A Universidade e o Velório

ALGUNS COMENTÁRIOS E INTERROGAÇÕES SOBRE O “SEMINÁRIO EM COMEMORAÇÃO AOS 20 ANOS DE FUNDAÇÃO DO ARQUIVO EDGARD LEUENROTH”.
TRÊS CENÁRIOS DESTE SEMINÁRIO
* CENÁRIO Nº 1: uma carga fúnebre muito acentuada nas falas e comentários;
* CENÁRIO Nº 2: uma carga muito forte na direção de buscar parâmetros dentro do status quo sem afrontá-lo;
* CENÁRIO Nº 3: uma carga pequena na direção de retomar uma perspectiva de mudanças radicais a partir da massa trabalhadora como sujeito capaz de construir uma nova alternativa de sociedade.
2. SOBRE O CENÁRIO FÚNEBRE E SOBRE 0 CENÁRIO DO STATUS QUO
Não pretendemos aprofundar os cenários. Apenas tentaremos reavivar e comentar algumas coisas que nos pareceram mais significativas.
Do cenário fúnebre e do cenário que busca uma saída no sistema que esta aí, conseguimos colher algumas preciosas pérolas que merecem um lugar em qualquer arquivo histórico. Vejamos as pérolas:
a)- o socialismo acabou;
b)- não existem mais paradigmas;
c)- luta de classes é palavra maldita;
d)- revolução? jamais! Nem pensar!
e)- o marxismo está enterrado;
f)- dialética? Passou de moda.
g)- a esquerda está falida;
h)- o papel da esquerda é empurrar a burguesia para que ela faça as mudanças necessárias;
i)- a pesquisa histórica ficou na reconstituição dos “comandos” da esquerda ou ainda do “oficial” da esquerda e não conseguiu penetrar no caldeirão da massa trabalhadora;
j)- a chave está no aprimoramento e no avanço das leis;
l)- modernizar e reformar os mecanismos do poder como forma de chegar à democracia política, social e econômica;
m)- entre o “carnaval revolucionário” e o “carnaval das reformas”, eu fico com o carnaval reformista;
n)- o conceito de “cidadão” é o novo parâmetro para se pensar as mudanças na sociedade;
e, finalmente, para não dizer que parei no nº 13
e, “para não dizer que não falei das flores”…

saiu uma última pérola da boca enfurecida do “carnaval reformista”. Ei-la:

O QUE FAZER COM AS GRANDES PLANTAÇÕES DE MACONHA DO PERNAMBUCO?

* Napalm em cima!
* Napalm em cima!

Poxa, até os reformistas estão radicalizando. É uma pena que tal radicalização seja tão destrutiva.

Que tal, ao invés de Napalm, recrutar 20,30, 50 mil trabalhadores rurais, ocupar essas terras, plantar e produzir milhares de toneladas de feijão, milho, batata, mandioca etc. etc?

3. UM COMENTÁRIO E UMA PERGUNTA
Deste cenário fúnebre e reformista é evidente que resulta um clima de:
– pasmaceira geral
– baqueamento profundo
– desalento histórico
– engavetamento da utopia

ou
como escreveu na FSP o atual prefeito de Porto Alegre: “uma moratória com a utopia”; ou como ele próprio arremata dizendo que nossa meta é chegar a “PATAMARES DE POBREZA DECENTE”!
Esta linha pensante, de fato, é de uma POBREZA INDECENTE!

Este seminário, em sua parte fúnebre e reformista, foi, de fato, um bom exemplo, não de uma “confusão pós-moderna”, como quer um dos temas, mas, de uma desilusão histórica de final de século.

AQUI VAI UMA INTERROGAÇÃO:
Afinal, os grandes cientistas de renomadas universidades deste país estão aqui para comemorar os 20 anos de um ARQUIVO HISTÓRICO ou estão aqui para comemorar o ARQUIVAMENTO DAS ASPIRAÇÕES HISTÓRICAS?

4. UM DEPOIMENTO ANTI-FÚNEBRE
Queremos aqui (VALDO E YARA) dar um depoimento anti-fúnebre. Também, queremos somar com alguns expositores e comentadores que aqui estiveram, bem como somar com os milhões de EXCLUÍDOS e INCLUÍDOS (os INCLUÍDOS também continuam EXCLUÍDOS) na persistente batalha de fundo e não de superfície.

