deixar nenhuma dúvida sobre a certeza de que esta HUMANIZAÇÃO-via-cristianismo era a melhor coisa para os chamados “gentios” ou “bárbaros” ou “hereges” ou ” infiéis”, o slogan foi consagrado como uma “revelação divina”. O sinal era a cruz.

c)- “ROMA FALOU, A DISCUSSÃO ACABOU” foi outra grande palavra de ordem vinda da ROMA CRISTIANIZADA. Uma vez que Roma, através do papa, formulasse uma definição ou um “DOGMA”, como foi mais conhecido, ninguém podia discutir mais o assunto. E quem se atrevesse a discordar seria condenado ou mesmo queimado (o caso de Galileu, que defendia que a terra se movia, é um dos exemplos clássicos mais conhecidos). E o projeto humanista católico foi até mais longe, especialmente após a criação do PROTESTANTISMO por Lutero, formulando e impondo a seguinte doutrina: “FORA DO CATOLICISMO, NÃO HÁ SALVAÇÃO!” Ou seja, todas as outras religiões foram jogadas no inferno. É interessante observar que tais “PALAVRAS DE ORDEM” podem ter uma duração de séculos. Neste ano 2000, o papa, através de um documento oficial do Vaticano, reafirmou esta tese, causando centenas de revoltas no chamado “ESFORÇO ECUMÊNICO” (tese que vem sendo construída nos últimos 40 anos).
Em resumo, “TORNAR-SE CATÓLICO” seria a melhor forma de humanizar todos os viventes da terra. Aliás, é sintomático o adesivo colado nos carros, dizendo: “Sou feliz por ser católico.” Até parece que os demais pobres mortais são todos “uns infelizes”…

d) E para não deixar barato, nos últimos dois séculos, foi sendo formulada e reformulada, e imposta de formas as mais variadas, a máxima da BURGUESIA: “ORDEM E PROGRESSO”. Não é necessário dizer que todos nós desde crianças (e muitos até hoje) a decoramos, declamamos, cantamos e recantamos, geralmente forçados e sem muito saber do significado que está por trás desta frase. Em resumo, “ORDEM” a ser cumprida por milhões e “PROGRESSO” a ser acumulado e raptado por poucos. Os povos serão mais humanos se abraçarem esta filosofia. Mas afinal, já se foram décadas e décadas e o “PROGRESSO” para a grande maioria ainda não chegou… Como ficamos?

e)- Chegando para mais perto de nós, de nossa história brasileira, eu destacaria duas frases tão célebres quanto as do passado do poder dominante:

“AME-O OU DEIXE-O!” Esta foi uma das sínteses do período da Ditadura Militar de 64 para frente. E os argumentos “HUMANISTAS” foram dos mais diversos, sendo o principal salvar o povo brasileiro ou salvar a pátria do comunismo. Você quer mais “humanista” do que a marcha por Deus, Pátria e Família?
A segunda frase é do nosso “rei do planalto”: “TUDO PELO SOCIAL!” Mão levantada, cinco dedos levantados, cinco prioridades. No contexto atual, o conceito de “SOCIAL” é cheio de qualidades humanistas. Só que dito e nao praticado pelo poder dominante central. Até o FMI e a OMC nos dois últimos anos estão pregando a humanização do capitalismo. Enquanto isto, o governo FHC pratica a política do desmonte do social: aí estão os cortes de verbas das áreas sociais que provam que os cinco dedos estão sendo cortados pela metade, ou reduzidos ao toco, zerados.

f)- Finalmente, para desmascarar o tom humanista das teses da classe dominante, estão todo dia na agenda os slogans:
“GLOBALIZAÇÃO”
“O MERCADO COMO ABSOLUTO”
Na última década do século 20, especialmente após a chamada “QUEDA DO MURO DE BERLIM”, o capitalismo globalizado neoliberal se proclama a palavra final da história da humanidade, a etapa mais avançada do homem sobre a terra e assim por diante.. Por outro lado, os próprios organismos internacionais que governam o mundo atual (FMI,OMC E BANCO MUNDIAL) se sentem bastante assustados com o avanço das desigualdades em diversos níveis: 1 bilhão e meio na faixa da pobreza ou miséria, 1 bilhão e duzentos milhões de desempregados ou sub-empregados, com tendência a aumentar, a riqueza produzida aumenta, mas, também aumenta a distância entre os mais ricos e os mais pobres, a exclusão social leva à violência e às drogas, etc. Afinal, fica a pergunta: que raio de avanço da humanidade é esse? Cadê o “HOMEM” como centro de preocupação do “MERCADO GLOBALIZADO”? E é interessante observar que os governantes em geral se dizem defensores da democracia, da social-democracia e até do socialismo…
Não é possível se pensar o avanço da democracia sem igualdade, não dá para exercer a liberdade sem igualdade, não há fraternidade sem a igualdade. Em resumo, o slogan da Revolução Francesa de 1789( liberdade, igualdade, fraternidade) para quem aposta numa alternativa de avanço qualitativo da humanidade, repito, a palavra de ordem dos chamados “de baixo” é possivelmente e talvez somente a palavra IGUALDADE. É isso que tem sido o esforço de todos os que se sentiram isolados, deslocados, marginalizados, excluídos e em grande parte perseguidos, torturados e assassinados. Falar hoje em HUMANISMO(se é que vale a pena falar num conceito tão desgastado, usado e abusado pelo poder dominante) é certamente retomar com maior força e determinação o conceito de IGUALDADE. Ele é o bastante como profundo argumento para consolidação da concepção e prática emancipadora.

Passemos agora a listar alguns movimentos e esforços históricos na perspectiva da superação da dominação e da exploração. Do mesmo modo que observamos o poder dominante definindo e impondo o que ele acha “melhor”, o que é “mais humano”, o que é “mais digno” para a humanidade, observamos também o esforço e a resistência histórica de movimentos pela transformação e construção de uma alternativa do ponto de vista da grande massa humana. É bom lembrar que essa grande massa humana recebeu e continua recebendo “nomes”, “conceitos” e “definições” diversas. As mais significativas da história das sociedades: escravos, servos, camponeses, proletários, operários, selvagens ou índios, excluídos, sem terra, sem teto, sem comida, migrantes, imigrantes, marginalizados, exército de reserva, sub-empregados, favelados, bóias-frias, desempregados, e outras variações mais…
Todos eles, em momentos e lugares diferentes do planeta, deram a sua contribuição rumo a uma sociedade igualitária.

3. O HUMANISMO VISTO DO ÂNGULO DO PODER ALTERNATIVO EMERGENTE

Gostaria de chamar atenção, inicialmente, para o fato de que a luta pela IGUALDADE tem sido a marca dos movimentos sociais históricos. Deste ponto de vista, acredito que o conceito de IGUALDADE é o conceito mais HUMANISTA enquanto perspectiva para o avanço das sociedades humanas.

Vamos a alguns registros históricos, resumidamente:

a)- “ABAIXO O FARAÓ DO EGITO!” Poderia ser assim resumida a revolta do chamado POVO HEBREU sob o comando de Moisés. Certamente se houvesse panfletos ou banners na época, a frase a ser escrita seria mais ou menos a citada acima. A narrativa bíblica se refere ao fato histórico como a “LIBERTAÇÃO DOS ESCRAVOS” dominados pelo Egito. A descrição do Mar Vermelho, que se abriu, pode não ser tão científica. Mas com certeza é um símbolo da força e capacidade de um povo quando quer a LIBERTAÇÃO. Sair de uma situação de desigualdade total para a construção de um povo liberto, com certeza, podemos afirmar que a humanidade deu um salto.