Nós (VALDO E YARA), já passando meio século de idade, teríamos razões de sobra para estar pegando na alça do caixão fúnebre. Apenas dois exemplos para ilustrar:

* primeiro exemplo: nos consideramos fundadores da CUT. Fomos assessores da CUT Nacional e da CUT Estadual de São Paulo. Estivemos à frente na organização de dezenas de Congressos de Trabalhadores dos mais variados níveis e de inúmeras categorias da cidade e do campo. Nos últimos 5 anos, coordenamos e monitoramos dezenas de cursos de formação sindical com dirigentes, comissões, trabalhadores de base etc.
Nossa conclusão mais recente é a seguinte:

A CUT MORREU.
O título mais completo está no CADERNO Nº 0 de maio/94, como vocês podem ver aqui nesta capa.

A CUT NASCEU NO CORAÇÃO DOS TRABALHADORES MORREU NO COLO DOS PATRÕES!

* segundo exemplo; apoiamos e sempre votamos no PT. Após analisar a crescente DOMESTICAÇÃO DO PT, chegamos à seguinte conclusão (como vocês podem ver na outra ponta da capa do Caderno Nº 0):

LULA PERDE
AS ELEIÇÕES/94
PARA
PRESIDENTE
DO BRASIL!

Observação: escrevemos e publicamos esta CONCLUSÃO exatamente no momento em que LULA se encontrava lá no alto com quase 40% nas pesquisas.
Esses dois exemplos poderiam nos levar para o CENÁRIO FÚNEBRE.
CONTUDO, NÃO É NADA DISSO!
ESTAMOS VIRANDO 0 CAIXÃO
E
DANDO A VOLTA POR CIMA!

Esta á a lição que aprendemos no interior do movimento de massas através de nossa experiência e participação efetiva durante mais de 20 anos.

5. ALGUMAS REFERÊNCIAS DA MEMÓRIA HISTÓRICA E DE UM FIO CONDUTOR PARA O PRESENTE E PARA 0 FUTURO
Ao dizer que estamos somando com alguns que aqui expuseram as suas idéias e ao dizer que estamos somando com os milhões de EXCLUÍDOS e de INCLUÍDOS, queremos RETOMAR ALGUMAS REFERÊNCIAS que, ao nosso ver, deram sustentação a uma luta histórica que vai muito além da MEMÓRIA guardada nos ARQUIVOS HISTÓRICOS – possivelmente estes sejam apenas pequenas lembranças da grande MEMÓRIA HISTÓRICA e, ao mesmo tempo, continuarão dando sustentação à luta histórica que está sendo produzida neste momento e que se produzirá no futuro.

Quatro REFERÊNCIAS básicas nos parecem oportunas e devem ser retomadas como fio condutor para enfrentar os desafios deste final de século. Tais referências não devem ser tomadas nem como dogmas, nem como simples indicações e tão pouco arquivadas.

Vamos às quatro REFERÊNCIAS, resumidamente:

REFERÊNCIA Nº 1 – retomar a questão do que nós chamamos de PALCO DA LUTA DE CLASSES como fio condutor da história, como trilha-mestra de nossas investigações, análises, avaliações etc.
Dois equívocos parecem tomar corpo no momento em que nos encontramos:
O 1º é afirmar que a LUTA DE CLASSES acabou;
O 2º é forçar a substituição do conceito de CLASSES pelo conceito de CIDADÃO.

0 esgotamento de um tipo de socialismo, as modernizações que estão ocorrendo no capitalismo e o reordenamento que está em processo no setor produtivo, no setor dos serviços etc. não justificam esta guinada das CLASSES ao CIDADÃO.

REFERÊNCIA Nº 2 – retomar a crítica ao sistema capitalista em sua forma chamada moderna ou pós-moderna ou robotizada ou pós-robotizada daqui a pouco etc. Esta crítica permanente se torna imperiosa e deve atingir os mais diversos níveis do sistema. A chamada “modernização em curso” é uma espécie de canto da sereia dos novos tempos e que está seduzindo parcela da esquerda (do fuzil ao botão eletrônico do parlamento, da porta de fábrica a uma cadeira confortável de uma câmara setorial etc. – são exemplos). Esta modernização deve receber um tratamento severo por parte da classe trabalhadora quanto aos seus reais objetivos. 0 sistema capitalista se revelou muito competente em produzir e vender uma pílula dourada mas que traz dentro de si um veneno mortal.
Não se trata de negar o avanço tecnológico. Trata-se de negar radicalmente os seus objetivos e a quem ele serve.