b) “LIBERDADE PARA OS ESCRAVOS!” Roma (71 a.C. antes de Cristo) ESPÁRTACO – gladiador, líder da revolta dos escravos contra Roma. Trabalhava como pastor e depois foi auxiliar militar romano, desertou e, quando recapturado, foi treinado para ser gladiador. Em 73 a.C. (antes de Cristo) liderou uma revolta que ocupou a cratera do Vulcão Vesúvio e conseguiu derrotar dois exércitos romanos. Seus seguidores chegaram a 90 mil e devastaram o sul da Itália. O poder romano derrotou ESPÁRTACO, que foi morto, e muitos dos seus seguidores foram crucificados (esta era a forma de tortura e de assassinato da época). Esse movimento significativo conseguiu aglutinar escravos em busca de sua liberdade.

c)- Revoltas de CAMPONESES; em 1381, na Inglaterra, camponeses se revoltam contra a legislação repressora do estatuto dos trabalhadores (1351) e contra o imposto individual (1380). Juntaram-se nesta luta os camponeses, os artesãos e destituídos. Entraram em Londres, ocuparam o palácio do Duque de Lancaster, ocuparam a torre de Londres e decapitaram o arcebispo e o tesoureiro real. O Rei Ricardo II prometeu a abolição do trabalho servil, terras baratas e livre comércio. Depois de restabelecido o controle, o rei não cumpriu com nenhuma promessa e reprimiu os rebeldes. Na Alemanha, de 1524 a 1526, os camponeses fizeram diversos levantes contra a situação de miséria econômica, pelo estabelecimento da igualdade e justiça social. O poder dominante, com o apoio de Lutero, massacrou mais de 100 mil rebeldes.
Comentário: os movimentos camponeses batalharam por causas sociais, igualdade e contra leis opressoras. Todas bandeiras mais do que humanistas.

d) BRASIL – QUILOMBOS – 1605/1695: movimento de resistência dos escravos, que fugiam das fazendas e formavam os quilombos, aldeias de negros foragidos que tentavam reconstituir, nas matas brasileiras, sua vida africana. Durante todo o período colonial, formaram-se quilombos em muitas partes do território (Rio, Minas, Mato Grosso, Bahia, Pernambuco). O mais conhecido foi o de PALMARES, na serra da Barriga, em Alagoas: os mocambos (grupos de casebres cobertos com folhas de palmeira) estendiam-se por 27 mil km2, e seus milhares de habitantes cultivavam milho, feijão, batata-doce, mandioca, banana e cana. Lá viviam não só negros mas mulatos livres e índios que se integraram nessa comunidade (quem lá chegasse por esforço próprio era considerado livre, mas quem chegasse trazido à força só alcançava a alforria quando levasse para o mocambo algum negro cativo). Palmares desenvolveu-se tanto que seus habitantes iniciaram um pequeno comércio com aldeias próximas, ligadas à colonização portuguesa. Palmares tornou- se uma lenda, um estímulo, uma bandeira de luta pela liberdade (chefe Zumbi era considerado “imortal”). Repressão durou quase todo o século 17, movida pelos holandeses e pelos defensores da colonização portuguesa. A destruição final (por Domingos Jorge Velho) ocorreu em 1695, quando caiu o mocambo principal, Cerca Real dos Macacos .
Comentário: observe que, na época, os “de baixo” são negros, índios e camponeses. O sentimento de classe, a solidariedade e busca de uma sociedade coletiva e igualitária são exemplos marcantes e de um alto significado histórico para o Brasil e para o mundo. É um belo ideário humanitário.

e)- Resistência DAS SOCIEDADES INDÍGENAS: apenas para citar tres exemplos de povos que defenderam até as últimas consequências os seus valores coletivistas, a sua organização social: os Incas, no Peru, os Maias e Astecas, no México. O império espanhol foi um dos mais violentos ocorridos na história, dizimando essas civiliza­ções, a partir de 1500.
Comentário: o massacre foi em nome da chamada “civilização”, mar­ca européia. Dois conceitos básicos nortearam a domi­nação e destruição desses povos: “civilizar” os selvagens e “catequizar”. Esse mote civilizador ou “humanizante” tinha como meta a exploração de mercadorias para enriquecimento dos grandes comer­ciantes que abasteciam os mercados da Europa. Afinal, qual das civilizações era mais rica em valores humanos: a massacrante ou a dos que foram massacrados? Sem falar que, na empáfia e arrogância da dominação européia, era cor­rente a definiçao dos índios como seres de espécie inferior, a tal ponto que se levantava e defendia a tese de que seriam seres sem alma. Esse era o “humanismo de alto nível” dos chamados povos de primeira linha ou o “humanismo” do primeiro mundo da época.

f) IGUALDADE, LIBERDADE E FRATERNIDADE” : a revolução francesa, ocorrida em 1789, levantou essas tres bandeiras de alto valor histórico para a humanidade. A revolta popular deu um xeque-mate numa velha ordem econômica, política e social. Os castelos, reis, famílias nobres, enfim o chamado “sangue azul”, viam a guilhotina a sua frente e cabeças a rolar. Os sujeitos desse grande movimento — o POVO REBELADO — apontou para a necessidade de uma nova ordem e de uma nova sociedade. Até hoje há reflexos desse movimento. Os movi­mentos socialistas e comunistas dos séculos 19 e 20 buscaram avançar nesta perspectiva.

g)- REVOLUÇÕES SOCIALISTAS DO SÉCULO 20: após diversos ensaios revo­lucionários de 1848 a 1910, explodem movimentos revolucionários em diversas partes do mundo, de cunho mais amplo e em direção da cons­trução de sociedades de conformação IGUALITÁRIA. As principais foram, sem dúvida: a revolução russa de 1917 e a revo­lução chinesa de 1949. Dois destaques para as Américas: Revolução Mexicana (camponeses) de 1910 e revolução cubana em 1960. Temos ainda dois casos polê­micos nas Américas: a revolução chilena via eleições, e massacrada pela ditadura de Pinochet, e a revolução na Nicarágua de 1979 e também com sua regressão. Foram 80 anos de expe­riências socialistas que merecem uma avaliação especial. Certamente, o século 20 vai passar para a história como sendo o século do grande confronto entre dois projetos humnitários de sociedade:
o projeto capitalista e o projeto socialista. Temos que admitir que mais uma vez na trajetória humana prevaleceu o projeto privatista, que se diz voltado para o homem, mas, na verdade esteve e está voltado para o lucro, a exploração e a dominação de uma classe sobre a outra. Apesar do desmonte das experiências socialis­tas, a batalha pela construção de uma alternativa que resolva os grandes problemas da massa humana está de pé e continua.
Em novas experiências que certamente virão a ser implementadas, temos que superar alguns erros cometidos: um estado centrali­zador sem a abertura para os movimentos e organizações populares; uma concepção de organização ÚNICA (partido único, sin­dicato único, central única, etc.); uma visão ideológica que estreitou os limites do pensamento, da criação, resultando numa “uniformização”, substituindo o conceito amplo de IGUALDADE por “iguali­tarismo”; um sucateamento do sistema produtivo, privilegiando-se a corrida armamentista e a conquista do espaço cósmico como es­tratégia de demonstração de poder frente ao projeto capitalista.

Temos a certeza de que a inspiração inicial e muitos dos passos das revoluções socialistas estavam direcionados numa linha de humanizar o que estava desumanizado e embrutecido. Numa visão dialética da história, estamos convencidos que as experiências socialistas foram um marco de avanço humanitário, mesmo que interrompi­das e enfraquecidas no correr do século 20. Acreditamos que estão equivocados os muitos que entregaram os pontos e se lançaram nos braços do projeto capitalista; estão equivocados os muitos que jogaram na fogueira as teses marxistas; estão equivocados os muitos (de todos os setores da esquerda) que tiveram uma histó­ria inicial e até prolongada de cunho combativo e hoje estão domesticados e amansados.