REFERÊNCIA Nº 3 – Retomar a perspectiva socialista com todas as críticas necessárias às experiências deste século. Mas que socialismo? Duas rápidas formulações nos podem ajudar:

“SOCIALISMO DO ESTÔMAGO À ESTÉTICA”
OU
“SOCIALISMO: BOCA CHEIA E DEMOCRACIA INESGOTÁVEIS”.

Negar a utopia ou propor uma moratória com a utopia ou afirmar que a revolução não é mais possível é, no mínimo, negar ou encurtar a nossa capacidade de pensar, de criar, de agir e por que não dizer de sonhar. 0 encurtamento dos horizontes significa, para nós, sucumbir ao obscurantismo e assumir a incompetência.

REFERÊNCIA Nº 4 – finalmente, recolocar com firmeza a questão da classe trabalhadora, composta e recomposta de forma diversa no tempo e no espaço, como SUJEITO capaz de construir uma alternativa a tudo o que está aí e capaz de reconstruir a sua própria alternativa de forma permanente.

6. CENÁRIO GLOBAL: RADICALIZAÇÃO
Para terminar, nós diríamos que há um processo crescente de RADICALIZAÇÃO neste final de século. E a RADICALIZAÇÃO está sendo assumida pelos milhões dos EXCLUÍDOS e dos INCLUÍDOS, ambos, de fato, excluídos politicamente, economicamente e socialmente.

Para isto, basta uma olhada nas manifestações radicais de massa que vêm explodindo no mundo inteiro:

* as explosões na África;
* as explosões na Comunidade Européia onde o BEM-ESTAR parecia reinar;
* as explosões do Leste Europeu;
* as explosões ocorridas nos Estados Unidos;
* as explosões suicidas que vêm ocorrendo no Japão do emprego vitalício;
* as explosões dos Chiapas pegando em armas no México;
* as explosões que vêm ocorrendo na América Latina.
Tudo isto nos leva a crer numa crescente RADICALIZAÇÃO. Para desenhar esta onda histórica que, certamente, será benéfica, usamos a imagem do VENTO E DO FOGO num pequeno texto chamado CENÀRIO GLOBAL, que dedicamos ao companheiro EDGARD LEUENROTH:

CENÁRIO GLOBAL
Aos poucos os ventos
vão soprando,
vão descobrindo
as brasas vivas.
Aos poucos, também,
vão chegando
de todos os cantos do espaço
folhas secas
que cairão
sobre as brasas ardentes
e em breve farão
um enorme e cada vez mais
visível clarão.
E dai por diante,
os ventos poderão soprar
mais fortes
carregando mais
e mais folhas,
galhos mais robustos,
e, quem sabe,
troncos pesados
e seculares
que alimentarão
e sustentarão
um fogo feroz
que se encarregará
de queimar
definitivamente o velho
e fazer nascer o novo!
É a queima do que não pode
mais permanecer
e o nascimento do que
há de ser e vingar!
E, se este novo envelhecer,
será, com certeza,
tragado outra vez.
ESTA É A RADICALIDADE
DA HISTÓRIA!

26/3/1994 FOLHA DE S.PAULO
Manifestante em frente a barricadas em chamas durante protesto em Nantes contra projeto de diminuição de salários
Valdo e Yara – caderno Nº 0, Maio/94.

ENDEREÇO: VALDO/YARA
Av. Modesto Fernandes nº 615-A Barão Geraldo CAMPINAS – SP – BRASIL CEP. 13085-820
FONE (0192) 39-5844

OBS: Esta contribuição ao Seminário dos 20 anos do AEL foi entregue, em mãos, à coordenação do Arquivo.
Setembro/94.

APRESENTAÇÃO: VALDO (Valderi Antão Ruviaro), atualmente desempregado e YARA Silvia Tucunduva também desempregada. Os comentários que seguem são resultados de observações feitas por VALDO e YARA no correr do Seminário. Como os comentários eram um pouco prolongados e o tempo curto, foi feita uma consulta à MESA DE ENCERRAMENTO no sentido de incorporar, por escrito, nossa contribuição ao quadro geral do seminário. A mesa concordou. Segue o texto conforme o combinado. Data do texto: 28/08/94. Nº de páginas: 08.

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Uma resposta para A Universidade e o Velório

  1. Magda disse:

    Oi Yara e Valdo, tudo bem, não sei se vcs. irão receber este e-mail, ficaria muito feliz pelo sim……e principalmente em saber que vcs. estão caso recebam, gostaria muito que vcs. me escrevessem no meu correio eletronico para ter notícias….bjs……..Magda…..ufa foi dificil achar vcs…

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