Jogar na vala a perspectiva socialista ou tirá-la do texto sob o argumento de que isto não rende votos é renegar todos os exemplos históricos dos mo­vimentos sociais, como já citamos nas páginas anteriores. Aliás, a lista histórica precisaria ser complementada e em muito (por exemplo: os movimentos na África, os Chiapas no México, os movi­mentos guerrilheiros espalhados pelos diversos paises, as grandes manifestações dos excluídos, desempregados, sem terra, os movimen­tos populares que não mais aceitam esquemas autoritários do ti­po Fujimori no Peru e do Milossovich na Iugoslávia, que permaneceram meses
nas páginas dos jornais e nas telas de televisão, os movimentos his­tóricos passados ocorridos no Brasil: cabanagem no Pará em 1833, a sabinada e balaiada nos anos de 1830/40, a revolta dos canudos na Bahia l893/97 com Antonio Conselheiro, a revolta da chibata em 1910 no Rio de Janeiro liderada por João Cândido cha­mado o “Almirante Negro”, marinheiro, a greve geral dos operários de São Paulo em 1917, a coluna Prestes dos anos 20, a insurreição de 1935 liderada por comunistas, socia­listas e líderes sindicais, a greve dos 300 mil em São Paulo/1953, as ligas camponesas na década de 50/60, os movimentos operários e estudantis dos anos 66/68, os movimentos guerrilheiros na época da ditadura, os movimentos contra a carestia nos anos 70 em diante, as grandes greves operárias de 78 para frente, as grandes manifestações de rua exigindo Diretas-já na década de 80, o surgimento de organizações sindicais combativas, movimentos populares, partidos políticos de esquerda criados e consolida­dos na década de 80/90, os movimentos dos sem terra (campo) e sem teto (urbano) avançando nas ocupações, impondo-se como forças sociais importantes, o avanço nas Administrações Populares e Democráticas de 83 a 2000, espalhadas, hoje, por mais de 300 municípios brasileiros com grande peso econômico, político, populacional e social, etc. etc.

Toda essa lista dos movimentos so­ciais indica claramente que a perspectiva socialista não morreu. Pelo contrário, está na ordem do dia e espalhada pelos diversos continentes. É certo que não temos paradigma, como querem alguns apressados e desalentados com a queda das experiências socialistas. Sim, mas podemos nos perguntar: e quando não havia paradigma, como foi possível a criação de países socialistas? O paradigma se cria, se constrói, se consolida, se reformula, enfim, se cria e se recria. É assim que se transforma o mundo. É assim que se constrói a IGUALDADE. E, em se construindo isso, estamos com toda a certeza, trilhando o caminho da HUMANIZAÇÃO como um processo permanente do HOMEM pelo próprio HOMEM e para o próprio HOMEM.

4. ALGUNS COMENTÁRIOS E INDICAÇÕES PARA O NOSSO MOMENTO HISTÓRICO
E como fazer isso nos dias atuais cercados pelo projeto- mons­tro do CAPITALISMO GLOBALIZADO NEOLIBERAL?
Pergunta e desafio semelhantes sempre se colocaram aos movimentos sociais no mundo inteiro. E, como vimos, a busca da res­posta sempre partiu de um ponto: nós, os de baixo, somos capazes de dar uma resposta histórica. Ou acreditamos nisso e traba­lhamos ou sucumbimos e nos deixamos corromper pelo sistema global.
E para dar continuidade a este trabalho histórico, temos que minimamente reafirmar alguns parâmetros sustentadores de nossa concepção e prática transformadora:

4.1. Entendimento amplo da máquina capitalista global no seu estágio atual, escapando de análises apenas localizadas, específicas e pontuais;

4.2. Crítica permanente do Capitalismo Globalizado, desvendando as suas tramas, as suas mentiras, os seus enganos humanitários, as suas imposições, as suas formas de cooptaçao, as suas metas direcionadas para uma minoria, as suas respostas disfar­çadas de “soluções” para os problemas da humanidade, a sua estratégia de “ampliação da esmola” como “cala boca, peão” (temos aqui dezenas de exemplos: salário mínimo, PLR, rea­juste da inflação, salário desemprego, bolsa escola, renda mí­nima, 13º salário, férias (mesmo que sejam em dobro), salário profissional, verbas sociais como distribuição de renda, devolução do IR, banco de horas, adicionais diversos, requalificação profissional sem perpectiva de ter um emprego, cestas básicas, frentes de trabalho, filas para sopões popula­res, campanha de agasalho, natal sem fome, comunidade “soli­dária”, cargos e vagas no poder como moeda de troca do toma-lá-dá-cá, enfim, esmolas, esmolas esmolas e mais esmolas… Se observarmos bem, a ampliação da esmola, hoje, já atinge o HOMEM desde a concepção e nascimento até o auxílio funerário. Ou seja, a esmola vai do começo ao fim, da vida à morte. Quero assinalar aqui que esta estratégia de “AMPLIAÇÃO DA ESMOLA” é a grande “RECOMENDAÇÃO” do comando internacional da GLOBALI­ZAÇÃO (FMI, OMC, Banco Mundial). É só ler os relatórios dos anos 98,99, 2000 e 2001. A isto eles chamam de “HUMANIZAÇÃO DO CA­PITALISMO”.

4.3. Demonstrar, através da história, que o sistema do CAPITAL não está aí para resolver os problemas da humanidade ou, como sempre se falou, “o bem estar da sociedade”. Afinal, já são 500 anos de Capitalismo, em suas diversas fases, e os grandes problemas estão acumulados e se avolumando;

4.4. Apostar nas classes populares, hoje compostas pela massa dos incluídos e dos cada vez mais excluídos, como sendo as forças sociais capazes de comandar este longo e árduo pro­cesso de construção de uma nova alternativa rumo à IGUALDADE;

4. 5. Reafirmação do SOCIALISMO como saída para os problemas COLETIVOS dos POVOS. Não aceitar o argumento (que é uma desculpa barata) de que o socialismo nao deu certo, de que o socialismo acabou, de que temos que buscar uma terceira via e assim vai…

4.6. Trabalhar para consolidar 5 pilares que são os alicerces desta nova construção política, econômica e social de uma alternativa à proposta Capitalista, isto é:
a)- Movimentos Populares
b)- Movimento Sindical Combativo e classista
c)- Partidos de Esquerda com visão transformadora
d)- Massa de DESEMPREGADOS internacional como novo polo com grande potencial mobilizador
e)- Administrações Populares como gestoras de uma nova maneira de exercer o PODER com base popular e democrática.

4.7. Finalmente, ter uma visão internacional dos MOVIMENTOS SOCIAIS, buscando criar e consolidar organismos populares cada vez mais amplos e formas de luta de amplo espectro que podem ir do voto à guerrilha, de uma greve local a uma greve internacional, de uma marcha à Brasilia a uma MARCHA MUNDIAL, de uma ocupação de um pedaço de terra ou de um prédio vazio a um plano de ocupação mundial, de um grupo localizado de “sem comida” buscar o seu alimento onde ele existe estocado a uma busca em escala mundial dos bilhões que estão na linha da pobreza e da misé­ria.
A história mostrou e está mostrando a capacidade dos Movimen­tos sociais populares de criar as suas formas mais eficazes de luta,podendo ir de um pé de cabra para abrir a porta de um prédio va­zio à INTERNET, abrindo todos os PORTAIS para o mundo.

Em suma, PLURALISMO sem limite, nas formas de organi­zação e nas formas de luta.
Quem batalhar nesta perspectiva pode dormir em PAZ, a PAZ DO GUERREIRO.
UTOPIA? SIM! E POR QUE NAO?

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Uma resposta para HUMANISMO: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS HISTÓRICAS CONFLITANTES

  1. Natália disse:

    Ótimo! A luta continua por todas as vias.

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